Sem esconder a indignação, o rosto da ficção nacional confessou que a mãe não sobreviveu devido à falta de equipamento médico, num momento que descreveu como “um abismo”.
Joaquim Nicolau foi o convidado mais recente de Daniel Oliveira no programa «Alta Definição», numa entrevista onde abriu o coração sobre um dos episódios mais dolorosos e revoltantes da sua vida: a morte da mãe. Com uma emoção evidente, o ator de 62 anos viajou até há cerca de duas décadas para recordar a tragédia que lhe roubou o grande pilar da família de forma inesperada e prematura, num misto de fatalidade agrícola e falha do sistema de saúde.
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O drama começou com um acidente de trabalho no campo. “A minha mãe tinha um problema de respiração, porque aquilo teve a ver com os produtos químicos que ela inalou sem querer, por causa de umas pulverizações. O vento mudou e ela foi apanhada nos brônquios”, revelou Joaquim Nicolau.
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Apesar de ter lutado pela vida de forma “tenaz”, o pior acabou por acontecer no Hospital de Castelo Branco devido a uma terrível limitação de recursos. “A minha mãe, por incrível que pareça, faleceu porque não havia um ventilador“, denunciou. O equipamento disponível teve de ser canalizado para um jovem vítima de acidente de moto, decisão que o ator compreende (“protege sempre a vida mais jovem e isso é o direito, que eu acho correto“), mas que não apaga a revolta perante a falta de meios: “Não está certo é não haver mais ventiladores“.
Este foi o primeiro grande embate do ator com a finitude da vida, uma experiência que descreveu como traumática. “Foi uma amputação. Mesmo que nós tenhamos uma racionalidade de compreensão perante a vida (…) é uma amputação“, sublinhou.
O momento do adeus foi descrito como a perda total do chão. “Foi o meu primeiro choque com algo em que tu ficas sem pé. Tipo do género, já não há. Já não há. É um vazio, é um abismo. É um abismo“. Apesar da dor incalculável, o ator assumiu a sua veia racional e científica perante o destino: “Eu não sou religioso nem católico, mas há um versículo da Bíblia que é fantástico (…) do pó vieste e ao pó hás de retornar. E isso, na minha concepção científica, está certo“.
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Ao olhar para trás, Joaquim Nicolau garante não ter deixado nada por dizer à mulher que sempre o apoiou, até mesmo quando trocou a engenharia agrícola pela representação. “Eu tive a sorte de dizer à minha mãe (…) ‘sabes, eu já não vou fazer engenharia agrícola (…) eu vou ser ator’“, recordou, lembrando que a mãe, longe de o julgar, acabou por ser a sua maior patrocinadora enquanto estudou teatro em França.