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Presente na equipa das quinas desde agosto de 2003, Cristiano Ronaldo passa testemunho aos jovens. A história!

Numa carta aberta dirigida ao país e aos emigrantes, o avançado valorizou as memórias com os adeptos acima de quaisquer recordes ou troféus.

Cristiano Ronaldo colocou um ponto final na sua história como jogador da seleção portuguesa esta quinta-feira, 5 de novembro. O anúncio oficial do avançado fecha um ciclo de 23 anos e surge após várias semanas de rumores, motivados pelo recente desentendimento com o selecionador Jorge Jesus.

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O adeus encerra de vez a porta a um regresso que chegou a parecer possível quando o nome do futebolista surgiu na pré-convocatória de novembro. A tensão instalou-se a 30 de setembro, data em que Ronaldo abandonou a concentração da equipa nacional. Mais tarde, o jogador acusou Jesus de faltar à palavra quanto ao tempo de jogo que teria frente à Noruega. Apesar de ter pedido desculpa ao plantel e de se manter disponível para continuar a representar o país, a federação aplicou-lhe uma suspensão de 30 dias.

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Na hora da saída, o atleta optou por não fazer qualquer referência ao treinador nem lhe atribuiu responsabilidades pela decisão tomada. Preferiu dirigir-se diretamente ao país numa carta aberta, começando por anunciar a entrega do número que envergou desde agosto de 2003: “Aos portugueses, chegou o dia de devolver a camisola 7 da seleção de todos nós. Nunca a senti como exclusivamente minha, mas durante 23 anos tive o privilégio e a responsabilidade de a vestir, de a defender e de a levar comigo a estádios de todo o mundo”.

A passagem de testemunho aos mais jovens teve um forte peso emocional, como o próprio explicou logo a seguir: “Hoje chegou o momento de a entregar ao futuro. Não foi uma decisão fácil, porque há decisões que não se tomam só com a cabeça, tomam-se também com o coração”.

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Ao olhar para trás, Ronaldo deu maior relevo à ligação criada com os adeptos do que aos troféus conquistados, com uma lembrança especial para a diáspora portuguesa que via nos jogos uma forma de encurtar a distância para casa. “Termina um caminho que começou em agosto de 2003 e mudou a minha vida para sempre. Quando olho para trás e penso em tudo o que vivi na seleção, não vejo apenas jogos, golos, recordes ou troféus. Vejo pessoas. Vejo emigrantes que durante 90 minutos sentiam Portugal um pouco mais perto. Vejo milhões de portugueses que nunca conheci pessoalmente, mas que fizeram parte da minha vida. Porque, no final de tudo, o futebol é muito maior do que um jogo. O futebol são as pessoas”, escreveu.

Na longa mensagem, o avançado recordou a exigência que impôs a si mesmo ao longo de mais de duas décadas. “Durante toda a minha carreira na seleção, procurei superar os meus limites. Quis ganhar, quis ser o melhor, quis fazer história. Sempre fui exigente comigo mesmo, sempre quis mais, sempre acreditei que podíamos chegar mais longe e dei tudo o que tinha por esta camisola. Houve tardes e noites perfeitas, houve vitórias que nunca esquecerei, houve derrotas que ainda hoje me custa recordar. Também falhei, também sofri, também houve momentos em que não fui capaz de dar aos portugueses o que tanto desejavam, mas nunca me rendi. E, acima de tudo, nunca deixei de sentir orgulho por representar Portugal”, garantiu.

O valor das memórias partilhadas com o público sobrepôs-se aos números alcançados em campo: “Ao longo destes anos, aprendi coisas muito simples. Os golos passam, as taças ficam nos museus, os recordes acabam por ser batidos, mas há algo que o tempo nunca consegue apagar: o lugar que ocupamos no coração das pessoas. Se alguma vez vos fiz felizes, se alguma vez um golo meu vos fez abraçar alguém, esquecer uma preocupação ou sentir orgulho do nosso país, então tudo valeu a pena. Porque ser português também é isso. Sofremos juntos. Levantamo-nos juntos, voltamos a acreditar”.

