Daniel Nascimento arrasa abordagem de Cristina Ferreira: “Uma vergonha do princípio ao fim”
A polémica análise da TVI ao caso da jovem de 16 anos dominou a emissão do Noite das Estrelas. Maya e Sílvia Botelho desfizeram os argumentos do "Dois às 10" e sublinharam a importância do consentimento.
A emissão do “Noite das Estrelas” da CMTV desta madrugada foi fortemente marcada pela indignação geral perante as declarações de Cristina Ferreira e da psicóloga Inês no programa “Dois às 10”, da TVI, sobre o caso da jovem de 16 anos violada por quatro homens.
As palavras da apresentadora, que tentaram encontrar justificações para o comportamento dos agressores a meio do ato, geraram uma onda de críticas nas redes sociais e motivaram já uma queixa formal na Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC).
Maya abriu o programa sublinhando a gravidade do momento, classificando-o como “a situação mais grave que atravessou até hoje”. A apresentadora criticou a “leviandade” e “falta de senso” com que o tema foi tratado na TVI, apontando que Cristina Ferreira “não terá medido bem as palavras e tentou encontrar explicações para o sucedido, confundindo, aliás, ato sexual com violação”.
A análise no estúdio da CMTV começou por focar-se na questão do consentimento, com a Dra. Sílvia Botelho a desmistificar a teoria apresentada na TVI de que seria difícil para os agressores pararem a meio da agressão. “Uma pessoa, a maior parte das pessoas (…) temos a perfeita noção do que é que quer dizer não, temos a perfeita noção de quando estamos a ser rejeitados, temos a perfeita noção quando a pessoa está em sofrimento, quando está com medo”, explicou a especialista, refutando a ideia de falta de controlo. “Não é porque nós, quando estamos excitados ou no calor do momento, nós claramente que conseguimos parar. Uma pessoa sabe perfeitamente o que está a fazer e tem este discernimento. Portanto, isto aqui tudo aponta para que aconteceu um crime”, concluiu.
Daniel Nascimento não escondeu o seu profundo desconforto e revolta com a situação e com a abordagem da TVI. “Eu estou incomodado com esta situação (…) Estes animais são criminosos. Não são os miúdos que estão numa adrenalina”, atirou o comentador, visivelmente exaltado. O comunicador lembrou o histórico de declarações polémicas de Cristina Ferreira em casos semelhantes: “Nós temos estado a assistir a muitas afirmações erróneas da Cristina. Da outra vez disse que a rapariga se tinha posto a jeito. E desta vez faz uma pergunta (…) para elaborar uma pergunta deste desnível e confundir um ato sexual normal com uma violação que é um crime”. Daniel repudiou ainda qualquer tentativa de justificação baseada no comportamento inicial da vítima, frisando que “o que eles fizeram contra esta rapariga é crime. Não me interessa se ela fez uma dança erótica. Não me interessa se ela achou piada alguma coisa. Quando ela diz que é para parar, é para parar”.
A indignação foi partilhada por Duarte Siopa e Ana Barbosa. Siopa criticou duramente a postura da psicóloga presente no “Dois às 10“: “A gravidade da situação é depois até uma psicóloga dizer, eles estavam empolgados, meu, o que é isto? (…) E quando tenho ali uma psicóloga que está a falar de uma situação de que parece que está a desculpabilizar, começa logo a pedir desculpa, e depois está a desculpabilizar uma situação que é criminosa”. Para Ana Barbosa, não há margem para dúvidas sobre a natureza do ato: “Isto não é ter sexo, isto é uma violação”.
Durante o debate, foram também exibidas reações de figuras públicas nas redes sociais, como a influencer Kiko Exote, que alertou para o perigo deste tipo de discurso (“Dizer que o não de uma mulher a meio de um ato sexual não significa tanto ou pode não significar tanto não é só ridículo. É perigoso”), e do humorista Diogo Faro, que ironizou com o facto de estarem “a justificar uma violação de grupo”. A ativista e jornalista Paula Cosme Pinto, cujas palavras foram também recuperadas no programa, foi perentória: “Não tentemos arranjar desculpas para aquilo que é indefensável. (…) É tempo de percebermos coletivamente que a culpa só está num dos lados. E é no de quem viola. Ponto final, parágrafo.”
A emissão encerrou com o anúncio de que a ativista Francisca Magalhães de Barros avançou com uma queixa formal na ERC contra a TVI. Quanto a um eventual pedido de desculpas por parte de Cristina Ferreira, Daniel Nascimento mostrou-se cético: “A explicação vai ser uma explicação com algum tom de arrogância como sempre, não é um pedido de desculpas de alguém que tem empatia e que diz, eu usei mal estas palavras, eu não quis dizer isto desta forma”.