Ruben Rua aponta o dedo à falta de coragem na TV: “Preferem trabalhar para um público envelhecido”
No podcast 'Promenade Presents', o ex-rosto da TVI analisou a crise do setor. Para Ruben Rua, a televisão está presa num ciclo vicioso de repetição por medo de arriscar, ignorando o exemplo de reinvenção dado pela rádio. "A infância não tem botão de reiniciar", alertou, metaforicamente, sobre o futuro do meio.
Afastado dos ecrãs da TVI desde 2025, depois de quatro anos a conduzir o programa Em Família, Ruben Rua reapareceu publicamente para fazer uma análise cirúrgica e dura sobre o estado da televisão em Portugal.
O antigo “menino bonito” de Cristina Ferreira foi o convidado do Promenade Presents, onde, em conversa com o realizador Justin Amorim, diagnosticou uma indústria paralisada pelo medo das audiências imediatas e incapaz de preparar o futuro: “Eu acho que a televisão tem um problema de timing, ou seja, as pessoas trabalham para a audiência de hoje que sai amanhã. E há uma pressão gigante com os números”, começou por explicar.
Ruben Rua não poupou nas críticas às chefias dos canais, sugerindo que a vontade de inovar é frequentemente abafada pela tirania das tabelas de share diárias: “Eu acho que muitos diretores, ainda que tenham às vezes vontade em inovar e trazer algo mais novo, ou mais dinâmico, ou mais out of the box, sentem-se receosos porque amanhã vão ver os números de hoje”, argumentou. Para o modelo e apresentador, esta cobardia estratégica resulta numa grelha estagnada, onde se opta pelo caminho mais fácil: “Preferem às vezes trabalhar para um público mais envelhecido, com conteúdos que estão altamente viciados, do que se calhar pensarmos em fazer coisas de forma diferente”.
O excesso de ficção e o preenchimento de horários sem critério foram outros dos pontos visados. Ruben Rua questionou a lógica de “encher chouriços” em vez de apostar na qualidade: “Será que temos que ter três novelas? E se tivéssemos se calhar só uma e… Não sei, estamos aqui a dar… Porquê que temos necessidade a encher com muitas coisas porque o dinamismo é que dá à audiência? Se calhar não é exatamente assim”, refletiu. Como contraexemplo de sucesso, o comunicador apontou a rádio, um meio que muitos davam como morto com o advento do streaming, mas que soube adaptar-se. “A rádio reinventou-se e está forte e está viva”, elogiou.
O tom da conversa tornou-se mais sombrio quando Ruben Rua projetou o futuro da televisão a médio prazo, deixando um aviso sério sobre a sustentabilidade do modelo atual face à demografia dos espectadores: “A televisão ainda não percebeu como é que se pode transformar para perdurar. E a grande parte do público que vê a televisão hoje, daqui a 20 anos, já não existe. Daqui a 10 anos, grande parte, já não existe”, alertou. O ultimato deixado pelo ex-apresentador da TVI foi claro: é adaptar ou morrer: “Portanto, temos duas opções: ou arriscamos e transformamos e podemos sobreviver, ou ficamos onde estamos, ganhamos hoje, mas amanhã já não vamos estar cá”.