Trovante de Luís Represas nasce na Rádio Clube Português pela mão de Júlio Isidro
O apresentador não hesitou em passar o disco da banda, que trazia canções de protesto com letras ideológicas, e alterou a grelha de programação para conversar com os jovens músicos.
A morte de Luís Represas, na terça-feira, 22 de julho de 2026, deixou o país consternado, mas Júlio Isidro não tem dúvidas: o talento do músico era tal que as suas canções teriam sempre um lugar, mesmo sem a sua intervenção
. O apresentador, entrevistado na Rádio Renascença, partilhou as memórias do primeiro encontro com o jovem artista e o Trovante.
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Júlio Isidro recordou o dia 1 de setembro de 1977. Fazia o programa da manhã no FM do Rádio Clube Português quando lhe disseram que havia “um grupo de miúdos com um disco para me dar” à porta. “Eu mandei entrar os miúdos, tudo bem”, contou.
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Tinham entre 18 e 19 anos. Entraram Luís Represas, com o cabelo “bastante mais comprido”, o seu irmão João Nuno Represas, Manel Faria e João Gil, ainda sem a madeixa branca que o viria a caracterizar. Traziam debaixo do braço o álbum ‘Chão Nosso’.
“Disseram: olha, nós viemos aqui porque o Júlio costuma passar certas coisas, e este disco não sei se poderia passar aqui na rádio. O que é que o Júlio acha? Eu acho que vamos já passar”, recordou Júlio Isidro. Não hesitou, mesmo sem ter ouvido o disco. “Há alturas em que nós funcionamos por sentimentos”, justificou o apresentador, que confiou de imediato naqueles jovens.
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Alterou toda a grelha de programação e conversou com a banda durante quase uma hora. Depois, o Trovante ouviu o seu primeiro disco passar na rádio. “Ainda na noite de 23 de julho de 2026, depois de ter vindo do velório, fui lá abaixo à minha biblioteca e estive a olhar para o disco, para confirmar a data, porque está lá o meu nome, eu assinei e tem a data, e comecei a passar”, revelou o apresentador.
A preocupação dos jovens músicos, explicou Júlio Isidro, vinha do facto de ‘Chão Nosso’ ser “música de intervenção que não estava muito na beira” na altura. As letras, escritas por Francisco Viana, sogro de Luís Represas e militante do PC, tinham um cariz ideológico. “Eram canções de protesto, e ainda bem. E bonitas, como poemas muito bonitos”, descreveu.
Foi ali, na rádio, que “tinham nascido o Trovante”, embora o álbum da Sassetti já estivesse editado e o grupo já se apresentasse com esse nome. Júlio Isidro sublinhou a importância de dizer “o Trovante”, porque “o grupo é o Trovante”.
Como era o jovem Luís Represas aos 18 anos? “Era bonito. E acho que as mulheres concordavam todas”, atirou o apresentador. Descreveu-o como “muito simpático”, o mais extrovertido do grupo, com “muitos sinais na cara” e “muito senso de humor”. Represas, aliás, adotou para Júlio Isidro o título “tio Julião”, que o apresentador ganhara num programa de televisão. “Passei a ser tio para ele, e ainda bem”, contou.
Um ano e meio depois, o Trovante lançou ‘Em Nome de Vida’, com textos de Francisco Viana sobre a guerra, incluindo referências a Hiroshima e Nagasaki. Mas foi em 1981, com ‘Bairro do Bosque’, que a banda ganhou notoriedade. “Não tenho dúvida”, admitiu Júlio Isidro. “Eu escrevi na noite de 23 de julho de 2026 uma coisa que eu penso que é o que está certo. Eles mudaram de direção, mas não mudaram de rumo”. A música continuava “essencialmente portuguesa”, mas as canções de ‘Bairro do Bosque’ já eram “cantadas em coro por toda a gente”, sem o “preconceito à partida” que a música de intervenção por vezes gerava.
O sucesso de ‘Bairro do Bosque’ levou o Trovante a um concerto no Campo Pequeno. Pediram a Júlio Isidro que os apresentasse, já que ele tinha lançado o primeiro disco. “Eu achei que era ridículo apresentar o que já estava apresentado”, admitiu. “Mas mesmo assim, o palerma aceitei. E fui ao palco para dizer que estavam ali o Trovante. Levei uma assobiadela monumental. Embora organizada”. A ânsia de ver o grupo era tanta que o público não queria ver o apresentador. “Eu mal balbuciei: ‘E convosco o Trovante!'”, recordou.
Júlio Isidro partilhou outros momentos com Luís Represas. Recordou um Natal em Montreux, na Suíça, onde Represas atuou a solo num programa de televisão. Houve uma “enorme jantarada” num restaurante português. “Ele ficou até mais tarde, porque era um homem da noite. Eu fui dormir”, contou.
Outra história, quase hilariante, passou-se na inauguração da RTP em Luanda, Angola, a convite do então primeiro-ministro António Guterres. Luís Represas foi para um espetáculo na Praça Maior, com transmissão via satélite. O espetáculo atrasou-se, e os primeiros artistas não chegaram a ser transmitidos. “O Represas foi o que fechou a cantar ‘Timor’. E estava quase a terminar a canção, cai uma enorme carga de água e também cai o satélite. Portanto, não se ouviu o resto do ‘Timor'”, lembrou.
Júlio Isidro, que tinha ido “todo giróvago com o fato de linho”, viu-se encharcado. “A carga de água foi violentíssima. E logo a seguir veio o calor. O calor africano, não é verdade? E, portanto, eu entrei de calças e saí de calções. E com as mangas mais ou menos pelos cotovelos. O fato era lindo, no princípio. Agora dá para uma criança de 10 anos”, gracejou.
Luís Represas era uma figura consensual. “Não é a sorte. É uma forma de estar na vida”, comentou Júlio Isidro, que esteve com ele em 2025, numa festa de Natal de uma revista, onde Represas era o animador. “Tenho um carinho extraordinário pelo Luís Represas”, garantiu. Para o apresentador, o que fazia Represas deixar esse rasto de carinho era “o sentido do humor, é o brilhozinho nos olhos também. É o brilhozinho nos olhos e o sorriso”.
Júlio Isidro realçou a coragem do músico, que “não revelou nunca que estava [doente]”. Estavam previstos dois espetáculos em 2027. O apresentador acredita que a solidariedade do meio artístico fará com que os espetáculos se tornem uma homenagem, com outros a cantar as canções de Represas. “E se quiserem que eu vá apresentar. Estarei mais 10 segundos para ser assobiado”, brincou.
O funeral de Luís Represas, marcado para esta sexta-feira, 24 de julho de 2026, será uma cerimónia íntima. Júlio Isidro despediu-se com uma nota melancólica: “Eu não vou dizer que foi um prazer. Convidem-me por outras razões”. A entrevista terminou com a sugestão de ‘Fora de Tempo’, uma das músicas preferidas de Júlio Isidro do repertório de Luís Represas.