O colunista do portal Sapo, Pedro Neves, faz uma análise minuciosa ao espetáculo da voz ‘Extremamente Desagradável’ da Rádio Renascença.
Até 28 de Maio, em 47 sessões lotadas, o espetáculo ‘Em Sede Própria’, da humorista Joana Marques, “está a realizar uma extensa digressão nacional que termina no Coliseu dos Recreios em Lisboa.
“Pouco depois de Em Sede Própria começar, Joana Marques atribui a motivação de quem paga bilhete para assistir ao seu novo espetáculo a uma ‘curiosidade mórbida’. Afinal, depois dos diretos televisivos à porta do tribunal e das entrevistas em horário nobre, o que mais haverá para dizer sobre o processo judicial mais mediático dos últimos tempos? Como aquele amigo que sai ileso de um acidente parvo e ganha uma aura de invencibilidade que é preciso avaliar ao vivo, é possível que muitos dos que foram até ao Pavilhão Rosa Mota tenham mesmo sido atraídos pela vontade de ouvir, na primeira pessoa, como é testar a sorte no sistema judicial português — e vencer”, começa por dissertar Pedro Neves, após assistir ao vivo.

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E continua: “O desafio estava montado, desde logo, à ré: como transformar mais de 500 páginas escritas em legalês num quadro humorístico sem resvalar num episódio de A Sentença? A humorista optou por prescindir da teledramaturgia, dispensar os figurantes e apostar numa mistura mordaz de factos e teatro. Marques começa por se antecipar à maledicência que lhe foi dirigida ao longo do último ano, sobretudo nas manhãs televisivas, para encarnar a persona de mãe ausente, condutora irresponsável e esposa opressiva — no fundo, um traste de pessoa. O total inverso da estratégia de vitimização a que estamos habituados na praça pública. Se esta contenda judicial opõe os “bons” aos “maus” da fita, a acusada faz questão de deixar claro que não quer passar por anjinha. A mensagem subentendida: este caso vai ser decidido pelos seus méritos (ou falta deles)”.
De forma muito detalhada, o colunista do Sapo escreve que “a construção desta personagem má como as cobras causa alguma estranheza de início, e leva algum tempo a realizar o seu potencial cómico, mas quando as peças finalmente encaixam, resulta num espetáculo que não se limita a combinar vídeos com alguns apartes incisivos. A auto-diabolização proporciona a camada de ironia e complexidade que parece ter faltado na acusação que nos levou até ali”: “Por mais bem servida que esteja pelo guião, é ainda assim a entrega de Joana Marques que mais impressiona, mesmo para quem, como eu, a viu há um ano levar ao palco a sua sátira do coaching, intitulada DesConfia. A diferença, desta vez, é que o assunto é pessoal. O seu domínio do texto e da atenção do público é o de alguém plenamente consciente de que este é o seu momento, criativo e mediático. Em palco, Marques é juíza, advogada do diabo e carrasco e, a qualquer título, arrasadora”.
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No entanto, desengane-se quem pensa que isto é apenas “ajuste de contas” com os irmãos Nélson e Sérgio Rosado. Nada disso. “Não são só os Anjos na mira da arguida. Nenhum espetáculo seu ficaria completo sem uma referência ao seu alvo preferencial no panorama mediático: Cristina Ferreira. As reações do público aos momentos em que a apresentadora televisiva é visada estiveram entre os mais estrepitosos da noite e um deles ameaçou mesmo deitar a casa abaixo, tal foi a manifestação de desagrado do auditório perante um momento infeliz seu exibido em vídeo. A pontaria certeira da radialista para encontrar e selecionar “tesourinhos” deprimentes, aperfeiçoada ao longo de anos a consumir e desconstruir a falta de noção de terceiros na televisão portuguesa, ficou aqui, mais uma vez, diabolicamente à mostra…”
“Para quem é fã do seu Extremamente Desagradável na Rádio Renascença”, esta sessão de duas horas tem “um certo quê de catarse”. As notícias recorrentes sobre a lentidão e arbitrariedade da justiça portuguesa perante casos similares mostram que “a vitória em tribunal estava longe de estar garantida à partida”: “Podermos rir-nos, agora, de tudo o que se passou à volta daquela ação judicial, tem também, por isso, um gosto especial a liberdade. Mais do que ajuste de contas, Em Sede Própria é um elemento de prova do poder criativo do humor. Joana Marques transformou uma ação judicial desprovida de sentido num espetáculo que entretém e faz rir. Com isso, ajudou a confirmar que ainda vivemos num país onde o humor é livre e, quando bem feito, inapelável”.