
Mesmo a recuperar de um internamento hospitalar, a compositora exigiu uma tomada de posição a quem tem visibilidade pública e acusou as forças de segurança de ilegalidades.
A crise na habitação e os confrontos que marcaram a mais recente manifestação popular levaram Carolina Deslandes a quebrar o silêncio com enorme indignação. A partir de uma cama de hospital, onde se encontra atualmente internada, a artista recorreu às suas plataformas digitais para lançar um veemente apelo aos colegas de profissão e a todas as personalidades com grande alcance mediático, exigindo que não fiquem indiferentes à resposta das autoridades nas ruas.
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A compositora começou por apontar o dedo àqueles que escolhem a neutralidade perante imagens de repressão física, acusando mesmo elementos das forças de segurança de criarem pretextos para intervir com violência desmedida contra cidadãos desarmados.
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“Bom dia a todos. Venho aqui fazer um apelo a todas as pessoas que têm uma plataforma, que tenham seguidores, que tenham voz aqui na internet, que se pronunciem sobre o que está a acontecer no nosso país, que se pronunciem sobre a carga policial que mais uma vez aconteceu na noite de ontem sobre manifestantes pacíficos, que se pronunciem sobre o facto de existirem agentes à paisana a queimar caixotes de lixo e a lançar petardos no meio da manifestação, a tentar instigar uma violência que eles precisam que aconteça para justificar as ilegalidades que têm cometido“, denunciou, visivelmente revoltada com o cenário vivido na via pública.
Para a cantora, a ausência de posicionamento por parte de quem tem influência nas redes sociais é cúmplice de um retrocesso intolerável nos direitos fundamentais dos cidadãos.
Deslandes explicou que a passividade pública abre caminho a abusos de poder que colidem diretamente com a lei fundamental do país. “Agora é a altura de nós nos unirmos e de nos manifestarmos. Digam alguma coisa, façam alguma coisa. O vosso silêncio está a ser ensurdecedor. Vão-me desculpar, men. Nós temos que dizer alguma coisa, nós temos que fazer alguma coisa. Isto é absolutamente ilegal, isto é anticonstitucional, isto não pode continuar a acontecer“, sublinhou, comparando este clima repressivo a períodos ditatoriais do passado nacional que a sociedade portuguesa já julgava ultrapassados.
A artista fez questão de recordar outros protestos cívicos da história recente onde acampadas prolongadas na via pública não motivaram qualquer investida da polícia, desconstruindo a tese oficial de que o uso da força serviu apenas para repor a normalidade do tráfego urbano.
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“Isto está a fazer lembrar tempos que nós não queremos voltar a viver. Violentar as pessoas, mentir sobre o número de pessoas feridas, andarem com uma narrativa de que estão só a tentar pôr a ordem. Não havia desordem nenhuma, não havia violência nenhuma. Já existiram no passado várias manifestações com acampadas, acampadas de dias a fio à porta da Assembleia da República, na altura do Covid com os donos dos restaurantes. E isto nunca aconteceu“, relembrou, avisando que a repressão policial de hoje pode atingir qualquer cidadão comum amanhã caso ninguém trave o precedente.
Com o objetivo de desmontar preconceitos sociais, a cantora pediu para que a opinião pública não se deixe manipular por visões estigmatizantes sobre quem participa nestes protestos de rua, esclarecendo que as dificuldades em pagar renda ou aceder a uma casa digna afetam trabalhadores de todos os estratos e não apenas determinados grupos políticos.
“Hoje são as pessoas que lá estão, amanhã são vocês por outra razão qualquer. Nós somos todos o outro. Isto é um problema de toda a gente. Parem de fazer disto uma questão de esquerda. Parem de deixar que a vossa distração vá para os cabelos pintados ou para os piercings ou para a malta que não quer trabalhar. Toda a gente que ali está trabalha. Divide sempre o trabalho e a manifestação“, vincou a artista, desafiando a população a unir-se sem julgar aparências.
Impedida de comparecer fisicamente na manifestação devido à sua condição de saúde, Carolina Deslandes partilhou o sentimento de angústia por acompanhar os acontecimentos à distância através do telemóvel, terminando com um apelo à resistência civil pacífica em defesa da liberdade.
“Eu estou internada, não consigo lá estar. Estou numa frustração sem nome a ver a quantidade de vídeos que me chegam, de coisas que me chegam. Isto é uma preocupação de todos. Saiam de casa, não deixem que eles ganhem, não deixem que o país deixe de perder o seu direito à manifestação com medo de ser violentado, com medo da repressão, da intimidação. Não pode ser, não pode ser. Nós vivemos num Estado democrático, nós vivemos num Estado livre, é da nossa responsabilidade defender essa democracia“, concluiu a artista.