Morreu o realizador Bill Jersey, duas vezes nomeado para o Óscar, aos 99 anos
Morte de Bill Jersey: O adeus ao cineasta que levou a luta pelos direitos civis ao ecrã
Com uma carreira superior a cinco décadas, o autor assinou obras marcantes sobre a segregação racial e a justiça social.
O realizador norte-americano Bill Jersey, duplamente nomeado para os Óscares e autor de trabalhos focados em matérias sociais e no racismo nos Estados Unidos, faleceu aos 99 anos na Califórnia. A causa do óbito esteve associada a uma insuficiência cardíaca. O cineasta partiu a 24 de julho, mas a confirmação pública do falecimento foi prestada pela viúva, Shirley Kessler, à publicação The Hollywood Reporter.
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Nascido em Nova Iorque em 1927, o profissional construiu uma carreira com mais de cinco décadas dedicadas ao cinema documental, assinando mais de vinte produções. Boa parte da sua obra encontrou espaço de difusão na televisão pública norte-americana PBS, cobrindo temáticas ligadas às relações raciais, religião, política e cultura.
Um dos projetos de maior relevo no seu percurso foi “A Time for Burning”, codirigido em 1966 com Barbara Connell. O documentário registou os esforços do pastor luterano L. William Youngdahl para aproximação entre a sua congregação maioritariamente branca, em Omaha, e a comunidade negra local. A fita valeu-lhe uma nomeação para o Óscar de melhor documentário em 1968 e motivou a sua integração, em 2005, no National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.
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A segunda indicação da Academia de Hollywood deu-se em 1990 com “Super Chief: The Life and Legacy of Earl Warren”, produção de 1989 codirigida por Judith Leonard. O trabalho centrou-se na figura de Earl Warren, presidente do Supremo Tribunal norte-americano responsável pela decisão histórica que declarou inconstitucional a segregação racial nas escolas públicas. A narração do projeto esteve a cargo do ator Gregory Peck.
No meio televisivo, Bill Jersey destacou-se enquanto um dos dinamizadores da série documental “The Rise and Fall of Jim Crow”, produzida para a PBS. O formato, composto por quatro episódios, abordou o sistema de segregação racial implementado após a Guerra Civil norte-americana até ao aparecimento do movimento pelos direitos civis, alcançando um prémio Peabody e uma distinção da International Documentary Association.
A filmografia do autor integra ainda títulos como “Faces of the Enemy” (1987), focado na dimensão psicológica da desumanização em contexto militar, “Naked to the Bone” (1997), sobre a tecnologia de ressonância magnética, “Eames: The Architect & the Painter” (2011) e “American Reds: The Rise and Fall of the American Communist Party” (2016).
Antes da consolidação no campo documental, o profissional serviu na Marinha dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, graduou-se com mestrado na School of Cinematic Arts da University of Southern California em 1957 e assumiu a direção artística não remunerada da longa-metragem de ficção “The Blob”, de 1958, protagonizada por Steve McQueen.
Radicado em Berkeley durante longos anos, liderou a Quest Productions e exerceu funções de mentoria junto de vários cineastas da Bay Area.
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Na fase final da sua vida, trocou a produção audiovisual pela pintura de paisagem. A publicação San Francisco Chronicle notou que o realizador se manteve ativo nas artes plásticas até aos últimos dias, tendo concluído um quadro duas semanas antes de morrer.
No seu portal pessoal, o próprio cineasta estabeleceu a ponte entre as duas vertentes artísticas que praticou. “Morando no belo Hunterdon County, em New Jersey, estou rodeado de riachos, florestas, campos e colinas — uma abundância de cenas que quero captar ou interpretar na tela“, assinalou Bill Jersey na apresentação da sua página. “Como cineasta documentarista, aprendi a captar um momento no tempo e a usá-lo para contar uma história maior. É isso que procuro fazer nos meus quadros“, rematou o autor.