23 horas de cela e uma missa ao domingo: A rotina de Renato Seabra na prisão dos EUA
O lento crepúsculo de Renato Seabra em Nova Iorque

Entre surtos psicóticos e o apoio na fé, Renato Seabra aguarda por uma liberdade que, a chegar, só terá rosto em 2036.
Quinze anos depois do homicídio de Carlos Castro, o antigo modelo vive num regime de isolamento quase total, o home que hoje é um nome que ecoa como um aviso trágico na memória coletiva portuguesa. Dos ecrãs de televisão e das passarelas para uma cela de alta segurança nos Estados Unidos, o jovem que aos 21 anos assassinou o cronista Carlos Castro cumpre agora uma rotina de silêncio, marcada pela fragilidade mental e pela esperança distante de uma extradição que tarda em chegar.
A distância entre o Hotel InterContinental, em Times Square, e as grades de uma das prisões mais severas do sistema norte-americano não se mede apenas em quilómetros, mas em anos de uma juventude perdida. Renato Seabra, que em 2011 protagonizou um dos crimes mais violentos e mediáticos envolvendo figuras públicas nacionais, é hoje, segundo a revista Flash e relatos da CMTV, um recluso que procura na disciplina e na religião o equilíbrio que a mente lhe nega.
A vida de Seabra resume-se agora a um espaço exíguo. Passa 23 horas por dia em isolamento, dispondo apenas de uma hora de recreio para observar o mundo através do pátio prisional, contudo, é dentro desta rigidez que o antigo modelo encontrou um papel inesperado: o de sacristão. Aos domingos, Seabra despe a farda de recluso – marcada pelo comportamento que os guardas descrevem como “exemplar” – para auxiliar na celebração da missa, pois é o seu único contacto regular com a transcendência e, talvez, com a normalidade que deixou para trás no Porto.
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Apesar da postura cordial com as autoridades prisionais, o percurso de Renato tem sido fustigado por fantasmas internos. O sistema prisional norte-americano, conhecido pela sua dureza, tem sido o cenário de sucessivos surtos psicóticos. Estes episódios de descompensação obrigaram-no a períodos prolongados na enfermaria, revelando que a saúde mental do português continua a ser o elo mais fraco da sua sobrevivência no cárcere.
A história que começou com um beijo num hotel portuense – símbolo de uma relação complexa e desigual com Carlos Castro – desmoronou-se em Manhattan sob a forma de um crime de extrema violência. Hoje, Seabra convive com os criminosos mais perigosos do país, num ambiente onde a sua única âncora parece ser o apoio inabalável da mãe e da irmã, que aguardam por um desfecho a décadas de distância.
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Para a justiça americana, o tempo corre devagar e a primeira oportunidade de Renato Seabra ver o seu caso reavaliado por uma comissão de liberdade condicional está marcada apenas para 2035. Se o parecer for favorável, poderá recuperar a liberdade em 2036, ano em que completará 46 anos – mais de duas décadas depois de ter entrado no sistema. Até lá, resta-lhe a rotina estéril da clausura e a esperança de que, um dia, o regresso a Portugal deixe de ser um delírio para passar a ser um bilhete de identidade.