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Os bastidores da formação de Gonçalo Ramos: Viagens de autocarro, gesso e muletas na Margem Sul

Gonçalo Ramos recorda a exigência da juventude e o medo de falhar no Benfica: "Achei que tinha sido a minha única oportunidade"

O camisola 9 do Paris Saint-Germain recordou o percurso exigente desde que deixou a estabilidade familiar no Sul para perseguir o sonho do futebol.

O sucesso de Gonçalo Ramos nos grandes palcos do futebol europeu é o resultado de uma caminhada iniciada com desassossego e sacrifício precoce. No «Alta Definição», o avançado recordou o impacto de ter abandonado o Algarve com apenas 12 anos para integrar as camadas jovens do Sport Lisboa e Benfica, enfrentando uma transição abrupta para uma rotina de responsabilidades adultas.

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Difícil, até porque eu era muito apegado aos meus pais, e sinceramente, tanto eu como os meus pais achávamos que eu não ia durar cá muito tempo e que passado dois a três meses ia voltar para o Algarve, porque não conseguia dormir sem os meus pais e não conseguia ter independência e estaleca para aguentar aquela vida de adulto“, confessou o atleta. Na Academia do Seixal, as regras eram estritas: “Tínhamos que fazer a nossa cama, senão levávamos uma multa na academia, tinha que meter os meus despertadores, como vestir, tinha que fazer a minha mochila… Tudo isso nós tínhamos que fazer e eu tive que me desenrascar“.

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As dificuldades aumentaram no segundo ano, quando as limitações financeiras e logísticas da família obrigaram a uma solução alternativa à residência do clube. Gonçalo Ramos passou a viver em casa de um tio, na Cruz de Pau, o que implicava deslocações diárias complexas para um jovem de 13 anos. “Todos os dias saía da Cruz de Pau às 07h30 da manhã […], apanhava transportes públicos que nunca tinha apanhado na minha vida e andava na Margem Sul de autocarro 25, 30 minutos todas as manhãs. […] Fazia a escola, treino, etc., ao final do dia. E uma carrinha, às 21h30, 22h00 da noite, deixava-me em casa do meu tio“, relatou.

O cenário agravou-se quando sofreu uma lesão grave: “Parti o pé em dois. Então tive que fazer isto tudo, de gesso e de muletas, três meses. Transportes públicos, com gesso, com muletas“.

A chegada à equipa principal do Benfica trouxe consigo uma nova dose de pressão, intensificada pelas exigências do treinador de então, Jorge Jesus. Gonçalo Ramos recordou a frustração da sua estreia na Taça de Portugal, aos 18 anos, quando acabou substituído no início da segunda parte após uma exibição menos conseguida. “O míster Jorge Jesus é um míster que aperta muito com a malta jovem, eu estava nervoso e o jogo não me correu bem. […] Depois o míster até disse que eu tinha estado abaixo da expectativa, que estive, que é verdade. Depois eu cheguei ao final do jogo, liguei ao meu pai, estava triste e disse assim: ‘Pai, será que eu nunca mais vou ter a oportunidade de jogar na equipa principal do Benfica?’“, recordou.

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O desânimo foi travado pelo conselho do pai, antigo futebolista, que relativizou o erro inicial. “O pai disse assim: ‘Ó Gonçalo, não penses nisso, pensa em todos os jogadores que estão cá, que estão na equipa principal do Benfica, que à primeira também não lhes correu bem. Não vai ser por um jogo que tu nunca mais vais jogar no Benfica’“, concluiu o avançado, destacando como essa mentoria familiar foi crucial para construir a resiliência que hoje o carateriza.

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