Ana Abrunhosa arrasa falha de comunicação do Governo durante as cheias: “Nós temos que ser ouvidos”
A antiga ministra marcou presença no programa matinal da TVI para fazer um balanço do comboio de tempestades que atingiu Coimbra. A autarca partilhou ainda memórias difíceis da sua juventude.
A presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, foi a convidada de Cristina Ferreira no programa Dois às 10 desta manhã.
A autarca fez um balanço dos enormes desafios que a cidade tem enfrentado com o recente comboio de tempestades, que provocou o transbordo do rio Mondego, o colapso de parte da A1 e a evacuação de lares e habitações.
Conhecida por ser destemida e não ceder a pressões, a antiga ministra da Coesão Territorial trocou o gabinete pelo terreno e aproveitou a conversa televisiva para deixar uma crítica à forma como a coordenação governamental foi gerida durante a crise: “A senhora Ministra do Ambiente, sempre que vai, reúne connosco com tempo e depois, quando falamos à comunicação social, estamos completamente articulados, fala à comunicação social depois de nos ouvir. Mas, volto a dizer, considero muito o senhor Ministro, considero que deveria ter havido uma reunião previamente para nos ouvir, até para saber o que comunicar. A reunião houve depois, foi na inversão”.
A presidente do município de Coimbra reforçou a urgência de apoiar quem perdeu o seu sustento nas inundações e exigiu respostas céleres do poder central: “Portanto, a minha atitude foi para dizer, nós temos que ser ouvidos, as medidas têm que ser adequadas, nós estamos com agricultores que não vão poder reerguer-se nos próximos tempos e são situações muito, muito graves”.
Durante a entrevista, Cristina Ferreira quis conhecer o lado mais pessoal da convidada e questionou se esta personalidade forte já a acompanhava desde miúda. Ana Abrunhosa confirmou e recordou o enorme choque cultural que sentiu ao trocar Angola por uma aldeia do interior de Portugal aos cinco anos de idade: “Nasci em África mas recordo muito pouco, vim com 5 anos. Portanto, eu recordo muito pouco, mas recordo o choque de chegar à Beira-Alta. Em primeiro lugar, desconhecia aquela realidade de animais nas ruas e eu assustava-me. Depois tive um ano para entrar em casa da minha avó, porque em África não havia lareiras e na Beira-Alta, na altura, as lareiras eram uns buracos ao fundo da cozinha, pretos”.
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Apesar dos medos iniciais, a autarca guarda memórias de uma infância feliz e marcada por uma grande liberdade nas brincadeiras e no duro caminho para as aulas: “Então, lembro-me que eu não entrava em casa das minhas avós porque, estou a falar do interior da Beira-Alta. Mas fui muito feliz, porquê? Porque andava na rua, porque tinha uma liberdade que não tinha. Em crianças, não sentimos o frio. Íamos a pé para a escola, fazíamos cerca de dois quilómetros e tínhamos uma professora maravilhosa, muitas das vezes chegávamos completamente encharcados. Era o que era na Beira-Alta”.
A ambição falou mais alto na adolescência e Ana Abrunhosa confessou que a região depressa se tornou pequena para os seus sonhos, o que a obrigou a emancipar-se bastante cedo para conseguir prosseguir os estudos: “E que queria sair. E, portanto, saí aos 15 anos, também numa altura em que havia o antigo nono ano, saí para a Guarda, um município muito fechado, foi muito difícil. Sobrevivi, vivi sozinha a partir dos 15 anos. Sozinha. Sempre com o carinho muito grande da minha mãe, que é sempre a pessoa muito especial, todos temos uma pessoa muito especial da nossa vida”.