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Regina Duarte garante: “Não teve custo nenhum” no governo Bolsonaro e atira: “não quero fazer isso!”

A atriz abre o jogo sobre a polémica passagem pela política e a razão de não querer voltar.

O palco estava montado para a peça, mas a tensão veio antes, numa entrevista.

Regina Duarte e a filha, Gabriela, contracenam juntas pela primeira vez em vinte anos, mas o foco da semana de 10 a 16 de agosto de 2026 não foi o texto de ‘A Filha da…’, que estreia em São Paulo na quinta-feira, 27 de agosto de 2026. A conversa com a imprensa, no Teatro BDO Jaraguá, revelou nervos à flor da pele, um desconforto quase palpável.

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Esse mal-estar não tardou a ganhar nome: política. Depois de abordar a sua passagem pelo governo de Jair Bolsonaro, Regina atirou: “agora acabou, morreu esse assunto”. Se na peça as personagens tentam esconder um assassinato, na sala de entrevista a intenção era clara: enterrar de vez o capítulo político para tentar resgatar o prestígio que Regina perdeu no meio artístico.

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A investida não surgiu do nada. Em 2020, Regina Duarte teve uma participação tão breve quanto ruidosa no governo federal. A mudança aconteceu depois de rescindir um contrato de cinquenta anos com a TV Globo, a estação que a eternizou como a “namoradinha do Brasil”.

À frente da Secretaria Especial da Cultura, a atriz acumulou críticas e controvérsias. Em maio de 2020, por exemplo, encerrou uma entrevista em direto na CNN depois de a emissora exibir um vídeo enviado por Maitê Proença. Nele, a colega de profissão pedia soluções para a classe artística, que enfrentava os desafios da pandemia. Regina também gerou desconforto ao falar, na mesma entrevista, sobre as mortes provocadas pela ditadura militar: “A humanidade não para de morrer. Se você falar de vida, do lado tem morte.”

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Pouco depois, mais de quinhentos artistas publicaram uma carta aberta em repúdio às suas declarações. Em meio a tanto desgaste, Regina pediu a demissão ao fim de apenas setenta e quatro dias no cargo. O então presidente Jair Bolsonaro afirmou que ela comandaria a Cinemateca Brasileira, mas essa promessa nunca se concretizou.

Diante de um desfecho tão conturbado, a pergunta sobre o custo pessoal da incursão política era inevitável. Regina não hesitou, mesmo quando a filha, Gabriela, a cutucou, aconselhando-a a não responder. “Não teve custo nenhum. Eu saí de lá depois de 74 dias, voltei para minha vida e segui magnificamente bem. Tem gente que não me perdoa até hoje de ter ido. Tem gente que não me perdoa até hoje de ter voltado”, garantiu a atriz.

Gabriela, por seu lado, já deixou claro que a sua visão política diverge da mãe. Em 2021, numa entrevista a um jornal, a atriz criticou abertamente a atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia: “É trágico. Não temos uma liderança honesta, clara, que se preocupe com a vida.”

A conversa com a reportagem, que durou pouco mais de uma hora, começou amena, mas foi ganhando tensão à medida que os temas políticos se aproximavam. A equipa das artistas intervinha frequentemente, cortando perguntas sobre o assunto, apesar da aparente disposição de Regina em responder. A dada altura, uma profissional chegou a pedir à equipa de filmagem do jornal que parasse de gravar.

Foi nesse ambiente que Regina Duarte afirmou não ter qualquer desejo de ser ministra nem vontade de regressar a um cargo de secretária. “Não, definitivamente não. Senão, eu teria ficado mais lá, lutado para proporcionar alguma coisa para a classe artística, para o povo brasileiro”, disse, pouco antes de ser novamente interrompida.

Então, política nunca mais? “Eu estou aberta. Eu estou viva. Quando a pessoa está viva, ela está aberta para o que der e vier. Ela pode dizer sim, ela pode dizer não. Está em aberto”, respondeu. O que não está assim tão “aberta” é a sua opinião sobre Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e candidato do Partido Liberal ao Palácio da Alvorada.

Regina já tinha confessado ser admiradora de Jair Bolsonaro, mas não revela se mantém essa mesma admiração pelo herdeiro político. “Você está me perguntando em quem eu vou votar? Fale do que fale, você vai concluir que eu vou votar nele ou não vou. A resposta é essa. Eu não vou responder em quem eu vou votar, tá?”, atirou, com voz firme e gestos quase teatrais.

