A jornalista recusou atirar as culpas da violência em Lisboa e no Porto apenas para a PSP, frisando que a cadeia de comando político tem de assumir as suas responsabilidades.
O impacto social das manifestações pelo direito à habitação gerou um momento de debate profundo e exaltado na emissão do «Passadeira Vermelha». Confrontada por Liliana Campos com os episódios de tensão entre os cidadãos e as forças de segurança no desmantelamento das acampadas de Lisboa e do Porto, Joana Latino recusou o discurso fácil de diabolização da PSP e apontou diretamente às altas instâncias do poder executivo pela forma como a situação foi gerida.
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Para a jornalista, o foco da indignação deve estar em quem define a estratégia. “Achar que agora o nosso inimigo é a polícia porque desatou à bastonada no Rossio ou na Praça D. João I não é assim tão simples quanto isso. A polícia é o braço da lei, o braço que impõe o cumprimento da lei, mas os polícias não agem de modo próprio. Há um Ministro da Administração Interna que dá a ordem, que é legitimada por um Primeiro-Ministro“, afirmou com firmeza, criticando a ausência do líder do Executivo: “O Primeiro-Ministro está calado há uma data de dias, é inadmissível. O Ministro da Administração Interna vai falando, diz que foi só um bastão, quando foram imensos, é inadmissível“.
Durante a troca de argumentos com Filipa Torrinha Nunes – que reforçou o sentimento de abandono da população, atirando que “estamos órfãos de governo” -, Joana Latino insistiu na distinção entre o decisor político e o agente no terreno.
“Tens que imputar isso ao senhor chamado Luís Neves. Luís Neves é que está lá sentado numa cadeira, todo confortável (…) Ou é o polícia que está lá no local, que se calhar tem um filho que não tem casa, ou que ele próprio vive numa cama alta, numa esquadra?“, questionou, garantindo que a responsabilidade não passa pelos operacionais: “Quando um ministro diz: ‘é para cumprir ao pé da letra, bastonada nessa gente toda’, é o que eles fazem“.
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A comentadora do canal temático aproveitou ainda a ocasião para fazer um retrato sombrio do país e apelar à empatia face às razões de fundo que levaram tantas pessoas à rua. “Se as pessoas vão para a rua pedir isso, que é só o que está na nossa lei fundamental, eu acho muito estranho que o nosso governo e o Ministro da Administração Interna estejam só a acusar as pessoas de vandalismo, de desordem, de serem pouco higiénicas e de serem só os maluquinhos que gostam da Festa do Avante, porque não é disso que se trata”, lamentou.
Sem esconder a emoção e admitindo a “vontade de chorar” pela sua própria filha adolescente, Joana Latino deixou um duro alerta sobre o estrangulamento da sociedade portuguesa devido aos custos da habitação.
“Por cada jovem que não tem uma casa para alugar, há um pai que tem que o ajudar com muito sacrifício, e há um avô que não está a usar a sua pensão para ter o seu descanso no fim de vida. Qualquer dia vamos passar a ter 15 pessoas a viver numa casa (…) Se pessoas de 20 anos não conseguem dar o seu salto e voar, se ficam castradas, que Portugal é que nós podemos ter no futuro?“, concluiu.