Cristiano Ronaldo: Aprender a perder o protagonismo é “muito menos natural” do que a ganhar, diz psicóloga
Ana Bispo Ramires sublinha a importância de acautelar e planear a transição de carreira para atletas de topo como Ronaldo...

A polémica que envolve Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus, culminando no abandono do estágio da seleção pelo capitão, exige uma análise aprofundada sob a ótica da psicologia de alta competição.
Ana Bispo Ramires, psicóloga de desporto, esteve no ‘Diário da Manhã’ da TVI para desvendar as complexas dinâmicas emocionais que se desenrolam neste tipo de cenários.
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A especialista começou por contextualizar o ambiente do desporto de elite, onde, por “seleção natural”, os atletas, treinadores e restante estrutura possuem “competências psicoemocionais mais elevadas”. Esta particularidade, explicou, é o que lhes permite lidar com a maioria das situações que trazem alguma disrupção. A questão central, no entanto, permanece: o que se passa na cabeça de um campeão quando a sua posição de indiscutível é posta em causa?
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Ana Bispo Ramires admitiu que “várias coisas podem estar a acontecer ao mesmo tempo”, uma vez que os pormenores da situação em particular não são do conhecimento público. Contudo, garantiu que a decisão de Cristiano Ronaldo não foi tomada de ânimo leve. “É uma decisão que não é provavelmente tomada a quente, foi pensada, é percetível pelo atleta garantidamente que tem consequências, e consequências inclusivamente de viabilidade”, atirou. Para a psicóloga, algo de considerável peso foi valorizado para justificar uma rutura desta magnitude.
A psicóloga sublinhou a importância de acautelar e planear os processos de transição de carreira, uma fase inevitável na vida de qualquer atleta de topo. “Deve ser acautelado, deve ser planeado e deve ser facilitado e ser conduzido para que, de facto, estes processos de transição possam acontecer da forma mais facilitada possível”, frisou, destacando a necessidade de um acompanhamento estratégico.
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Para um atleta com o estatuto de Cristiano Ronaldo, ficar no banco pode transcender uma simples opção técnica, sendo vivido como uma rejeição pessoal. Ana Bispo Ramires explicou que tal perceção “depende sempre da articulação da relação treinador-atleta”, e da clareza com que o papel do jogador é comunicado dentro da equipa.
“O que é importante é que, e não é com este atleta, é com qualquer atleta, que haja um entendimento claro de qual é que é o seu papel, a sua responsabilidade, o que é que é expectável dele”, detalhou a especialista. Se um treinador prevê uma utilização limitada para um jogador — “na casa dos 10 minutos, 20 minutos, 30 minutos” — essa informação deve ser transmitida para “que haja imediatamente uma regulação das expectativas do atleta”. A falta de comunicação, alertou, pode gerar uma “frustração elevada” quando as expectativas não se concretizam.
Aprender a lidar com a perda de protagonismo é, sem dúvida, um dos maiores desafios na carreira de um campeão mundial. Ana Bispo Ramires alargou a reflexão a qualquer figura de destaque, seja um atleta ou um gestor de topo, cuja identidade está intrinsecamente ligada à sua concretização profissional. “Quando a nossa identidade está muito colada a uma parte grande daquilo que é a nossa concretização profissional, esta transição deve ser acautelada para que eu possa de facto fazer aqui uma passagem fluida”, explicou. A investigação científica, acrescentou, demonstra que uma transição bem-sucedida permite que estas pessoas “voltam a experienciar sucesso noutras áreas profissionais às quais se estão dedicadas”.
Questionada sobre o que seria mais difícil – aprender a ganhar ou a perder protagonismo –, a psicóloga não hesitou. “Eu diria que é muito menos natural aprender a perder o protagonismo”, afirmou. Esta dificuldade é acentuada para atletas que são “valorizados e idolatrados por uma nação inteira”. O desafio reside em “conseguir perceber como é que eu vou na minha vida conseguir integrar outro espaço onde eu possa sentir este tipo de retorno, este tipo de afeto”.
Relativamente ao atual impasse, descrito como um “banho-maria” sem grandes novidades públicas, a psicóloga de desporto enfatizou a necessidade de uma resolução ponderada. “Nós não sabemos o que é que está a acontecer em bastidores”, admitiu, referindo-se à incerteza sobre a existência de conversações entre as partes.
Ana Bispo Ramires defendeu que a situação “deve ter necessariamente uma resolução feliz e uma resolução que seja planeada e que seja bem orquestrada”. A justificação é clara: o impacto transcende o próprio Cristiano Ronaldo. “Não estamos a falar só do processo de transição deste atleta, estamos a falar do que todo o lote de atletas estão a ver, do que é que pode ser um processo de transição”, alertou. A maneira como este desfecho for trabalhado e negociado, seja uma saída definitiva ou um eventual regresso, terá “um impacto direto dentro do próprio balneário”.