Para o futuro, deixou um apelo direto a quem se segue. “Portugal precisará sempre de jovens que sonhem, de jogadores que nunca se rendam, de novas gerações que acreditem que é possível chegar onde ninguém chegou. Porque um país que continua a criar novos heróis é um país que nunca deixa de acreditar em si mesmo”, sublinhou.

Ronaldo reservou também agradecimentos para o balneário, para a estrutura federativa e para o núcleo familiar. “Aos meus companheiros da seleção quero deixar-lhes uma palavra especial. Obrigado por cada corrida, por cada abraço, por cada discussão, por cada silêncio antes de entrar em campo, por cada vitória que celebrámos, por cada derrota que nos tornou mais fortes. Tive o privilégio de ser o vosso capitão, mas nenhum capitão caminha sozinho e vocês fazem parte da minha história. A todos os treinadores, dirigentes, médicos, fisioterapeutas, roupeiros, funcionários e a tantas pessoas que trabalharam comigo ao longo destes anos, o meu agradecimento. Muitos de vocês nunca apareceram nas fotografias, mas sem vocês nenhuma dessas fotografias teria sido possível. À minha família, obrigado por terem partilhado comigo este sonho. Obrigado por compreenderem as ausências, os sacrifícios e os momentos em que a seleção teve de ocupar um espaço que também vos pertencia. Se cheguei tão longe, foi porque estivemos sempre de mão dada”, lê-se no texto.

Antes de fechar o comunicado, o jogador partilhou a memória que guarda dos momentos que antecediam o apito inicial: “E aos portugueses, a todos os portugueses espalhados pelo mundo, quero dizer-vos uma última coisa. Há uma imagem que levarei sempre comigo: o momento em que começa o hino nacional. Olho à minha volta, vejo os meus companheiros, vejo as bancadas, vejo crianças, mães, pais e avós, vejo portugueses que vieram de tão longe só para estar ali. E durante esses minutos deixamos de ser diferentes. Não existem clubes, não existem cores, não existem classes, não existem profissões, não existem opiniões. Existe só uma paixão: Portugal. É esse sentimento que levarei comigo para o resto da minha vida”.

A despedida dos relvados internacionais consuma-se com a promessa de continuar a apoiar a equipa de fora. “Hoje termina a minha trajetória dentro de campo com a seleção nacional. Saio de cabeça erguida, com orgulho pelo caminho percorrido e com a consciência de ter dado tudo o que tinha por Portugal. Mas nunca deixarei de ser um de vós. Continuarei a sofrer, a vibrar e a celebrar cada vitória de Portugal convosco. Passei a minha vida a trabalhar para ser o melhor jogador do mundo. Hoje percebo que a maior vitória foi ter merecido representar o melhor país do mundo. Obrigado por estes 23 anos. Obrigado por terem acreditado em mim. Obrigado por me terem permitido viver um sonho que começou quando era apenas um menino na Madeira a correr atrás de uma bola. A camisola 7 fica. O orgulho de a ter vestido será meu para sempre. Portugal estará sempre em mim. Até sempre, Cristiano Ronaldo”, concluiu.

Presente na equipa das quinas desde agosto de 2003, Cristiano Ronaldo passa testemunho aos jovens. A história!

TODO O PERCURSO DE CRISTIANO RONALDO NA SELEÇÃO NACIONAL

De menina e moça arrancada ao Funchal para o topo do futebol mundial, a história de Cristiano Ronaldo com a camisola das quinas confunde-se com a própria afirmação de Portugal entre a elite do desporto rei. Mais de duas décadas depois da primeira chamada, o avançado madeirense transformou-se na figura máxima da Seleção Nacional, reescrevendo todos os livros de recordes do futebol internacional.

Tudo começou a 20 de agosto de 2003, num encontro particular frente ao Cazaquistão disputado em Chaves. Lançado ao intervalo por Luiz Felipe Scolari para o lugar de Luís Figo, numa passagem de testemunho quase poética, o então jovem prodígio de 18 anos mostrava ao país a irreverência que já tinha convencido o Manchester United dias antes.

