José Castelo Branco foi formalmente acusado pelo Ministério Público (MP) de um crime de violência doméstica agravada contra a sua esposa, Betty Grafstein.
O despacho da 6.ª Secção do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) Regional de Lisboa – Sintra ao qual o DIOGUINHO teve acesso desvenda um historial de alegados abusos físicos e psicológicos que terão marcado o casamento desde 1996, com um episódio de particular gravidade em abril de 2024.
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Os autos do MP apontam para um padrão de violência que começou logo após o casal ter dado o nó, repetindo-se tanto na residência de Nova Iorque como durante as estadias em Portugal. Ao longo das décadas, Castelo Branco terá agredido a esposa com murros no corpo e na cabeça, apertado o pescoço de Betty ao ponto de a sufocar e dirigido insultos como “velha” e “feia”.
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O documento descreve ainda um controlo e humilhação sistémicos. O arguido terá isolado Betty Grafstein, impedindo-a de falar com o próprio filho nos últimos dois anos, e retinha os seus documentos de identificação e passaportes.
Chegou a forçar a toma de medicação para diabéticos por razões estéticas. Numa outra ocasião, num acesso de fúria enquanto cozinhava, Castelo Branco atirou uma frigideira ao chão, provocando queimaduras em Betty com o salpicar do óleo. Forçava-a frequentemente a usar sapatos desconfortáveis e desadequados à sua idade, o que aumentava o risco de quedas.
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A situação agravou-se de forma crítica na primavera de 2024. No final de março, no Hotel Inglaterra, no Estoril, o arguido obrigou a esposa a calçar sapatos que lhe causavam dores intensas. Em lágrimas, Betty aproveitou uma distração do marido para sussurrar um pedido de ajuda à amiga Marcella Fernandes: “Help me please”. Pouco depois, Castelo Branco terá borrifado perfume diretamente nos olhos da esposa por esta estar a chorar, recriminando-a por estragar a maquilhagem.
Entre 18 e 20 de abril, de forma injustificada, Castelo Branco empurrou violentamente a esposa num quarto do mesmo hotel, provocando-lhe uma queda que a deixou inconsciente. Apesar da gravidade, o arguido não acionou os meios de socorro. Só a 20 de abril, com a intervenção de terceiros, Betty Grafstein deu entrada no Hospital CUF Cascais. O diagnóstico era preocupante: um ferimento no antebraço esquerdo, múltiplos hematomas e uma fratura da bacia com destacamento ósseo.
Durante os 46 dias de internamento em Portugal, antes de ser transferida para os Estados Unidos, o comportamento de Castelo Branco manteve-se pautado pela “indiferença” ao sofrimento da vítima. A acusação relata que o arguido forçava a esposa a sentar-se na cama de hospital, ignorando as dores da fratura e os avisos clínicos, apenas para gravar vídeos e tirar fotografias para as redes sociais. Opôs-se também a que o pessoal médico retirasse a maquilhagem de Betty, alegando que ela tinha de estar sempre em condições de gerar conteúdos.
O clima de tensão no hospital escalou a 4 e 5 de maio, quando o arguido tentou entrar à força no quarto, tendo de ser contido pelos seguranças da CUF Cascais. Abalada, Betty Grafstein pediu expressamente aos médicos para não permitirem a entrada do marido ou que a porta ficasse aberta se ele estivesse presente, confessando ter um “tremendo receio” de que este a matasse.
Perante o apurado, o Ministério Público concluiu que Castelo Branco agiu de forma livre e consciente para molestar física e psicologicamente a vítima, afetando a sua liberdade e dignidade pessoal. Está agora formalmente acusado de autoria material de um crime de violência doméstica agravada. Como penas acessórias, o MP pede a proibição de contacto com a vítima e a frequência obrigatória de programas de prevenção de violência doméstica.
A investigação que levou a esta acusação ganhou dimensão pública a 20 de abril de 2024, quando Betty Grafstein foi internada na CUF Cascais com uma fratura no fémur e lesões nos braços. Inicialmente associadas a uma queda, as lesões depressa levantaram suspeitas de violência doméstica. Nos dias seguintes, Betty relatou a profissionais de saúde ter sido agredida pelo marido, levando o hospital a comunicar a situação às autoridades. A 2 de maio, a própria Betty formalizou a denúncia.
A 7 de maio, José Castelo Branco foi detido pela GNR no Estoril e constituído arguido no Tribunal de Sintra, ficando em liberdade, mas com medidas de coação apertadas: proibição de contactos com a vítima, de se aproximar dela e de permanecer no hospital. A 8 de maio, uma tentativa de recolha de depoimento judicial de Betty no hospital não produziu resultados úteis, pois a vítima encontrava-se confusa e medicada. A 24 de maio, Castelo Branco recebeu uma pulseira eletrónica, que perdeu efeito quando Betty regressou aos EUA a 4 de junho. Mais tarde, foi também obrigado a entregar os passaportes, mantendo-se a proibição de contacto.
O Ministério Público formalizou a acusação em novembro de 2024, descrevendo um quadro de agressões físicas e verbais prolongadas desde o início do casamento, com humilhações, controlo da imagem da vítima e o alegado empurrão que causou o internamento. Betty começou a falar mais abertamente, e em junho de 2025 voltou a acusar o marido de agressões e de a ter mantido num clima de medo.
Em setembro de 2025, o Tribunal de Instrução Criminal de Sintra decidiu levar José Castelo Branco a julgamento, após o arguido ter pedido abertura de instrução. O julgamento começou hoje, 25 de junho de 2026, no Tribunal de Sintra.