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O “primeiro encontro com a morte” de Pedro Chagas Freitas

O escritor Pedro Chagas Freitas recorda tragédia na infância

Num texto intimista, o escritor descreveu o impacto da dor nos seus primeiros anos de vida e o medo da partida dos que mais ama.

Pedro Chagas Freitas recorreu às redes sociais esta quarta-feira, 19 de agosto, para partilhar uma reflexão tocante sobre a primeira experiência de luto que viveu durante a infância. O escritor evocou o dia em que a família recebeu a notícia do falecimento do tio Paulo, descrevendo o impacto emocional desse acontecimento na sua perceção sobre a vida e a perda.

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O meu primeiro encontro com a morte foi a 19 de agosto, há muitos anos. Foi mais um confronto do que um encontro. A morte de quem amamos mata-nos. Um vai, o outro fica. Não sei qual dos dois morre mais. Naquele dia, eu era a criança que soube que o tio Paulo morreu. Ninguém me tinha morrido até àquele dia. Nunca tinha visto o meu avô a chorar, a minha avó a chorar, os meus tios, os meus primos a chorar, tantos adultos a chorar. Nunca tinha visto uma casa a chorar“, começou por recordar.

O autor descreveu a memória vívida do momento em que as autoridades chegaram para transmitir a trágica notícia aos seus familiares. “Eu estava lá quando a polícia bateu à porta. Eram dois. Traziam a tristeza de quem não sabe como se carrega a morte de um filho até à mãe, até aos pais. O grito da minha avó. O grito de toda a gente. Quando se morre por dentro, resta um grito ou o silêncio. Ou o grito e depois o silêncio”, relatou, lembrando a última interação que teve com o tio: “Antes de partir para a última viagem veio lá a casa dar um abraço. Não sei se foi coincidência mas foi assim: ‘já sabes chutar com o pé esquerdo, russo?’, eu a querer mostrar-lhe num instante que já conseguia, que estava a ficar um craque. As mãos dele no meu cabelo pela última vez, aquele sorriso inteligente (…) o carro a ir, ele a ir“.

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O escritor detalhou ainda a angústia sentida naquela noite, ao tomar consciência da finitude dos que o rodeavam. “A imortalidade dos que amava morreu ali, com ele. Eu menino a tentar perceber quem seria o próximo. Nessa noite, nem dormi, ou dormi pouco: passei as horas a pensar que iria ver morrer todos aqueles que amava. Eu era o mais novo: iriam todos antes de mim. Chorei ali a morte de cada um, um por um, por antecipação. Ainda cá estamos quase todos. Ainda continuo a ser aquele menino, cheio de medo, embrulhado debaixo dos lençóis a pensar quando será o próximo“, desabafou.

A publicação encerra com uma mensagem sobre a superação e o valor dos afetos perante a inevitabilidade do fim. “Acho que somos todos esse menino debaixo dos lençóis cheio de medo de que a morte chegue. Nunca deixamos de ser esse menino, nunca, nunca. É a nossa desgraça e o nosso milagre. Resta-nos aguentar, aproveitar. Resta-nos amar contra a morte“, concluiu.

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