O primeiro grande palco surgiu no verão seguinte, com o Euro 2004 organizado em solo português. Ronaldo marcou o seu primeiro golo oficial pela equipa principal na derrota inaugural diante da Grécia, conquistou a titularidade ao longo da prova e foi decisivo na caminhada até à final da Luz. As lágrimas de desilusão após a derrota frente aos helénicos correram o mundo e serviram de combustível para a década seguinte.

No Mundial de 2006, na Alemanha, já assumia o estatuto de estrela global, ajudando Portugal a alcançar um histórico quarto lugar, apenas travado pela França nas meias-finais. Pouco depois, em 2007, envergou pela primeira vez a braçadeira de capitão num jogo frente ao Brasil, um símbolo de liderança que viria a assumir em definitivo após o Euro 2008, com a chegada de Carlos Queiroz ao comando técnico.

Seguiram-se anos em que o avançado carregou frequentemente a equipa às costas. Depois de um Mundial de 2010 discreto na África do Sul, brilhou a grande altura no Euro 2012, levando Portugal às meias-finais antes de cair nos penáltis perante a campeã Espanha. No outono de 2013, protagonizou uma das maiores exibições individuais da história da seleção ao apontar um hat-trick em Estocolmo frente à Suécia, garantindo praticamente sozinho o apuramento para o Mundial de 2014, competição onde viria a atuar limitado por problemas físicos.

O ano de 2014 ficou também marcado pela chegada ao topo da lista de melhores marcadores de sempre de Portugal, ultrapassando os míticos registos de Eusébio e Pauleta. Contudo, faltava um título coletivo que coroasse este percurso individual ímpar.

A consagração suprema chegou no Euro 2016, em França. Ronaldo salvou Portugal na fase de grupos com dois golos frente à Hungria e marcou na meia-final diante do País de Gales. Na final de Paris contra a anfitriã França, uma lesão sofrida na primeira parte tirou-o do relvado em lágrimas, mas não do jogo. Transformado num adjunto improvisado ao lado de Fernando Santos, comandou a equipa a partir da linha lateral e ergueu no Stade de France o primeiro grande troféu da história do futebol português.

Longe de abrandar, o capitão manteve a bitola elevada. No Mundial de 2018, na Rússia, assinou um memorável hat-trick frente à Espanha na jornada inaugural. Um ano mais tarde, em junho de 2019, liderou a seleção à conquista da primeira edição da Liga das Nações, no Porto, depois de demolir a Suíça nas meias-finais com mais três golos.

A entrada na nova década serviu para cimentar recordes que pareciam inalcançáveis no futebol mundial. Durante o Euro 2020, disputado em 2021, sagrou-se o melhor marcador do torneio e igualou a marca mundial de Ali Daei. Pouco depois, em setembro de 2021, no Algarve, bisou nos descontos frente à República da Irlanda e isolou-se como o maior goleador de sempre por seleções.

Em 2022, no Catar, tornou-se o primeiro futebolista da história a marcar em cinco fases finais de Campeonatos do Mundo consecutivos, apesar de o torneio ter terminado de forma amarga, no banco de suplentes, com a eliminação nos quartos de final diante de Marrocos. Quando muitos antecipavam o fim do ciclo internacional, a chegada do selecionador Roberto Martínez renovou o fôlego do capitão.

Em 2023, na caminhada imaculada rumo ao Euro 2024, ultrapassou a barreira histórica das 200 internacionalizações, um feito inédito no futebol masculino. Já na prova realizada na Alemanha, somou a sexta presença em fases finais de Campeonatos da Europa, outro registo sem paralelo, antes de ultrapassar a fasquia histórica dos 900 golos oficiais na carreira em setembro de 2024, num duelo da Liga das Nações frente à Croácia no Estádio da Luz.

Com mais de duas centenas de jogos e bem acima da centena de golos de quinas ao peito, o percurso de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional transcende a estatística. Da rebeldia das fintas na ala direita à frieza letal dentro da área, o camisola sete mudou a mentalidade competitiva de um país inteiro, transformando uma seleção habituada a vitórias morais numa potência respeitada e habituada a levantar troféus.

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