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Viúva de Diogo Jota nega convite das ‘maiores televisões do mundo’: “Só quero que me deixem sossegada no meu canto”

O autor da biografia de Diogo Jota revelou que Rute recusou uma entrevista a uma cadeia norte-americana. O livro foi apresentado na Federação Portuguesa de Futebol.

Na passada sexta-feira, a sede da Federação Portuguesa de Futebol, no Porto, acolheu a apresentação do livro biográfico de Diogo Jota.

O autor da obra, José Manuel Delgado, revelou os bastidores da criação deste projeto e destacou a força da família, com uma inconfidência sobre Rute, a viúva do jogador, que recusou recentemente um convite de uma cadeia norte-americana de televisão.

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O antigo Diretor-Adjunto do jornal A BOLA iniciou o seu discurso recordando como o desafio surgiu por parte de Pedro Proença, logo após o acidente trágico que vitimou o futebolista e o seu irmão, André Silva: “Quero começar por dizer que esta biografia de Diogo Jota, em cuja memória também se inscreve André Silva, nasceu da vontade do presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, ainda sob o peso recente da tragédia quando me lançou o desafio de a escrever. O Pedro esteve nessa altura em que as emoções estavam de facto ao rubro, a frieza de não perder a perspetiva histórica e criar condições para que a memória do André e do Diogo fosse colocada em perspetiva e fosse transmitida aos vindouros.”

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A família do internacional português abriu as portas da sua intimidade para que a obra fosse possível. José Manuel Delgado recordou o momento em que questionou os pais e a viúva sobre o timing das entrevistas: “Era então o início de setembro, dois meses passados sobre a tragédia, quando perguntei à Rute, à Isabel e ao Joaquim se desejavam falar de imediato ou se preferiam que deixássemos correr mais algum tempo. A resposta que recebi foi simples e desarmante. Pode ser já, porque vai doer tanto agora como daqui a alguns meses. A Rute, a Isabel e o Joaquim, e também a Paula, companheira de André, com quem vivia há 22 anos, aceitaram, movidos apenas pelo amor, um amor de raiz funda, atravessar a provação de recordar os instantes mais dolorosos das suas vidas.”

Viúva de Diogo Jota nega convite das 'maiores televisões do mundo': "Só quero que me deixem sossegada no meu canto"
Viúva de Diogo Jota nega convite das ‘maiores televisões do mundo’: “Só quero que me deixem sossegada no meu canto”

O objetivo, segundo o autor, foi garantir que o legado dos irmãos passasse para as gerações seguintes: “Fizeram-no para que esta história ficasse inscrita a preto e branco, não só para que o mundo soubesse quem foi o ídolo Diogo Jota e quem foi o irmão André, mas também para o Dinis, para o Duarte e para a Mafalda, para que eles pudessem um dia conhecer um pouco melhor o pai. Foram muitas horas de conversa, tecidas de lágrimas, por vezes breves sorrisos, à medida que se iam convocando episódios e lembranças, sem que jamais se perdesse a sobriedade com que esta história exigia ser contada.”

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O trabalho de pesquisa levou o jornalista a contactar dezenas de pessoas, desde os amigos de infância de Gondomar e de Paços de Ferreira até aos companheiros de seleção e colegas de escola, incluindo os professores que assistiram ao início do namoro entre Diogo e Rute, quando tinham apenas 15 e 16 anos. No entanto, foi em Inglaterra que José Manuel Delgado percebeu o verdadeiro impacto do jogador.

Ao relatar a sua experiência em Liverpool, o autor descreveu a devoção dos adeptos ingleses: “O Liverpool é um clube que conheceu várias tragédias e que aprendeu a erguer-se sobre a dor. É, além disso, um clube profundamente solidário, historicamente feito de gente do povo, de pessoas que preferem guardar o seu lugar no Kop [Jürgen Klopp], a irem de férias para o estrangeiro ou a jantarem fora. E se fazem tantos sacrifícios para ver ao vivo a equipa do seu coração, pedem apenas uma coisa aos boys in red, que deixem tudo dentro do campo. Ora, se cada adepto do Liverpool tivesse talento para jogar futebol e pudesse entrar na equipa principal do clube, quem gostaria de ser? Diogo Jota.”

A identificação dos ingleses com o avançado português era total: “Porque encarnou sempre os princípios do Liverpool, porque se entregava ao jogo até ao derradeiro limite e porque, embora fosse de Gondomar, dizem eles, para nós era como se tivesse nascido aqui. A nossa vontade era que a bola chegasse sempre ao Diogo, porque ele era aquele que tinha melhor capacidade de finalização. Várias pessoas compararam-no muito ao Robbie Fowler, porque para eles é o melhor finalizador que passou pelo Liverpool.”

Na reta final da apresentação, José Manuel Delgado partilhou inconfidências com a plateia. A primeira destacou a faceta mais humana de Jorge Mendes, que prestou um apoio incondicional à família de Diogo Jota e André Silva: “Depois da tragédia, independentemente de ter cessado o vínculo contratual que mantinha com Diogo Jota, Jorge Mendes deixou de ser o empresário e passou a ser apenas o amigo, que procurou minorar, de formas que aqui não importa trazer, mas sempre com um carinho tocante, o sofrimento de quem enfrentou uma provação inimaginável. Confesso que, embora estejamos perante o empresário de referência mundial no futebol, este lado de profunda humanidade, que contrasta flagrantemente com o estereótipo associado à função, para mim ficará sempre como uma marca de água de Jorge Mendes.”

A força dos pais também foi enaltecida. Sobre a mãe, Isabel, o autor confessou a intensa emoção do primeiro encontro, e sobre o pai, Joaquim, sublinhou o seu estoicismo admirável perante a dor: “Disse-me há pouco tempo. Se Deus os levou e deixou-nos cá, foi porque entendeu que nós ainda tínhamos alguma coisa para fazer. Se calhar, honrar a memória dos nossos filhos.”

O momento mais marcante ficou reservado para o final, quando o escritor revelou a decisão firme de Rute perante o assédio mediático internacional. A jovem viúva concedeu o seu testemunho apenas para as páginas do livro oficial, rejeitando qualquer exposição pública: “A Rute, que aos 29 anos tem diante de si a tarefa de criar três crianças, e viu num instante a vida voltar-se-lhe do avesso. Com coragem, dispôs-se a falar para esta biografia, naquelas que foram, tal como aconteceu com a Isabel, com o Joaquim e com a Paula, as únicas declarações sobre a tragédia. Há duas semanas, a Rute foi convidada por uma das maiores televisões do mundo, pertencente a uma cadeia norte-americana, para dar uma entrevista sobre a vida que partilhou com Diogo, e que teria divulgação planetária. Recusou. ‘Só quero que me deixem sossegada no meu canto’, disse-me.”

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