Joana D’Arc desafia a norma militar: “A minha identidade fica guardada na gavetinha?”
Joana D´Arc e instrutor Marques em desacordo sobre 'disciplina'
Uma instrução sobre disciplina militar transformou-se num debate filosófico entre o Instrutor Marques e a recruta Joana D’Arc.
O Instrutor Marques e a recruta Joana D’Arc protagonizaram um momento de ‘tensão intelectual’ durante uma aula de disciplina, expondo as fragilidades e as fronteiras da identidade civil quando confrontada com o rigor do Código de Justiça Militar.
A premissa da “1ª Companhia” é clara: transformar civis em recrutas, contudo, a transição não é pacífica para quem questiona a raiz da autoridade. Joana D’Arc, uma das recrutas mais vocais do formato, confrontou diretamente o Instrutor Marques sobre a perda de identidade no ambiente militar, lançando a dúvida: será a obediência cega uma forma de anulação do “eu”?
O debate começou quando Joana questionou se a sujeição constante a ordens não acabaria por apagar quem o militar é enquanto pessoa, e perante a negativa do instrutor, a recruta insistiu num cenário comum de injustiça percebida: “O instrutor agora dá-me uma ordem (…) mas por dentro eu sinto que estou a ser injustiçada e que não a quero cumprir (…) Nesta parte a minha identidade vai ficar guardada na gavetinha porque eu vou cumprir a ordem. Portanto, a minha identidade fica colocada aqui.”
Marques, mantendo a postura pedagógica mas firme, rebateu a lógica da recruta, argumentando que a escolha de um militar para uma missão é, em si mesma, uma validação da sua identidade: “A sua identidade nunca está colocada em causa (…) Por ser a Joana a escolhida, o instrutor está a pôr fé em si, na sua identidade enquanto pessoa.”
A discussão atingiu o seu ponto alto quando se abordou o limite ético da obediência, ao qual Joana D’Arc questionou se era sequer possível manifestar desagrado, ao que o Instrutor Marques esclareceu que o direito à reclamação existe, mas raramente suspende o dever de agir. No entanto, há uma exceção absoluta: a prática de um crime.
Num momento pedagógico sobre o Código de Justiça Militar, o instrutor explicou: “É se uma ordem de um superior hierárquico potenciar um possível crime. Se eu lhe pedir ou se eu lhe emanar uma ordem para você executar um crime, essa ordem não é possível, por si, de ser cumprida. Você pode e deve negar-se a fazê-lo.”
Para ilustrar a gravidade do conceito, Marques utilizou um exemplo extremo: “Exemplo, Joana, quando chegarmos lá fora, você vai executar sumariamente a Sousa. (…) Quando é compreensível, que você não o faça. Certo?”
Ainda assim, a dúvida da recruta permaneceu no campo das consequências, questionando se a sua “identidade” e valores não seriam punidos pela estrutura. A resposta do instrutor foi um lembrete do pragmatismo militar: “E não é sancionada por isso. E se for, cumpre, reclama depois.”
Este embate na “1ª Companhia” espelha uma tensão geracional recorrente: a dificuldade de uma sociedade centrada na validação do “eu” em aceitar estruturas onde a eficácia do grupo depende, precisamente, da contenção temporária dessa mesma identidade.