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“Deixem-na ser como é”: O dia em que Luís Forjaz Trigueiros analisou o fenómeno Amália em 1944

Das críticas visionárias do jornalista Luís Forjaz Trigueiros em 1944 até às derradeiras confissões da fadista em 1999. A vida e o fim da carreira de Amália Rodrigues.

O percurso de Amália Rodrigues confunde-se com a própria história da cultura portuguesa do século vinte.

Da jovem que despontava em 1944 à lenda consagrada que se despediu em 1999, a fadista viveu o esplendor e a dureza da ribalta. Ao unirmos os relatos da sua ascensão inicial e as suas derradeiras confissões, obtemos o retrato fiel de uma mulher que viveu para o palco.

Numa publicação de 1944, o jornalista Luís Forjaz Trigueiros foi chamado a analisar o fenómeno precoce da artista. Na rubrica ‘Diga o que pensa’, o texto de introdução refletia a curiosidade da época: “Amália Rodrigues ascendeu rapidamente a figura de grande cartaz. Foi a sua voz de oiro? Foi a sua simpatia pessoal? Foi a sua graça de cantadeira castiça ou virtudes de atriz que fizeram dela o ídolo das plateias – porque o é e aqui não se discutem os porquês ou os senões – mesmo daquelas mais exigentes?”

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Com o pragmatismo e a isenção que o caracterizavam, Forjaz Trigueiros não poupou o mercado, mas elevou a artista: “Admiro a «cantadeira» Amália Rodrigues – e só lamento que alguns empresários tentem fazer de Amália Rodrigues «atriz»… Cada um é para o que nasce!”. Reforçando a pureza do talento de Amália, acrescentou: “Cantadeira – note que não digo fadista – Amália Rodrigues é uma chama em movimento; aprecio-a, sobretudo, quando a oiço em canções portuguesas, e gosto de certos fados que ela canta. Mas creio que estão a estragá-la e a abastardá-la, impondo-lhe torpes imitações de cançonetistas espanholas, aplaudindo-lhe Vargas Herédias e quejandos, ou – o que ainda é pior – pedindo-lhe que cante sambas ou «marchinhas» brasileiras. Deixem-na ser como é e não a convençam de que pode ser diferente!”

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Sessenta e cinco anos volvidos, a cantadeira de 1944 era já uma figura universal. Na sua última entrevista, concedida a Felícia Cabrita e publicada na Revista Tabu em 1999, pouco antes do seu falecimento, Amália abordou a sua vida com enorme desprendimento. Questionada sobre a sua estabilidade financeira, foi direta: “Financeiramente não estou assim muito bem. Tenho esta casa, que já tenho há muito tempo, comprei-a há trinta e não sei quantos anos, fiz umas obras e ficou assim. Os azulejos já estavam alguns cá. Antes de mim era uma casa cheia de gente, um quartinho, outro, outro… Estava muito estragada.”

O afastamento das luzes da ribalta não foi uma escolha, mas uma dolorosa imposição do corpo. “Eu não decidi coisa nenhuma, nem abandonei a carreira! Deixei de cantar em público porque estava doente”, esclareceu. A descoberta do tumor pulmonar foi um susto providencial, após várias suspeitas sobre as cordas vocais: “Fui a um especialista de pulmões e ele viu-me à radioscopia. Deu-me um anti-inflamatório e vim-me embora. E já estava há quatro anos aquele tumor no meu pulmão. Tanto é assim que o médico lá da América disse: «Se a senhora não tivesse cá entrado agora, não se podia fazer nada». O que me salvou foi a doença.”

Afastada da euforia, a rotina pautava-se pela simplicidade e pelo refúgio na natureza: “Com o tempo melhor, vou para Monsanto. Vou para o campo. Não gosto de andar na cidade. Não tenho paciência nenhuma para a cidade, tem muitos carros, tem muita coisa. E gosto de andar às flores, de andar às ramadas das árvores”.

