1ª Companhia rescaldo: O monólogo de Iva Domingos e a arte de comentar um programa que não se viu
Análise ao final da Primeira Companhia da TVI. A vitória justa de Rui Freitas, o fenómeno Filipe Delgado e as desilusões do reality show militar.
Vinte anos depois, a TVI ressuscitou a Primeira Companhia com o mesmo Comandante Moutinho.
A introdução da emissão 24 horas trouxe uma perspetiva nova, que não existia na altura, revelando personagens engraçadas e um espírito mais militarizado que conquistou o público.
No entanto, o formato teve de ser mais curto porque as instruções demasiado longas tornavam o ambiente um pouco monótono, o que se acabou por refletir nas audiências. Apesar de as pessoas terem gostado do conceito, este não conseguiu prender as massas de forma a garantir um sucesso absoluto.
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No centro desta edição está o Rui Freitas, o grande e justo vencedor. O jovem cantor de Vizela, apesar da enorme pressão e do medo de prejudicar a sua carreira e a do seu grupo musical, mostrou uma grande resistência, especialmente ao lidar com as atitudes descontroladas do Pedro Barroso. A sua postura calma e sem respostas tortas deu-lhe uma popularidade gigante, com uma mobilização de votos do Norte que culminou numa vitória muito bem entregue. Ao seu lado, a Soraia Sousa também merece destaque; foi uma recruta fantástica, com um espírito e capacidade militar incríveis, e se tivesse ganho seria igualmente justo.
Ainda assim, quem realmente fez o programa acontecer foi o Filipe Delgado. Com um carisma natural, divertido e com saídas muito rápidas e genuínas, ele foi o motor da casa. Quando tentava forçar a piada, percebia-se e ficava logo atrapalhado, o que só mostrava a sua transparência. O seu futuro cá fora parece muito promissor, sendo fácil prever que terá muito sucesso na sua carreira musical, à imagem de um Jorge Guerreiro, e também na sua profissão de cabeleireiro, tirando grande proveito de toda esta experiência.
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O percurso do Nuno Janeiro, mais calado, mas sempre com uma palavra amiga e a dar o corpo às balas, trouxe à tona o estigma que afeta os atores nestes formatos. Como a Marta Gil já referiu, há um preconceito injusto com quem vem da representação e entra num reality show, o que levanta dúvidas sobre se esta participação lhe trará reais lucros para a carreira. Já o Pedro Barroso entrou mal e perdeu completamente o fio à meada, mas teve o enorme mérito de perceber que estava perdido e assumir a derrota antes de se prejudicar ainda mais.
Analisando o restante grupo, vemos perfis muito variados: a Kina entrou com uma atitude de diva à espera de privilégios e a sua prestação foi péssima. A Soraia Carrega também falhou, reclamando muito e assumindo um papel dramático que ditou a sua saída na altura certa.
O Valter Carvalho acabou vítima de uma decisão prematura do público, pois tinha potencial físico e de grupo, enquanto o Rodrigo Castilhano, apesar de bem preparado, voltou a provar que não acrescenta conteúdo. O Manuel Melo, que foi quase até à final, mostrou traços demasiado intriguistas para o meu gosto, uma característica que também vi na Andrea Soares, que, apesar de ser uma cantora fantástica com provas dadas na gala (e ao longo dos anos), foi uma concorrente bastante problemática no convívio da casa.
Vale a pena destacar a Noélia, que enfrentou um ataque cerrado e muito preconceito por parte do grupo, mas aguentou-se com fibra e chegou a um honroso quarto lugar sem se deixar vergar. A Sara Santos, mesmo sendo desajeitada, trouxe uma teatralidade divertida, e a Joana d’Arc personificou a superação de problemas de saúde, embora a sua presença na final seja muito discutível face ao percurso de outros concorrentes.
A gala final foi interessante e a Maria Botelho Moniz esteve irrepreensível, afirmando-se cada vez mais como a estrela na apresentação destes formatos.
Nos comentários, porém, a história foi diferente. Se o Adriano Silva Martins e o Isabel Figueira trouxeram sempre análises sensatas e com sumo, comentadores como o António Leal e Silva pareceram estar ali apenas a fazer boneco sem verem o programa. Um ponto crítico foi a postura da Iva Domingos, tende a interromper constantemente, dificultando a quem comenta e por sua vez à imprensa e não deixando o comentário fluir com naturalidade, um aspeto em que o Nuno Eiró e a Marta Cardoso dão cartas absolutas.
Com a estreia da Casa dos Segredos já a seguir, fica a esperança de que um painel de comentadores mais ativo e as novas dinâmicas tragam um maior aproveitamento do formato diário, compensando a dinâmica que acabou por faltar nesta recruta atípica.