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Partilha de Evandro sobre racismo gera debate tenso no Passadeira Vermelha da SIC

"O racismo não funciona para os dois lados": David Motta discorda de Sofia Jardim em direto

O testemunho do ator em «Casa Feliz» motivou uma discussão acesa entre os comentadores do programa da SIC CARAS.

A recente presença de Evandro e Paula Lobo Antunes no programa «Casa Feliz» continua a ecoar na esfera pública. Na SIC, os atores abordaram a experiência de gravar cenas densas para a novela «Páginas da Vida», momento que levou o ator a partilhar uma reflexão sobre o preconceito racial. O assunto foi posteriormente analisado no programa «Passadeira Vermelha», na SIC CARAS, sob a condução de Liliana Campos e com a participação dos comentadores Sofia Jardim, Zulmira Garrido, David Motta e da convidada Cláudia Borges, resultando num debate marcado por pontos de vista divergentes.

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Na sua intervenção inicial em antena, Evandro explicou o impacto psicológico de dar corpo a sequências de cariz discriminatório. “Eu já tinha dito, isto são assuntos intemporais. Infelizmente, acho que daqui a 20 anos vamos estar a falar novamente deste assunto e de outros que existem. Mas eu posso dizer que gravar estas cenas, inicialmente eu estava um bocado receoso porque automaticamente eu podia buscar certas memórias daquilo que eu já passei mais novo e mais velho“, confessou.

O ator fez questão de salvaguardar o apoio que encontrou nos bastidores: “O ambiente é tão acolhedor no set, […] sinto-me tão acolhido e tão protegido que mesmo depois dessas cenas que fazemos, eu sinto-me, ok, está tudo bem, Paula, está tudo bem. E é um prazer enorme fazer isso com a Paula porque a Paula é muito engraçada, a Paula tem uma energia incrível. Mas é ótima atriz“.

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A análise em estúdio começou com Zulmira Garrido a admitir que, no passado, “não tinha essa consciência” da dimensão do problema, algo que Liliana Campos considerou comum. “Nós não sentimos, nós enquanto pessoas brancas não sentimos“, pontuou a apresentadora, ao qual, Zulmira defendeu ainda que a mediatização do tema “tem um bocadinho mais a ver com determinados partidos políticos”, sustentando que o país acolhe bem os cidadãos, exemplificando com a sua própria vivência: “Nomeadamente eu que em casa tenho uma pessoa que é de cor, fui criada com pessoas de cor“.

A expressão “de cor” foi de imediato corrigida pela apresentadora “Cor somos todos nós. Mas quando as pessoas se queixam, é porque existe” e, Zulmira anuiu e apontou o desporto-rei como um foco evidente: “Onde se via muito e aí onde eu tinha noção e comecei a ter noção que ainda havia muito racismo é no futebol. Porque aí vê-se muito mesmo, inclusive os jogadores a ofenderem outros colegas“.

A natureza da representação na ficção foi esmiuçada por David Motta, que destacou o contraste social evidente na narrativa da novela. “O que é um facto é que a representatividade aqui é a mulher branca com um ar privilegiado, porque a Paula Lobo Antunes não engana ninguém, […] é a mulher branca privilegiada a exercer, por assim dizer, a ser racista com um rapaz negro“, constatou.

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A perspetiva encontrou oposição em Sofia Jardim, que colocou a hipótese de o fenómeno ser multidirecional. “Sim, mas também temos que ver que o racismo não é só, também dá de vários lados. […] Eu acho que funciona para os dois lados também“, afirmou. O comentador rebateu de pronto: “Uma coisa é preconceito, outra coisa é racismo, mas é um debate que devemos ter aqui. Mas que negro é que escravizou um homem branco nos séculos de história de Portugal? É uma coisa estrutural“.

A posição de David Motta foi corroborada por Liliana Campos, que salientou as dinâmicas históricas de privilégio. “Nós enquanto brancos somos privilegiados, não sabemos o que é sentir na pele aquilo que já vem de gerações, já é de séculos, não é? Que já está entranhado nos comportamentos da maioria das pessoas“, opinou. Sofia Jardim argumentou que a sua visão englobava uma escala global: “Mas eu estou a falar do mundo em geral, às vezes também há racismo contrário. […] Estou a dizer que no mundo nem sempre é assim“.

O debate encerrou com um relato de cariz pessoal de Zulmira Garrido sobre o período em que residiu em África durante a sua juventude. “Eu vivi em Angola, como toda a gente sabe, fui criada lá. Meu pai era militar. […] Os meus pais não eram ricos, mas lá eu fui criada, tinha babá, tínhamos tudo. Motoristas… Ali tinha, toda a gente vivia bem“, relembrou. A comentadora evocou a integridade do seu pai perante as ordens recebidas no contexto militar da época: “Houve uma altura em que eles foram obrigados a fazer rusgas nos musseques e muitos deles eram obrigados quase a torturar as mulheres nos musseques. Sabe o que é que o meu pai fez? ‘Põe as malinhas aí na família e viemos embora.’ Ele teve-se nas tintas se tinha reforma, se não tinha reforma, veio embora. Não conseguiu desempenhar aquele papel que lhe era […] a militares, polícias, soldados, tropas que faziam isso“.

Quando interpelada por David Motta sobre o propósito da fixação portuguesa na região, Zulmira concluiu: “Foram à procura de vida melhor, para ganharem dinheiro, obviamente“.

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