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José Gonçalez leva ‘Casa d’Amália’ aos coliseus: programa da RTP1 tem quatro sessões em novembro

O projeto que nasceu para assinalar o centenário de Amália Rodrigues sobe ao palco do Coliseu dos Recreios a 21 de novembro, às 17h00 e às 21h30.

O programa ‘Casa d’Amália’ prepara-se para trocar a intimidade da sala de estar pelos palcos do Coliseu do Porto, a 12 e 13 de novembro, e do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a 21 de novembro, data em que se desdobra em duas apresentações, às 17h00 e às 21h30.

Para José Gonçalez, mentor e anfitrião do formato transmitido na RTP1, a passagem para as grandes salas representa o reconhecimento de um caminho improvável. Numa grande entrevista de Miguel Azevedo da CM/Vidas ao apresentador, ficamos a perceber outros detalhes.

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O apresentador encara o momento com naturalidade: “É uma espécie de certificado. Chegar aos coliseus significa que o projeto cresceu a ponto de merecer as salas mais emblemáticas do país. A mim particularmente deixa-me muito feliz porque nunca pensei chegar aqui. Este programa nasceu para celebrar os cem anos do aniversário de Amália e a verdade é que já está no ar há vários anos. Há um sentimento de dever cumprido, porque este projeto foi criado e proposto por mim à RTP. Hoje o programa consegue mostrar de forma transversal que Amália recebia em sua casa artistas de todos os géneros, de todas as artes, em que tudo se podia cantar e falar. Este programa mostra como era Amália, uma mulher livre, com um espírito livre.”

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A cumplicidade com a memória da fadista assenta em vivências concretas do comunicador, que esteve com Amália Rodrigues em diferentes ocasiões, embora apenas numa delas na residência da artista, após uma noite no Embuçado, espaço de fados pertencente a João Ferreira Rosa. O primeiro contacto deu-se muito antes, quando tinha 17 anos e dava os primeiros passos na indústria fonográfica.

Gonçalez detalhou esse momento: “Estava a gravar o meu primeiro disco na Valentim de Carvalho. Eu gravava à tarde numa altura em que ela estava a gravar à noite o seu último disco, em 1988. Um dia a Amália chegou com o Jorge Fernando e veio ter comigo. Foi uma surpresa porque eu não julgava que a Amália fosse tão pequenina. Foi a coisa que mais me impressionou. Ao vivo ela usava saltos de 20 centímetros para ficar com 1,70 metros de altura em palco.”

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A ligação ao fado vinha de trás. Nascido e criado em Estremoz, começou aos 14 anos a emitir um programa próprio na estação emissora local da diocese, iniciativa que sugeriu diretamente à paróquia. Por essa altura, concorreu à primeira edição nacional da Grande Noite do Fado, na qual foi selecionado com o tema ‘Fado Lusitano’, título que viria a batizar o álbum de estreia. O gosto pelo género nasceu no seio familiar, por influência da mãe, dona de uma voz que nunca chegou aos palcos.

O anfitrião esclareceu a razão desse recato: “Não, nunca. O meu avô achava imoral. As gravações que tenho dela são de um vizinho que vivia numa casa contígua à dos meus pais e que não tinham filhos. Esse meu vizinho era doido por fado e fez várias gravações da minha mãe. Após a sua morte, o sobrinho dele ofereceu-me uma cassete com as gravações dela a cantar os fados de Amália.” Publicar esse material permanece entre os seus desejos futuros.

A infância no Alentejo ficou marcada pela perda precoce do pai, o que obrigou a família a unir esforços. A mãe criou quatro filhos com o apoio do trabalho dos mais novos, tendo Gonçalez acumulado os livros com ocupações em negócios familiares durante os períodos de paragem letiva. Com o dinheiro ganho, comprou a primeira bicicleta e assegurou o primeiro televisor a cores da casa.

Nessa fase, repartiu o tempo entre os estudos e as pistas de hóquei em patins, modalidade na qual competiu a nível profissional por oito equipas diferentes, seguindo as pisadas paternas, uma vez que o pai integrou o conjunto que conquistou o primeiro título de campeão nacional da história do Sporting. No percurso académico, pensou seguir advocacia, ingressou em psicologia clínica na Universidade de Évora, onde acabou por suspender a inscrição, e concluiu mais tarde a licenciatura em Filosofia, na Universidade Católica Portuguesa, após a mudança definitiva para a capital.

Longe das câmaras, a vida pessoal corre com reserva e sem espaço para concessões à rotina doméstica habitual. O comunicador não casou nem teve descendentes, somando no passado duas uniões de facto, uma que se estendeu por seis anos e outra por doze.

A solteirice atual resulta de uma opção consciente, explicou: “Nunca senti essa necessidade. E depois a minha vida profissional foi sempre tão intensa, em torno do fado, da rádio e das cantigas que alguém ia ficar a perder. Foi uma opção minha. Prefiro estar sozinho porque ninguém seria feliz comigo. Há três anos, por exemplo, que não tenho um dia de férias.”

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