Quando a tensão atinge o pico, é impossível não recordar as qualidades que a tornaram um nome central da teledramaturgia brasileira. A artista conserva o mesmo magnetismo, a verve dramática e a intensidade emocional que tornaram as suas mocinhas célebres no Brasil e um pouco por todo o mundo.

Uma das mais reverenciadas é Raquel Acioli, a heroína de ‘Vale Tudo’, um clássico exibido entre 1988 e 1989. Em 2025, a novela ganhou um remake que Regina criticou abertamente pelas alterações ao enredo original. “Eu jamais faria uma coisa dessas. Pegar o título de um ícone da teledramaturgia brasileira e fazer as mudanças que foram feitas”, contou.

As mudanças mais drásticas aconteceram precisamente na sua protagonista, que foi interpretada por Taís Araujo na nova versão. A cozinheira voltou a vender sanduíches na praia depois da falência da sua empresa — algo que não existia na obra original. “O que é isso? Que personagem é essa? Eu não reconheço o meu personagem”, lamentou Regina. “Não chama de ‘Vale Tudo’. A novela pode ter sido ótima, embora eu não tenha visto, mas não podia chamar ‘Vale Tudo’.”

Outra protagonista marcante foi Malu, da série ‘Malu Mulher’. No ar entre 1979 e 1980, a produção antecipou temas que só seriam amplamente debatidos anos mais tarde, como a independência feminina. Para Regina, a personagem marcou um divisor de águas: “Ela me tornou uma nova mulher. Abriu a minha cabeça dizendo ‘é possível, sim, ter vontade, ter opinião, lutar por isso tudo.'”

A artista, contudo, não se assume como feminista. “Não gosto dessas ‘tachações’, porque tem hora que eu sou machista para caramba. Tem hora que eu acho que é a hora do homem botar o pé na porta. E eu agradeço, porque não quero fazer isso. Eu quero entregar essa função para ele, sabe? Acho que a gente tem que dividir.”

Por falar em parceria, Regina e Gabriela formaram uma das duplas mais requisitadas da dramaturgia nacional. A obra que melhor sintetiza o sucesso da dobradinha é a novela ‘Por Amor’, um clássico de Manoel Carlos exibido entre 1997 e 1998. Na trama, Regina interpretou uma das Helenas do autor, enquanto Gabriela deu vida à filha da protagonista.

Depois desse trabalho, as duas emendaram outras duas produções juntas — a minissérie ‘Chiquinha Gonzaga’ e a peça ‘Honra’, ambas de 1999. Mas, após esses projetos, Gabriela decidiu desvincular-se da parceria. “O que eu busquei foi entender a minha própria identidade”, confessou.

Essa busca, porém, foi tortuosa e, por vezes, acidentada. “Eu ouvi muitas vezes assim ‘a sua carreira vai acabar.'” A atriz, no entanto, bancou a decisão e seguiu o seu próprio caminho.

Findada a jornada a solo, Gabriela volta agora a dividir os palcos com a mãe em ‘A Filha da…’, uma comédia ‘nonsense’ dirigida por Darson Ribeiro. Além das duas, o elenco conta com Vinícius Tardelli e Clau Carvalho.

A trama, ambientada nos anos 90, apresenta Gabriela no papel de uma mulher obcecada pela princesa Diana. Ao chegar a casa, a personagem vê a fotografia do agora Rei Carlos III estampada num jornal e atira na imagem, como se vingasse as traições do monarca. O que acontece é que, acidentalmente, acaba por matar o marido. A partir daí, tenta esconder o crime com a ajuda da mãe, interpretada por Regina.

“A descoberta de como fazer uma peça tão fora do convencional é muito divertida”, explicou Gabriela, para quem explorar este novo território tem sido desafiador. “Mas ainda bem que os desafios existem, porque a gente gosta.”

Regina faz coro e acrescenta que o espetáculo carrega uma estranheza interessante. “Ele sai daquele patamar que as pessoas esperam da gente. Aquela coisa de ‘Por Amor’, da mãe e filha, que sempre fizeram papéis de muita cumplicidade. Aqui, não. Aqui é outra história”, afirmou a artista. “Elas estão num jogo totalmente fora da curva.”

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