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A “Uber da Droga” em Lisboa desvendada: Marta Gil é uma das «apanhadas»

Rede de tráfico de estupefacientes que operava na Grande Lisboa levou três arguidos à condenação, incluindo o seu líder.

A rede de tráfico de estupefacientes, carinhosamente apelidada pela PSP de “Uber da Droga”, que espalhava os seus tentáculos pela Grande Lisboa e contava com uma clientela onde não faltavam figuras públicas, viu agora o seu desfecho em tribunal.

Três arguidos foram condenados, incluindo o mentor de todo o esquema, Nuno Ricardo Nogueira dos Santos, conforme revelou o ‘Observador’. Este caso pôs a descoberto uma operação que, segundo a justiça, vendia regularmente LSD, MDMA, cocaína e cetamina a um grupo diversificado de clientes, que incluía profissionais da representação, do desporto, da televisão e até da aviação.

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A sentença, lida a 28 de maio no Campus de Justiça, em Lisboa, confirmou que Nuno Ricardo liderava uma atividade de venda de droga que esteve ativa, pelo menos, entre o verão de 2023 e 28 de novembro desse mesmo ano. Foi precisamente nessa noite que o principal arguido foi apanhado pela PSP à porta de casa. Lá dentro, os agentes encontraram centenas de comprimidos de MDMA, selos de LSD, cocaína, cetamina, 2C-B, balanças de precisão e uma panóplia de materiais usados para acondicionar os produtos estupefacientes.

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O processo ganhou um relevo particular devido à lista de clientes identificados. Entre os nomes que surgiram nas escutas e que constam na sentença, destacam-se o ator José Carlos Pereira, a atriz Marta Gil e o judoca olímpico Jorge Fonseca. A estes juntavam-se ex-concorrentes de reality shows, assistentes de bordo, empresários, médicos e engenheiros informáticos. Algumas testemunhas, perante a PSP, admitiram que expressões como “bitolas”, “o normal”,2g’s” ou “coiso” eram um código para a compra de droga.

A investigação da PSP desenrolou-se ao longo de cerca de um ano e incluiu vigilâncias discretas, escutas telefónicas e buscas domiciliárias. Na residência de Nuno Ricardo, os agentes encontraram estupefacientes distribuídos por várias divisões. No escritório, estavam 334 comprimidos de MDMA, várias embalagens da mesma substância, comprimidos de 2C-B, cocaína, cetamina e quase sessenta selos de LSD. Na sala, foram descobertos mais de 250 gramas de cocaína, e no quarto, havia ainda embalagens com MDMA e cetamina, pesando mais de 247 gramas.

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Na mesma noite, Leonel Nhaga, apontado como parceiro de Nuno Ricardo, foi detido no Marquês de Pombal, em Lisboa. A PSP encontrou-lhe treze embalagens de cocaína, saquetas de cetamina e MDMA, comprimidos de MDMA e mais de cinco gramas de cetamina. Mais tarde, no quarto que tinha alugado, foram apreendidas novas embalagens de cocaína, 320 pastilhas de 2C-B, 45 pastilhas de MDMA e 4.550 euros em dinheiro. O tribunal considerou que Leonel Nhaga entrou na operação no verão de 2023, quando Nuno Ricardo deixou de conseguir dar resposta sozinho a todos os pedidos. A rede funcionava como um serviço de entrega regular, com contactos diretos entre clientes e vendedores, combinados por telefone, mensagens e encontros presenciais.

O ‘Observador’ revelou que uma das chamadas intercetadas pela PSP envolveu José Carlos Pereira. A 16 de setembro de 2023, o ator ligou a Nuno Ricardo enquanto seguia na A5, a caminho de Lisboa, para combinar um encontro. Pouco depois, voltou a telefonar para perceber onde o alegado líder da rede se encontrava. O ator não respondeu aos pedidos de esclarecimento do jornal e acabou dispensado de depor em tribunal.

