Miguel Sousa Tavares critica duramente a dependência do jogo em Portugal, focando-se na popularidade das “raspadinhas”. O cronista classifica o fenómeno como um “espetáculo decadente” que corrói os valores sociais e explora as camadas mais vulneráveis da população.
O vício do jogo em Portugal, personificado na popular “raspadinha”, é alvo de uma crítica severa de Miguel Sousa Tavares pela sua natureza predatória. O cronista descreve o cenário das papelarias como um “espetáculo decadente” que afeta sobretudo os idosos e os mais pobres.
Miguel Sousa Tavares aponta o dedo à dualidade de critérios do Estado português pois, enquanto existe um esforço punitivo e fiscalizador sobre o álcool, o tabaco, o açúcar e o sal, o jogo online e físico floresce sem o mesmo escrutínio. O autor recorda que no Brasil, desde Getúlio Vargas, o jogo é proibido por ser uma forma de tirar dinheiro aos pobres, enquanto em Portugal as ruas se transformam em “casinos”.
Para o cronista, esta dependência é alimentada pela ilusão de que a ascensão social não se faz pelo trabalho ou educação, mas por uma “hora de sorte”.
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O autor alerta ainda para o perigo do jogo online, que considera ser já “muito mais importante que o jogo em casino” e, segundo Miguel Sousa Tavares, esta é uma armadilha para jovens e pais de família, atacados por “vampiros que dão crédito para se jogar”, tornando-os dependentes num instante e ameaçando a estabilidade das famílias portuguesas.
A crítica estende-se à gestão ética das receitas do jogo pela Santa Casa da Misericórdia pois, embora o objetivo final seja o auxílio social, o autor sublinha a profunda ironia de se financiar o apoio aos desfavorecidos recorrendo à exploração do seu próprio desespero. “Ganha-se dinheiro aos pobres e leva-se os pobres a querer que, num golpe de sorte, fiquem com uma vida confortável“, afirma.
Miguel Sousa Tavares lamenta o impacto visual e cultural deste vício nas comunidades locais e relata a imagem de estrangeiros que, ao entrarem numa papelaria, encontram filas de pessoas focadas apenas em raspar papel, sem interesse em livros ou jornais. “É quase o único tema de atividade diária e de conversa entre as pessoas mais velhas“, observa o cronista, questionando se os fins justificam os meios quando o Estado se torna dependente de um vício que “envenena” a população mais vulnerável.
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