Marcelo Rebelo de Sousa: A nova vida, o adeus à política e o vinho ‘enganador’ de Seguro
Na primeira entrevista após deixar Belém, o ex-Presidente da República revela como foram os primeiros dias de liberdade. Promete não fazer sombra ao seu sucessor e elogia a ementa da tomada de posse.
Na sua primeira entrevista após deixar a Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa confessa como foram os seus primeiros dias de “liberdade”.
O ex-chefe de Estado revela os detalhes da saída de São Bento, os convites que rejeitou e os seus planos longe da esfera política.
Dez anos depois, Marcelo Rebelo de Sousa regressou à sua vida de cidadão comum. O homem que habituou os portugueses a uma agenda frenética garante que a sua saída de Belém não foi um choque. “Na minha vida familiar isso foi o pão nosso de cada dia”, recordou o ex-Presidente, lembrando que assistiu desde criança às entradas e saídas do seu pai, Baltazar Rebelo de Sousa, dos cargos governativos. “Para mim, entrar e sair é a coisa mais normal do mundo”, garantiu na sua entrevista exclusiva à TV Guia.
As primeiras horas fora do cargo não serviram para dormir até tarde, e Marcelo detalhou que, no dia da tomada de posse (9 de março), após o jantar, passou “o serão no telemóvel a ler as mensagens e em parte do dia seguinte passei por escrito a agradecer a todos, para não deixar acumular, o que se tornaria uma maçada monumental”. O dia 10 foi de recolhimento em Cascais: “Foi um dia passado a arrumar livros e papéis em casa”, revelou, acrescentando que no dia 11 ainda conseguiu “dar um pulo à praia, mas não nadei porque tinha que ir para Lisboa”.
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Sobre o momento exato em que passou a pasta a António José Seguro, Marcelo não esconde que quis despachar o processo e fugir das longas filas de apertos de mão. “Fiquei despachado muito rápido, às 11h20. O Presidente [Seguro] é que teve de ficar para os cumprimentos – essa chatice que dura e dura”, atirou entre risos. Mais tarde, na receção após ter sido condecorado, voltou a usar a mesma tática: “Dei uma volta curta na receção, de sete ou oito minutos, e saí. Aquilo ia ser uma coisa… Eu lembrava-me bem. Foram para aí duas horas ou duas horas e meia de cumprimentos, uma brutalidade”.
Apesar de sublinhar que “não vai ficar parado”, Marcelo Rebelo de Sousa traçou uma linha vermelha para o seu futuro. “Em princípio, em relação a tudo o que tinha a ver com política, declinei. Poder local declinei, Poder Autonómico declinei”, confessou. A sua nova agenda, que está a ser programada para os próximos seis meses, será preenchida com escolas, feiras do livro e movimentos locais. “A minha ideia é fazer tudo para as minhas aparições serem o mais fora de temas políticos possível. Quero que sejam mais educativos, culturais e depois sociais”, explicou.
O objetivo deste afastamento é claro: não interferir com o mandato do novo Presidente da República. “Vou-me preservar o mais possível, dentro daquela orientação que um ex-Presidente não tem de fazer sombra do Presidente e intervir”, afirmou categoricamente, rematando que “ele [António José Seguro] é o Presidente, não há mais outros presidentes”.
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Nem todos os planos para o dia da transição correram como Marcelo queria. O tempo chuvoso impediu-o de ir dar um mergulho logo de manhã, e a duração dos eventos alterou os seus planos gastronómicos. “Saí de São Bento e houve o almoço do Presidente, logo não me deu para ir ao Galeto [restaurante em Lisboa] comer um bife com batatas fritas, fica para outra altura”, lamentou o ex-chefe de Estado.
Ainda assim, o almoço servido pelo novo Presidente em Belém deixou Marcelo muito agradado, especialmente a escolha da bebida. “Provei porque ele nos ofereceu durante o almoço e é ótimo. Chama-se Serra P’ e provei o branco e o tinto”, contou. Visivelmente entusiasmado com a escolha, fez questão de elogiar a graduação da bebida (14,5 graus): “Achei francamente bom. É um vinho da Beira Interior, muito graduado, mas que parece muito mais leve do que a graduação que tem. (…) Até é um bocadinho enganador porque é mais alcoólico do que parece”.
Para os que esperavam que Marcelo Rebelo de Sousa seguisse os passos de Cavaco Silva, que criou um site próprio após sair da Presidência para manter a sua voz ativa, o ex-Presidente tira as “teimas” e afasta esse cenário. “Para já não estou nada virado para isso”, assumiu, justificando a sua decisão com o histórico de outros antigos chefes de Estado: “Jorge Sampaio não teve, Mário Soares também não…”.