GRANDE ENTREVISTA: António Machado, 20 anos de Portugalex: “Não sou apenas um imitador!”
Colega de Manuel Marques na rádio, no teatro com José Raposo e Florbela Queiroz, 32 anos de carreira...
Faz 53 anos a 10 de Julho. Pai de três filhos, dois deles gémeos e um que quer ser cientista da NASA. Numa conversa de vida, fala também do apoio que dá aos “desenhos espetaculares” de Inês Marques.
DIOGUINHO – Vamos começar pelos anos de carreira que tem. Há quanto tempo é que…
ANTÓNIO MACHADO – Estou desde 94, pelo menos, não contando com o curso de ator. Portanto, 32.
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Ainda se lembra como tudo começou?
Quer dizer, lembro-me porque eu desde miúdo que queria ser ator. E tirei um curso, aos 18 anos, tirei um curso de ator em Lisboa. E ainda tive um ano no curso de jornalismo no CENJOR.
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Mas depois fiquei selecionado para apresentar o Clube Disney, na RTP, em 1994, até 96. Depois, quando acabou, fui parar às vozes do Contra Informação e comecei a fazer outros programas. E como ator também, claro. Era a formação que eu tinha e tenho.
De maneira que comecei também a entrar em sketches, em séries, em novelas. Novelas pouco, mas em séries.
Destacou-se muito no Contra Informação, que é uma coisa que o António faz “com uma perna às costas”…
Sim, eu já fazia imitações desde pequenito, portanto, quando tirei o curso de ator já fazia algumas imitações e umas coisas. Quando fui parar ao Contra Informação, fazia 18 vozes, nada comparável com as 50 e tal do João Canto e Castro. Mas pronto, já eram umas tantas vozes. Era fixe.
Quais eram as suas preferidas, aquelas que gostava mesmo?
Eu fazia o José Rodrigues dos Santos, era o Rodrigues dos Prantos, o Otávio Machado, que era o Otávio Malvado. E depois havia algumas que eu já fazia, mas não ali no Contra Informação, porque o João Canto e Castro já as fazia.
O percurso em teatro e novelas, novela é uma coisa que não lhe diz muito ou…
Não me chamam é muito, mas é uma coisa que eu gosto muito de fazer. Séries, novelas, acima de tudo eu gosto de trabalhar na área. Infelizmente, às vezes é preciso também ter alguma sorte. Depois as pessoas, eu na altura não tinha noção, mas o facto de estar a fazer vozes para bonecos no Contra Informação era muito giro, mas estava a massacrar o resto das coisas, porque as pessoas achavam que eu era…
Ah, este é imitador só, não é ator. Então não me chamavam para os castings sequer de séries, o que às vezes era muito chato. O teatro ainda fui fazendo também, portanto não havia problema, mas para séries não levavam a sério o facto de eu estar como ator, de ser ator.
O Contra Informação foi um projeto que ainda durou muitos anos.
Sim, sim. Eu estive oito anos, desde 96 até 2004, mas aquilo ainda durou mais uns aninhos.
Acha que ainda hoje teria lugar na programação?
Sim, talvez de outra maneira, não sei se com os bonecos, acho que era uma coisa gira, mas não diário, talvez se calhar semanal, um programa de 10, 15 minutos semanal, acho que funcionava. Acho que era uma boa.
Entretanto, o Portugalex completou na sexta-feira, 8 de Maio, o 20.° aniversário.
É verdade, 20 anos… A primeira vez que fui para o ar na Antena 1 foi no dia 8 de maio de 2006. E depois passou também para a Antena 3.
O Portugalex foi um projeto seu e do Manuel Marques?
Não, foi um projeto das Produções Fictícias, na altura, com o Nuno Artur Silva, que apresentou o projeto na RDP e ficámos…
E está para durar?
Epá, Deus queira que sim! Pelo menos mais uns 20 anos, era bom. Os textos são da Patrícia Castanheira, que é maravilhosa a escrever aquilo sozinha e vai correndo bem. De vez em quando, estamos lá no estúdio, vamos gravando e pronto, temos de estar sempre com alguma atualidade, por isso hoje em dia, às vezes, até se consegue gravar no telefone por causa de alguma coisa que aconteça, às vezes a despedida de um ministro e não sei o quê, ou acontece alguma coisa e nós temos de gravar e fazemos por telefone.
O Portugalex dava um programa de televisão?
