Do Big Show SIC à Casa Feliz: A confissão de João Baião aos 30 anos e a biografia de um ícone
Numa entrevista de 1995, o então jovem ator prometeu nunca largar o teatro pela televisão. Três décadas depois, o apresentador cumpriu a palavra e construiu um império de sucesso inabalável.
João Baião é, sem margem para dúvidas, um dos maiores nomes do entretenimento em Portugal.
Atualmente a espalhar energia nas manhãs e nas tardes de fim de semana da SIC, o apresentador construiu um percurso ímpar que cruza a caixinha mágica e os palcos de teatro. Mas para entender a dimensão deste furacão, é preciso recuar à génese do seu mediatismo.
Apesar de já ter dado provas do seu talento na mítica Grande Noite da RTP1 e de ser imensamente acarinhado no teatro, foi em 1995, com a estreia do estrondoso Big Show SIC, que o ator se transformou num fenómeno nacional.
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Na altura em que o programa de domingo à tarde se preparava para ir para o ar, um João Baião com apenas 30 anos concedeu uma entrevista à extinta revista Tele Jogos (em maio de 1995), à jornalista Fátima Rodrigues Pereira, onde desvendava a essência do formato desenhado por Ediberto Lima: “É um programa de entretenimento onde se pretende divulgar a música portuguesa, paralelamente a muita gente jovem que deseja, ou não, seguir carreira no espectáculo. Para mim é um desafio, como o são todos os projectos de que faço parte. Até hoje tenho tido oportunidade de fazer coisas diferentes e cada uma é sempre uma experiência nova e por isso gratificante.”
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Consciente de que a sua energia hiperativa não cabia num molde tradicional, o jovem talento traçou logo ali a sua assinatura inconfundível. “Não pretendo fazer uma apresentação dentro dos parâmetros normais, quero torná-la mais teatral, tanto que em cada programa «visto» uma personagem diferente.”
O amor aos palcos era, e continuou a ser, inegociável. Mesmo perante o sucesso televisivo, Baião recordou a importância da revista que estava a fazer na altura para o seu crescimento profissional. “«Pernas Pró Ar» foi um espectáculo que me deu muito prazer, fui muito acarinhado por todos e como fiz parte da autoria e da assistência de encenação esse carinho e, ao mesmo tempo o respeito, tornaram-se maiores. Isto sem falar no público que me recebeu calorosamente. Gostei muito e tenho saudades!”
A eterna questão sobre a preferência entre a representação e o ecrã não o intimidava. Numa perspetiva muito terra a terra sobre a realidade artística do país, deixou claro que a exclusividade nunca estaria nos seus planos: “Um actor em Portugal não se pode dar ao luxo de trocar um projecto em prol de outro, não há mercado de trabalho para isso. De qualquer maneira, acho que da diversidade de experiências se aprende mais. Um actor cresce muito mais quando domina a linguagem da televisão e do teatro. Enquanto puder, tentarei conciliar as duas linguagens…. no fundo, é o que tenho feito, já que nunca parei de fazer teatro.”
A ambição de fazer sempre mais já fervilhava na sua mente. Com a agenda preenchida, o então promissor apresentador levantava a ponta do véu sobre o que aí vinha. “Para além do que estou a fazer, pretendo começar a ensaiar um novo espectáculo de café-concerto. Para além disso, tenho o projecto para um programa, escrito em co-autoria com o Joaquim Monchique, já entregue às estações de televisão, agora esperamos uma resposta para avançar… Ah, e este ano vou participar novamente nas Marchas Populares, algo que me dá muito prazer! Vou ser, juntamente com Teresa Guilherme, padrinho da Marcha da Bica.”
De 1995 aos dias de hoje: O percurso de uma lenda viva
A promessa de tentar conciliar as duas linguagens – televisão e teatro – foi cumprida de forma exímia ao longo das últimas três décadas. Depois da explosão meteórica do Big Show SIC, que apresentou até ao ano 2000, João Baião revolucionou a forma de comunicar em Portugal. O seu estilo elétrico, pautado por saltos, gritos de alegria e uma proximidade genuína com o público, tornou-se irrepetível. Entre 1998 e 2001, protagonizou ainda a sitcom Bom Baião, cimentando o seu lugar na ficção cómica do canal.
A viragem do milénio trouxe-lhe novos desafios e uma mudança de camisola. Na RTP, assumiu as manhãs da Praça da Alegria e mais tarde as tardes do Portugal no Coração. Foi na estação pública que formou com Tânia Ribas de Oliveira uma das duplas mais queridas e icónicas da história da televisão portuguesa, numa ligação de amor e cumplicidade que perdura até aos dias de hoje.
Em 2014, o “filho pródigo” regressou à casa de partida. A SIC recrutou-o para apresentar o formato de sábado à noite Sabadabadão (ao lado de Júlia Pinheiro) e as tardes do canal com os programas Grande Tarde e, mais tarde, Juntos à Tarde. Em 2019, o canal entregou-lhe as manhãs de fim de semana com Olhó Baião!, reforçando o seu estatuto de animador de massas.
Contudo, a verdadeira prova de fogo do seu percurso recente aconteceu no verão de 2020. Com a saída abrupta de Cristina Ferreira da SIC, a estação precisou de encontrar uma solução de emergência em 48 horas. João Baião e Diana Chaves formaram uma dupla improvável, mas certeira, e assumiram a condução do Casa Feliz.
O sucesso foi imediato e os dois mantêm-se como os anfitriões indiscutíveis das manhãs de Paço de Arcos até aos dias de hoje. Em simultâneo, Baião tornou-se o grande comandante do Domingão, um formato popular que tem dominado as audiências dos domingos à tarde.
Paralelamente, o teatro nunca ficou esquecido. Colaborou em várias mega-produções de Filipe La Féria (como Maldita Cocaína ou A Gaiola das Loucas) e, mais recentemente, tornou-se num fenómeno de bilheteira em nome próprio. Com espetáculos como Monólogos da Vacina e o estrondoso sucesso da peça Feliz Aniversário, João Baião passou a década de 2020 a esgotar as maiores salas do país de norte a sul. Aos 62 anos, o artista multifacetado continua a ser a personificação máxima de trabalho, alegria e paixão pelo público.