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Luís Osório recorda Rogério Samora: “Era agressivo, mas era um ator extraordinário. Nunca foi verdadeiramente amado pelo povo”

Luís Osório dedicou o seu mais recente ‘Postal do Dia’ no Facebook a Rogério Samora.

O jornalista começou por recordar que conheceu o falecido ator “há mais de vinte anos”: “Jantámos um par de vezes. Convenci-o a participar no grande final de “Zapping”, porventura o programa preferido (juntamente com Portugalmente) entre os que “inventei” no meu curto percurso televisivo. O Rogério participou nos dois últimos episódios da série. E o seu papel era o de dividir, de retirar o pior dos personagens, de os provocar. O programa vivia da ambiguidade entre a ficção e a realidade.E interessava-me que Rogério fizesse de si próprio. Interessava-me que fosse inclemente com os outros personagens, que os provocasse, que os retirasse da zona de conforto. Fê-lo com brilhantismo”.

Rogério Samora morreu aos 62 anos, faz agora 15 dias. E foi enorme a discrepância entre a importância do seu percurso e o modo demasiadamente discreto como foi celebrada a sua partida. Rogério foi o ator mais poderoso da sua geração. (…) Rogério não era, nas definições mais convencionais, uma “boa pessoa”. Era agressivo, atemorizava as pessoas quando chegava, se impunha ou fazia questão de marcar posição e lixar as verdades adquiridas. Era excessivo, absoluto e obsessivo. Não era agradável por tudo nele ser combate e perfecionismo – a maioria de nós não consegue tolerar pessoas assim, não há pachorra. Mas o Rogério era um ator extraordinário e um homem capaz de ser terno e de surpreender com um abraço ou um sorriso nos olhos”, prosseguiu.

Luís Osório destacou: “O seu papel em “O Delfim” (Palma Bravo) fica na história do cinema português. Mas as suas participações em filmes de Manoel de Oliveira, Miguel Gomes, Luís Filipe Rocha ou Raoul Ruiz tornaram-no incontornável. Mas também alguns papéis no teatro o fizeram imortal. A começar pelos personagens da sua juventude quando o teatro português ensaiava a revolução nos costumes e tentava virar o mundo do avesso. Ainda hoje se fala entre os mais velhos das subversivas peças da Casa da Comédia, a começar por um “Pasolini” que ele interpretou com pouco mais de 18 anos, encenado por um Filipe La Féria ainda longe do teatro popular e dos musicais que o celebrizaram”.

Quando ficou doente e internado – em plenos Globos de Ouro – o seu nome não foi pronunciado. A SIC teve a humildade de corrigir (e bem) à posteriori. No seu longo e penoso internamento o país não acompanhou com preocupação ou lágrimas o seu combate pela vida como sucedeu com outras figuras em circunstâncias idênticas. Quando morreu foi tudo muito discreto. O país despediu-se de um ator que nunca foi verdadeiramente amado pelo povo. Os seus amigos disseram presente, mas mesmo assim alguns deixaram cair um “mas”. Felizmente os que o amavam, e não eram tão poucos quanto isso, souberam oferecer-lhe um último palco”, lamentou.

Um quase esquecimento que não vem de agora. Sabem quantos prémios de representação ganhou? Um único e atribuído pela TV 7 Dias. Rogério não ganhou globos de ouro ou qualquer outro prémio. Ao contrário de dezenas de colegas cujo talento, na larga maioria dos casos, estava a quilómetros do seu. Foi o preço a pagar. E ele sabia-o”, acrescentou.

Não era empático. Não nos comovia com histórias suas. Não nos emocionava com a sua vida. Por isso, preferimos emocionar-nos quando morre alguém que, sendo menor, nos saiba abraçar e oferecer-nos um pouco da sua vida. O Rogério não o fez. Ah, mas foi grande.  Marcante. Um dos melhores de sempre. Único. É desse homem que nos devemos despedir. Era desse ator que o Rogério gostava que nos despedíssemos… porque o resto, quando comparado com o que nos deixa, é secundário”, rematou.

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