Nós tivemos essa aproximação há alguns anos, mas acho que não funcionava porque como somos nós a fazer tudo, os sons e tal, isso em televisão ficava um bocadinho pobrezinho, porque ou tu fazes mesmo os bonecos, ou estamos vestidos com bonecos e com caracterização e passa a ser um programa de sketches… Mas era uma coisa com poucos recursos, pobrezinha, então decidimos não avançar.
Como é que dividem as vozes? Há vozes que são do António, há as do Manuel?
As vozes já estão distribuídas, há bonecos, há pessoas que ligam para os fóruns, mas cada um grava a sua e depois eles editam. A Patrícia Castanheira, às vezes, escolhe, vê quem é que tem voz para isto, quem é que tem outra para aquilo e decide.
Tem alguma voz preferida?
Ah, isso gosto muito de fazer, é o professor Marcelo. O D. Duarte, quando aparece, também. Faço o Sócrates.
E o Manuel?
Ele é mais o António José Seguro, agora, agora está a fazer o Seguro. Depois não sei, também tem as preferidas dele.
O António está a trabalhar com o Manuel Marques há 20 anos, já se conheciam?
Acho que a gente já se tinha visto num sketch ou qualquer coisa assim, não faço ideia, não me lembro. Mas sim, por aí, por sketch, mas ainda não tínhamos trabalhado juntos.
O facto é que já passaram 20 anos e vocês mantiveram sempre um o projeto em alta. São amigos ou colegas?
Somos colegas, de vez em quando encontramos-nos, mas até mais nas estreias uns dos outros e tal. Não somos amigos de casa, mas isso não quer dizer nada.
Eu estou com a peça Um Quinteto de Morte. Acabámos no final de Março ali na Casa do Artista e agora vamos começar a digressão, vamos em Junho para o Algarve, Figueira da Foz e depois um mês no Porto, até meio de Julho no Porto.
Onde contracena com o José Raposo…
Sim, o Zé, o filho, o Ricardo, o Heitor Lourenço, o Carlos Areia, que vai voltar, porque ele tinha partido o pé, mas agora já vai conseguir fazer a digressão. A grande Florbela Queiroz, a Fátima Severino. É a loucura!
Como é o ambiente nos bastidores?
Essa foi uma das coisas que o Zé Raposo, que esteve a escolher o elenco, quer, que é trabalhar com pessoas com quem se dá bem, o que é muito bom.

Qual é a sua personagem?
Eu estava a fazer um polícia, mas agora vou ser um dos ladrões, o Valter Cristóvão fica com o polícia. Também é um ator muito fixe.
Como é que é estar em palco com uma lenda como a Florbela Queiroz?
Ela é maravilhosa, eu ainda não tinha estado em cena com ela, e é muito querida, e ela tem muito ‘timing’ de comédia, ainda hoje tem muita graça, e espero que ela ainda se mantenha bem, porque ainda tem ali muitos espetáculos para fazer, e faz falta no teatro.
António, nós não sabemos muito sobre a sua vida pessoal, pode-me dizer se é casado, quantos filhos tem…
Neste momento estou separado, mas tenho três crianças, estão a meu cargo, uma semana sim, uma semana não, tenho um casal de gémeos com 11 anos, a Catarina e o Francisco, e o mais velho, o Duarte, tem 12, vai fazer 13.
Está fechado ao amor?
Não, nada disso, mas por enquanto está sossegadinho.
A relação chegou ao fim de forma pacífica?
Sim, acabou-se, infelizmente por um lado, mas acabou, está tranquilo, está-se bem.
O coração não está de férias…
Não, não está!
Agora anda nos castings, é isso?
Em castings, exato, exatamente (risos).
António, uma vez que trabalhas com o Manuel Marques, qual é a sua opinião sobre a questão que o envolve, já desde há um ano, acerca da queixa de violência doméstica por parte da filha, Inês?
Bem, eu não tenho a opinião porque não estava lá, não vi, mas pronto, acho que nestas coisas é preciso separar-se e conhecer a história. Eu não o conheço bem, portanto não vou pronunciar sobre uma coisa onde não estou e não vi.
Mas está a imaginar o Manuel Marques numa situação destas, conhecendo-o como colega?
Eu acho que ninguém faz uma coisa dessas de ânimo leve, portanto, não sei, é uma questão de… Agora, se for para o tribunal, há de ser tudo escrutinado e visto.
