Por trás da exuberância, das cores vibrantes e da aparente autoconfiança inabalável que conquistou a internet há mais de uma década, escondia-se uma realidade de profunda dor e negação.
Francisco Soares, que o público português se habituou a tratar por Kiko is Hot, revelou numa conversa despida de artifícios que a criação desta persona não foi um ato de vaidade, mas sim um mecanismo de sobrevivência desesperado.
O nome, que hoje ressoa como uma marca de sucesso, nasceu no quarto de um adolescente que utilizava a câmara como o único espelho onde conseguia suportar a própria imagem, enquanto o mundo exterior o tentava convencer de que a sua existência era um erro.
A escolha do pseudónimo “Kiko is Hot” foi, na verdade, a maior mentira que Francisco contou a si próprio para conseguir sair de casa e aos dezasseis anos, mergulhado num cenário de rejeição constante, o jovem sentia que precisava de criar uma barreira intransponível entre a sua essência fragilizada e a crueldade do bullying escolar.
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Francisco confessa que escolheu esse nome precisamente porque sabia que tinha de exuberar uma confiança que, no seu íntimo, era inexistente e, o contraste entre o nome e a realidade era violento, uma vez que, enquanto o mundo via um jovem a afirmar-se como “quente” ou atraente, o rapaz por trás da lente estava “cheio de acne, a odiar-me e a ser gozado todos os dias”.
Esta armadura digital permitiu-lhe simular uma força que o Francisco real não possuía e a personagem foi construída sobre os escombros da autoestima de um miúdo que se sentia mal compreendido e sozinho, transformando a vulnerabilidade numa identidade assumida e forte apenas para não ser destruído “Foi um bocado uma defesa que eu tive“, admite o criador de conteúdos, explicando que a exuberância servia para mascarar o facto de odiar quem via no espelho todas as manhãs. Durante anos, a confiança foi uma performance necessária para enfrentar um quotidiano onde o ódio dos outros era a única constante, forçando-o a acreditar na própria mentira até que ela se tornasse uma verdade social.
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A reconciliação entre o Francisco e o Kiko só começou a desenhar-se quando a necessidade da armadura deu lugar à paz da identidade e hoje, aos trinta e um anos, o influenciador olha para o passado com o orgulho de quem sobreviveu a um período em que acordar era uma tarefa banal e pesada, desprovida de qualquer entusiasmo.
A fusão entre o homem e a personagem permitiu-lhe finalmente admitir que aquele escudo de “hot” já não é necessário, pois a segurança que outrora era fingida tornou-se agora real e, Francisco Soares é a prova de que o sítio de sofrimento onde muitos jovens se encontram hoje não é permanente e que, por vezes, é preciso inventar um herói para salvar o miúdo que está a sofrer em silêncio dentro de um quarto.
Tânia Ribas de Oliveira e Kiko is Hot revelam passado comum na escola