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“Onde acaba a justiça e começa a sede de fama?”: Nuno Markl analisa o polémico “Primetime”

Nuno Markl fascinado com "Primetime": "Robert Pattinson está brilhante como caçador de pedófilos"

Para Nuno Markl, a obra transcende a mera recriação televisiva e funciona como um espelho incómodo sobre o fascínio do público pelo voyeurismo e pela justiça popular.

O impacto de «Primetime», a nova longa-metragem protagonizada e produzida por Robert Pattinson, continua a suscitar reações no panorama cultural português. Desta vez, foi Nuno Markl quem utilizou a sua conta oficial no Instagram para tecer rasgados elogios à produção cinematográfica, aproveitando para dissecar as contradições éticas que rodeiam a caça a predadores sexuais perante os holofotes mediáticos.

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O guionista começou por relatar a curiosidade que sentiu antes de entrar na sala de cinema, confessando ter revisitado as emissões reais conduzidas pelo jornalista norte-americano Chris Hansen na cadeia televisiva NBC, entre 2004 e 2007: “Antes de ver Primetime fui ao YouTube ver o verdadeiro Chris Hansen a caçar predadores pedófilos nos seus programas. É televisão perigosamente viciante que às tantas nos faz questionar porque diacho a estamos a ver“.

Na ótica do radialista, o fenómeno televisivo em que o filme se inspira mexe com sentimentos contraditórios nos telespetadores.

Markl questiona as verdadeiras razões que prendem o público ao ecrã perante a captura em direto de criminosos sexuais, confrontando a sede de justiça com o simples voyeurismo mórbido da audiência: “Porque somos fãs de justiça aplicada a monstros que poderiam fazer mal aos nossos filhos? Porque nos queremos sentir bem com a desgraça alheia? E porque é que Hansen faz aquilo? Onde acaba a missão justiceira e começa a sede de fama e fortuna?“.

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Ao dissecar a narrativa da fita, o humorista salientou a capacidade da história em incomodar sem cair em lições de moralidade fáceis. O enredo estabelece um paralelismo entre o ego desmedido do apresentador televisivo e o desespero de um jovem intérprete disposto a tudo para alcançar o estrelato na indústria do entretenimento:

“Primetime provoca-nos. Sem moralismos exacerbados, cria em nós atracção e repulsa pelo Chris Hansen de Robert Pattinson (que está brilhante) com um argumento incrível que começa nas motivações da estrela principal de To Catch a Predator e nelas espelha as do jovem e ambicioso actor (o sempre excelente Skyler Gisondo) que vê no papel de isco fictício para pedófilos reais a tão desejada porta de entrada para Hollywood“, escreveu Nuno Markl.

Para rematar a apreciação crítica, Nuno Markl comparou a atualidade do enredo com clássicos satíricos da sétima arte, traçando um paralelo com «Network» (1976), de Sidney Lumet, e aplaudindo a transição do realizador Lance Oppenheim para o cinema de ficção: “Primetime é um filme que chega na altura certa (a América – e desta vez não um canal de TV mas o governo – prepara-se para fazer o livestream de um fuzilamento) e que, tendo uma linguagem ousada e moderna, lembra a Hollywood dura e provocadora dos anos 70 (poderá este ser o Network deste milénio?). Lance Oppenheim já era um espantoso autor de documentários, agora prova que é espantoso também a dirigir ficção. Venha de lá o You Can See Everything!“.

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