Acredita na inocência dele?
Eu, nestas coisas, se há de facto uma vítima, eu acho que estou do lado da vítima, não é? Portanto, tudo o resto… Ou seja, acho que, pronto, se há alguém que é uma vítima, é preciso que isso seja descoberto, e se há alguém que tem de se retratar, que se retrate.
Mas como trabalha diretamente com o Manuel, nunca o viu mais em baixo, nunca falaram sobre o assunto, nada?
Não, não, eu nem tenho sequer falado nada, nem nunca falei nada sobre isso.
O António apoia a Inês, na página de Instagram, onde ela faz aqueles rabiscos, digamos assim…
Não são rabiscos, ela faz uns desenhos espetaculares. Faz uns desenhos muito giros, e apoio sempre, na parte criativa. Mas também não tenho uma relação de amizade com a miúda. Eu tenho estado mais próximo por amigos em comum, mas não posso dizer que sou amigo dela, não tenho sequer o número, não ligo, não faço nada disso. Apoio-a no trabalho que ela faz, no trabalho criativo, e pronto.
Estou do lado da vítima sempre, expectante a ver o que é que acontece. Em termos de trabalho estamos bem, pronto, está tudo bem. Eu só estou com o Manuel na gravação e não tenho nada a dizer. É uma relação de trabalho e está tudo bem.
Quem é o seu ator e atriz preferidos em Portugal?
Ah, isso eu não sei, não faço ideia. De repente, não estou a ver. Muita gente. Gosto muito do Zé Raposo a trabalhar. Mas escolher um, é complicado. Um ou uma. Gosto muito da Marina Mota, já trabalhei muitas vezes com a Marina e gosto muito dela.
Podem seguir o seu trabalho nas redes sociais…
Sim. António Machado Super Oficial. Agora também na RTP Memória, no Bem Vindos a Beirais. Estivemos dois anos em gravações.
E cinema?
Sim, já fiz dois ou três filmes, não fiz muitos. Claro que gosto de fazer cinema. Esse é outro mercado que também é complicado lá entrar.
Mas acha que continuam sistematicamente a ver o António como o imitador?
Pois, não sei. Aí é mais a parte dos castings. Uma pessoa não vai a casting, é complicado…
Trabalha também muito na gravação de publicidade, vozes, dobragem..
Sim, isso adoro também. Também costumo fazer.
Compensa financeiramente?
É um trabalho como outro qualquer. Às vezes demora tanto tempo, às vezes lá fazemos alguma publicidade. Os anúncios, quando é de imagem, infelizmente estão a pagar cada vez pior. Mas as locuções de publicidade, ainda têm alguma tabela, ainda é bom.
Poderia viver apenas do Portugalex?
Não, acho que não. Os custos de vida cada vez aumentam mais, é difícil. Com três crianças e tudo, é complicado.
Algum dos seus filhos já demonstra vontade de seguir os seus passos?
Sim, a minha Catarina tem 11 anos e já tem feito muito trabalho em televisão, também em cinema. Já fez uma longa metragem, já fez muitos trabalhos, algumas participações em curtas metragens e um filme chamado Sombras.
E os outros dois?
Não ligam, não ligam grande coisa. O Kiko quer ser futebolista, o mais velho, é mais a parte da NASA. O Duarte é mais a parte da NASA, cientista e tudo. Não é astronauta, que ele também gosta, mas é mais de cientista.
Em relação à televisão, séries, novelas, concorda com aquelas críticas que dizem que os elencos são sempre os mesmos?
São um bocado repetidos e, muitas vezes, nós não percebemos que novela estamos a ver, de que canal. Mas, agora, o que tem acontecido é que as novelas e as séries têm sido mais curtas e é bom que assim também se pode rodar mais os elencos, vamos ver.
Não vai regularmente a castings?
Não, é pena mas não.
Em relação aos 20 anos do Portugalex, a direção da RTP deu-vos os parabéns?
Não, não tivemos nenhuma aproximação em relação a isso. Mas o importante é que é para continuar.
Continua apaixonado pela profissão?
Sempre. E que não deixem nunca morrer a nossa arte. E que tenham formação, acima de tudo tenham formação. Não achem que isto é fácil. Não é fácil. E, essencialmente, que isto se faz por amor.
Se fizesse uma novela, qual era o papel que queria?
O vilão, o mau. As oportunidades surgirão.