“Somos um país que não tem amor próprio”: Leonor Seixas critica mentalidade portuguesa em conversa com Flávio Furtado
Convidada de Flávio Furtado no The Leite Show, a intérprete abordou a perda de espontaneidade na televisão e o impacto das redes sociais.

Leonor Seixas foi a convidada de Flávio Furtado no programa The Leite Show e começou por recordar o célebre episódio de 2017, no 5 Para a Meia-Noite, que fez com que a mãe ficasse um dia inteiro sem lhe falar devido a uma resposta espontânea sobre depilação íntima.
Divertida com a memória, a atriz garantiu que ainda hoje o tema a persegue e reproduziu a repreensão que ouviu em casa na altura: “Já recuperou. Disse-me: ‘Não podes falar assim em televisão, não é bonito, podes dizer asneiras, mas com elegância, a maneira como falaste não é só o que se diz’. Eu até acho que ela teve um bocadinho de razão, mas já está feito.”
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Questionada sobre se a maturidade lhe retirou a frontalidade que sempre a caracterizou, a intérprete explicou que a impulsividade deu lugar a uma maior serenidade: “Eu acho que sempre fui muito impulsiva, que foi uma coisa que eu sempre gostei e não gostei ao mesmo tempo. Por um lado acho que é bonito porque é genuíno e é verdadeiro e estou a dizer o que sinto. Acho é que quando era mais nova era um bocadinho espevitada e acho que se pode dizer as coisas, mas acho que se deve sempre dizer de uma maneira amorosa, que a minha maturidade me foi ensinando um bocadinho mais.”
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Sobre o peso do politicamente correto na televisão atual, Leonor Seixas admitiu que o escrutínio aumentou face ao início do seu percurso artístico: “Acho que quando comecei não tinha tanto essa barreira, acho que era mais o que era. Agora, de facto, começas a ser tantas vezes julgado, ou tens cuidado, ou até às vezes por bem, mas a pessoa tem sempre alguma opinião para dar acerca de tudo.” Ainda assim, garantiu que a chegada a uma nova década de vida a libertou do receio do julgamento alheio: “A partir dos 40 eu acho que isto é tudo melhor. Eu, pelo menos, sou muito mais calma, muito mais tranquila, portanto se calhar penso um bocadinho mais, mas não porque tenho medo, penso porque penso.”
A conversa levou a atriz a refletir sobre o ambiente que se vive no meio artístico e no próprio país, deixando um desabafo sobre a falta de empatia em Portugal: “Estou um bocadinho nas tintas. Agora, acho que também temos a parte toda das redes sociais que é intensa e, mesmo sem internet e sem Instagram, temos as opiniões uns dos outros. Isto é um meio pequeno, nós todos nos conhecemos, equipas, toda a gente, todos os canais, e há um julgamento diário porque também vivemos num país que, e lamento se estou a ofender alguém, custa-me dizer isto, mas acho que é um país que é um bocadinho infeliz. Acho que é um país que está a passar muitas dificuldades e muitos desafios.”
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Para a artista, a tendência nacional para apontar o dedo ao próximo esconde uma falha mais estrutural na sociedade portuguesa: “Somos um país que não tem amor próprio, somos um país que não vai para a rua para puxar o que é melhor por nós. Acho que há esse julgamento porque as pessoas gostam sempre de falar umas das outras para não olharem para elas próprias. Não interessa, se ela quis dizer aquilo deixa estar, desde que obviamente seja com amor. Eu acho que quando vens falar de uma maneira agressiva e chata, também não me apetece.”
Apesar das críticas ao contexto social, Leonor Seixas assegurou estar a viver uma etapa de plenitude pessoal, alicerçada nos valores transmitidos pela família: “Estou numa fase onde não me interessa o que é que dizem e o que é que pensam. Eu sei o que sou, sei que tenho muito orgulho em mim como mulher, tenho muito orgulho do que estou a construir, confio muito em mim como atriz, demorei anos a dizer que era atriz porque tinha alguma dificuldade, sabe-se lá porquê, e agora estou numa fase de muito amor próprio, de muita estabilidade emocional acima de tudo.” A convidada destacou ainda o papel diário da progenitora, a quem elogiou a franqueza: “A minha mãe vive na casa dela, mas somos muito unidas e eu falo com ela todos os dias, é uma pessoa em quem eu confio muito, que eu respeito muito e a quem eu devo tudo.”