A memória levava-a também a outros refúgios da capital: “Vou à Tapada da Ajuda. Quando era miúda atravessava sempre aquela parte da Ajuda que estava perto da minha escola. […] Então vou lá para andar um bocadinho e à procura de não ter gente. No outro dia roubei uma flor, roubei outra, e depois saí dali a cantar. E ficou tudo a olhar para mim. Ao mesmo tempo sou muito infantil. Não sou parva, mas pareço…”

Sobre o peso de ter agarrado a glória tão cedo e a inevitabilidade do fim, Amália manteve a lucidez fatalista que transbordava da sua voz: “A glória… Não há ninguém que tenha a glória para toda a vida. Isso faz-se com a vida. A morte mata isso tudo. E não vou ser só eu quem vai morrer.” Quando confrontada com a certeza de que a sua voz nunca morreria e ficaria para sempre na memória do povo, a fadista concluiu com um misticismo peculiar: “Isso já as pessoas que morreram não sabem. Não sei se lá, no outro mundo, se sabe alguma coisa…”

O jornalista que a analisou no início de tudo, Luís Forjaz Trigueiros, destacou-se igualmente pelo seu vasto legado. Nascido em Lisboa a 15 de abril de 1915, iniciou a sua atividade jornalística precocemente, em 1931, no ‘Notícias de Alcobaça’. A sua carreira na imprensa foi notável, tendo colaborado em diversas publicações e sido um dos fundadores do ‘Bandarra’. Entre 1946 e 1953, assumiu a direção do ‘Diário Popular’, onde convidou nomes como Vitorino Nemésio, David Mourão-Ferreira e Gilberto Freire a colaborar, enriquecendo significativamente o panorama cultural da época. Posteriormente, entre 1954 e 1974, foi uma presença assídua no ‘Diário de Notícias’.

Para além do jornalismo, Forjaz Trigueiros afirmou-se como ficcionista, estreando-se em 1936 com ‘Caminho Sem Luz’, obra que lhe valeu o Prémio Fialho de Almeida. A sua produção literária abrangeu uma vasta gama de temas, com particular ênfase na cultura e literatura brasileira, que conhecia profundamente. Entre as suas obras contam-se títulos como ‘Capital do Espírito’ (1939), ‘Ainda Há Estrelas no Céu’ (1942), ‘Pátio das Comédias’ (1947), ‘Perspetivas’ (1961), ‘Ventos e Marés’ (1967), ‘Novas Perspetivas’ (1969), ‘Monólogo em Éfeso’ (1972) e ‘O Carro do Feno’ (1974).

Ao longo da sua vida, Luís Forjaz Trigueiros foi agraciado com diversas condecorações, incluindo a Ordem Nacional da Legião de Honra, a Comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, a Ordem de Leopoldo e a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, testemunhos do reconhecimento do seu vasto contributo para a cultura e as letras. Faleceu em Lisboa a 16 de setembro de 2000, aos 85 anos, deixando um legado inspirador para as novas gerações.

O seu percurso profissional estendeu-se também ao universo editorial, tendo sido membro do Conselho Fiscal da Editora Bertrand de 1948 a 1951, e posteriormente administrador até 1974. A sua paixão pela cultura brasileira levou-o a dirigir a Editora Nova Fronteira, no Rio de Janeiro, entre 1975 e 1978. Dirigiu ainda o Centro de Estudos Brasileiros do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, consolidando o seu papel como ponte cultural entre os dois países.

Ao longo da sua vida, Luís Forjaz Trigueiros foi agraciado com diversas condecorações, incluindo a Ordem Nacional da Legião de Honra, a Comenda da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, a Ordem de Leopoldo e a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, testemunhos do reconhecimento do seu vasto contributo para a cultura e as letras.

Faleceu em Lisboa a 16 de setembro de 2000, aos 85 anos, deixando um legado que continua a inspirar novas gerações de escritores e jornalistas.

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