A canção Cavalo à solta, composta e interpretada por Fernando Tordo com letra de José Carlos Ary dos Santos, foi lançada em 1971 e tornou-se um dos temas mais emblemáticos da música portuguesa.
A imagem do cavalo à solta funciona como metáfora de liberdade e de energia contida, refletindo o desejo de mudança vivido por muitos portugueses ainda durante o regime do Estado Novo. A força poética e simbólica da canção levou-a a tornar-se um clássico da música popular portuguesa.
No canal Conta-lá, Fernando Tordo esteve à conversa com Margarida Pinto Correia e recordou o processo criativo deste êxito intemporal. O músico recuou até ao ano de 1968 e relatou o momento em que a melodia surgiu na sua cabeça, após um almoço no conhecido café Vavá, em Lisboa.
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O artista explicou como tudo começou: “Eu fui almoçar ao Vavá, estamos em 1968. Saí do Vavá. Eu almoçava normalmente a horas, cinco e meia, seis horas eu já estava almoçado. Houve qualquer coisa que começou que era giro, que era a repetição da frase. Passa-me aqui para cá, eu paro na Avenida de Roma, assim, bem, pré-história, quais gravadores, qual não sei o quê, zero. Se eu daqui até casa se calhar vou-me esquecer disto, que ainda ia lá para cima, para a rua João Saraiva”.
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Para não perder a ideia, Fernando Tordo lembrou-se de um amigo que morava perto e que tinha equipamento de gravação: “Digo assim, e penso, epá, mas espera aí, eu tenho aqui um amigo, tem um gravador fantástico, quem era? O João Maria Tudela. Que morava no prédio, estava assim, ali. Tinha um Nagra, o gravador. Deixa-me aí gravar uma coisa. O gajo lá guardou o cão, que parecia um burro, e eu entrei. Este bocado era o que eu queria, assim, e já está”.
Com a harmonia gravada, o músico decidiu contactar Ary dos Santos, com quem ainda não tinha uma grande proximidade. Acompanhado por João Maria Tudela, Fernando Tordo dirigiu-se à casa do poeta na rua do Alecrim. O ambiente de criação fluiu de forma natural: “Tivemos aí, entre os gin tónicos, cigarros, uma história do João Maria, não sei o quê, tivemos ali umas duas horas, duas horas e tal. Tempo bem diferente”.
Foi nesse cenário que Ary dos Santos escreveu os versos emblemáticos e a letra começou a ganhar vida de forma rápida: “Minha laranja amarga e doce. Meu poema feito de gomos de saudade. Minha pena pesada”. Tordo confessou que teve logo a noção de que estavam a criar algo inédito: “A noção que eu tive é que em Portugal aquilo não existia”.
Apesar de terem a música e a letra prontas, os dois autores não sabiam como batizar a obra. O músico recordou a intervenção de João Maria Tudela, que assistia a todo o processo intelectual: “Dizia assim o João Maria: Ah, desculpem, posso dizer uma coisa. Eu acho estranho como é que estes dois amigos que estão aqui, que acabam de fazer uma cantiga que se calhar vai ficar para sempre, não saibam que esta cantiga se chama Cavalo à solta”. Tordo admitiu o esquecimento com humor: “Eu usei duas bestas, duas bestas. São novinhos, ainda por cima. Está escrito no próprio texto que se chama Cavalo à solta”.
A ligação de João Maria Tudela à canção revelou-se tão forte que o cantor fez um pedido comovente para o seu próprio funeral. Fernando Tordo relatou esse momento marcante: “O João Maria tinha avisado a mulher dele que quando fosse para o crematório, queria que o seu amigo Fernando Tordo fosse cantar o Cavalo à solta. A minha figura, o padre daquele lado, eu aqui, e com os amigos todos à volta, o caixão por entrar para o crematório… O senhor Fernando Tordo vai cantar o Cavalo à solta. E eu fiquei. Mas é extraordinário, que é um sinal de superior sensibilidade imaginar isto após a morte. Ele considerava o Cavalo à solta uma coisa dele e eu acho que tem toda a razão. Sinceramente, foi uma coisa fantástica, coisas que não se esquecem”.