Marta Gil também surge nas escutas. A atriz, que foi ex-concorrente de reality shows, foi intercetada em pelo menos onze chamadas ao longo de três meses. Negou à PSP e em tribunal ter comprado droga a Nuno Ricardo e garantiu que não sabia que o “amigo” traficava drogas psicadélicas. Quando questionada sobre a expressão “aquele clássico”, que usou numa conversa telefónica, explicou que era uma forma de se referir a momentos em que precisava de desabafar.

O judoca Jorge Fonseca, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio, também foi mencionado no processo. Numa chamada feita a Leonel Nhaga, pediu “pastilhas”, uma expressão que levou o seu interlocutor a alertá-lo para não usar aquele tipo de linguagem ao telefone. O advogado do atleta explicou ao ‘Observador’ que, numa noite em que estava alcoolizado e na companhia de amigos, Jorge Fonseca ligou a Leonel para pedir quatro pastilhas de ecstasy, mas acabou por decidir não consumir qualquer substância.

A mãe e a companheira de Nuno Ricardo também foram constituídas arguidas. O Ministério Público defendia que a companheira do principal arguido ajudava na gestão financeira da organização e na preparação das doses, mas o tribunal considerou não haver prova suficiente para a condenar. A situação da mãe, Lucinda Santos, foi diferente.

O tribunal deu como provado que era responsável por uma das “casas de apoio”, onde eram guardadas embalagens para acondicionar cocaína, 2C-B, LSD, MDMA e cetamina. Nas buscas à sua casa, a PSP encontrou frascos, sacos herméticos e tubos usados para guardar droga. A sentença considerou ainda que Lucinda Santos teve uma participação ativa no circuito de distribuição. Em algumas chamadas intercetadas, mãe e filho usavam expressões codificadas, como “ténis” ou “caixas”. Numa das situações descritas no processo, Nuno Ricardo, estando no Algarve, pediu à mãe que recolhesse produto em Lisboa. A mulher terá depois enviado um emoji ao filho como sinal de que a transação estava concluída.

Na sentença, os juízes descrevem a evolução de Nuno Ricardo de consumidor para vendedor. O tribunal considerou que o arguido começou por adquirir droga para consumo próprio, passou depois a ceder a terceiros e acabou por vender. Esse percurso terá sido motivado não apenas por dinheiro, mas também pelo desejo de pertença e reconhecimento social que obtinha junto de amigos e figuras mediáticas.

O percurso pessoal de Nuno Ricardo também foi referido no processo. Filho de um toxicodependente, viveu episódios de violência doméstica durante a juventude e, aos 17 anos, matou o pai durante um desses episódios, tendo cumprido um ano de cadeia por homicídio. Mais tarde, tentou reorganizar a vida, trabalhou em várias áreas, emigrou, voltou a Portugal e aproximou-se do desporto. Depois da pandemia, deixou de trabalhar de forma regular, passou a viver de rendimentos e, em 2022, ao mudar de ginásio, integrou um novo grupo de amigos. Foi nesse contexto que regressou ao consumo de drogas psicadélicas e, progressivamente, passou à venda.

O tribunal condenou Nuno Ricardo a cinco anos e meio de prisão efetiva. O principal arguido está em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Lisboa desde 28 de novembro de 2023, dia em que foi detido. Leonel Nhaga foi condenado a quatro anos e meio de prisão, com pena suspensa por cinco anos. Lucinda Santos, mãe de Nuno Ricardo, foi condenada a quatro anos e três meses de prisão, também com pena suspensa por cinco anos.

A companheira de Nuno Ricardo foi absolvida. Apesar da convicção do Ministério Público de que teria participado na organização do produto e na gestão financeira do negócio, o coletivo de juízes considerou que não existia prova suficiente para a condenar.

No acórdão, o tribunal sublinhou a existência de “prova segura, coerente e convergente” sobre uma atividade reiterada de venda de estupefacientes, com meios organizados, divisão de tarefas, posse de quantidades incompatíveis com consumo próprio e intenção lucrativa. O caso deixa exposta uma rede que, durante mais de um ano, funcionou entre contactos codificados, entregas discretas e uma lista de clientes onde o estatuto social e mediático ajudou a transformar um traficante num fornecedor de referência.

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