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Pedro Boucherie Mendes sem papas na língua: “Os concursos da música da RTP, eles gostam de toda a gente!”

O ex-jurado do 'Ídolos' revela a "coisa tramada" que acontece nos programas de talentos musicais...

Pedro Boucherie Mendes, antigo jurado de várias edições do ‘Ídolos’, na SIC, não poupa críticas à forma como os programas de talentos musicais são conduzidos atualmente.

O diretor de Conteúdos Digitais de Entretenimento da estação de Paço de Arcos perscrutou as diferenças entre o seu tempo e o presente, apontando o dedo a formatos onde, na sua visão, todas as opiniões sobre os concorrentes são invariavelmente positivas.

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No podcast que partilha, Boucherie Mendes explicou que esta atitude reflete um traço cultural português. “É uma coisa muito portuguesa, tomar um partido e depois ir com ele até ao fim da vida. Imagina que que eu gosto de ti. Vou gostar de ti quando comentas a bolsa, o Trump, o Sporting… (…) Tudo o que digam ou venham a dizer gostamos em função do afeto a priori”, contou.

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Ainda sobre a realidade nacional, o ex-jurado atirou que a verdade nem sempre compensa na televisão. “É uma coisa tramada em Portugal, sei isso por causa das pessoas da televisão que temos de escolher para jurados em concursos. Em Portugal, não compensa dizeres a verdade. ‘Tu cantas muita bem, não te posso dar o 10, vou dar o 9’. Os concursos da música da RTP, serviço público, eles gostam de toda a gente!”, frisou. Quando o coanfitrião Guilherme Duarte lembrou que muitos destes formatos se focam também nas histórias de vida mais tristes dos concorrentes, Boucherie Mendes reconheceu que são programas de “emotainment”, mas fez uma ressalva importante: “Mas tu podes ter cancro e não cantar bem.”

O antigo rosto do ‘Ídolos’ admitiu que, se voltasse atrás, não repetiria algumas das deixas que marcam a sua passagem pelo programa. “É óbvio. Não era uma personagem, eu dizia o que pensa, quase sempre digo o que penso, mas com a idade digo menos. Não [exacerbava], mas como sou uma pessoa inteligente, sabia que estava em televisão e eles iam editar isso”, esclareceu.

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Boucherie Mendes considera que a qualidade dos concorrentes no ‘Ídolos’ da sua época era, em média, inferior à de hoje, em grande parte devido à evolução tecnológica. “Muitos dos miúdos cantavam muito mal, porque isto é antes do YouTube. Estes programas sofrem muito porque o YouTube ensinou os miúdos a cantar e tocar. Hoje, se fores um miúdo vais ao YouTube e pesquisas como tocar guitarra e cantar”, detalhou.

A maioria dos aspirantes a estrela, entre 85 a 90%, era “média”, no seu entender. “Era: ‘Guilherme, cantaste bem, mas não és bem aquilo que estamos à procura.’ A editar aquilo, eles punham as partes dos muito bons. Nunca ninguém me veio dizer que estive muito bem, porque no nosso tivemos a Carolina Torres, o Salvador Sobral e a Carolina Deslandes. Nunca ninguém me elogiou por isso, que é uma coisa muito portuguesa também”, lamentou.

O processo de edição, segundo Boucherie Mendes, privilegiava as “partes mais coloridas”. Lembrou ainda que alguns dos concorrentes mais caricatos, os “cromos” como se dizia na altura, nem sequer passavam pelo crivo dos jurados, sendo selecionados num ‘pré-casting’. “O ‘Ídolos’ foi processado porque editaram umas orelhas grandes, isso não foi connosco, jurados, foi um ‘pré-casting’. (…) E, para acabar, era um tempo em que se faziam coisas que hoje não se fazem, mas em 1920 também se faziam coisas que não se faziam em 1940”, rematou, contextualizando as práticas televisivas da época.

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