Ângelo Rodrigues relata viagens, voluntariado e o lado mais duro de “Iron Train” na Mauritânia
Na conversa com Rita Ferro Rodrigues, o ator falou de documentários, de trabalho no terreno e das experiências marcantes no Nepal e no Camboja.
Na conversa com Rita Ferro Rodrigues, Ângelo Rodrigues começou por enquadrar a sua relação com as viagens de forma muito clara: “as viagens tornaram-se uma prioridade para o Ângelo Rodrigues”.
E foi precisamente por aí que a entrevista avançou, com foco num percurso que mistura documentário, voluntariado, trabalho de campo e experiências profundamente pessoais.
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O primeiro grande tema foi “Iron Train”, o documentário que realizou na Mauritânia. Rita Ferro Rodrigues abriu a conversa dizendo: “Mas antes, vejam algumas imagens de uma das viagens que ele considera mais extraordinárias que fez, do Iron Train, um documentário que ele depois até realizou na Mauritânia e que já apresentou este ano.” A partir daí, Ângelo explicou que tinha ido “atrás de uma história que… uma outra história que não tem nada a ver com esta, com o comboio. Atrás de uma comunidade de cegos que existia no deserto da Mauritânia.”
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Foi nesse contexto que acabou por encontrar uma outra realidade: “existe uma experiência que os viajantes mais extremos, chamemos-lhe assim, que costumam fazer. E é esta viagem, neste apelidado Iron Train.” Descreveu o comboio como “um comboio que transporta um minério de ferro ao longo de 250 vagões. São mais de 2km de comboio.” E explicou ainda que “todos os dias vai de uma cidade do interior da Mauritânia. A Mauritânia é um país em que 90% é deserto. Portanto, vai dessa cidade do interior até no Adibu, que é uma cidade costeira.”
A utilidade prática desse comboio foi um dos aspetos mais surpreendentes da conversa. Ângelo contou que “os mauritanos fazem? Eles entram a bordo, clandestinamente, desse comboio para poderem comprar peixe nas zonas costeiras. E fazerem a viagem de volta para venderem nas suas respectivas casas.” Quando Rita reagiu com “Que dureza!”, ele confirmou: “E eu quis perceber um pouco mais dessa realidade.”
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A ligação pessoal à história apareceu de forma natural. “Porque a verdade é que eu venho de uma família ligada ao peixe. A minha avó era conhecida como a Tia Maria de Espinho. De canastra à cabeça.” E completou: “Achei interessante que anos mais tarde encontrei dois jovens. O Abu e o Amedu, com 20 e 21 anos. Que tinham a mesma urgência de viver.” Por isso, decidiu acompanhá-los: “Então achei interessante, porque não? Ir conversar com eles a bordo do comboio enquanto eles estão a fazer o trabalho deles.”
A parte mais intensa da entrevista foi a descrição das dificuldades no terreno. Rita perguntou-lhe como tinha chegado a essa história e como encontrou as personagens, e Ângelo explicou que já sabia que queria contar a história, mas “não sabia quem seriam as minhas personagens.” Como o país “quase não recebe turismo”, teve de recorrer a ajuda local: “Foi através de um fixer, ou seja, um produtor de locais que tinha dupla função. Ia ser o nosso tour guide. Levávamos-nos aos lugares que nós queríamos. E, no fundo, virou o nosso assistente de produção deste documentário.”
Mesmo assim, o processo esteve longe de ser simples. “Esta viagem aqui esteve praticamente para não acontecer porque nós chegámos lá no dia certo, na hora certa, o comboio partia antes do pôr do sol e nós não conseguimos fechar com ninguém.” Só no dia seguinte apareceram os dois jovens que aceitariam participar: “No dia seguinte encontramos estes dois jovens que se disponibilizaram a fazer a viagem tranquilamente.”
Quando Rita lhe perguntou porque era tão difícil encontrar pessoas, ele respondeu sem rodeios: “Porque elas não queriam presidir de um dia de trabalho.” E acrescentou: “O que nós lhes íamos pagar, que era uma coisa simbólica, não nos cobriria o dia de peixe que não iam vender.” Houve ainda uma observação muito reveladora sobre a experiência no país: “nunca tivemos um país onde todas as pessoas a quem nós apontávamos uma câmara ou onde quiséssemos filmar, éramos barrados automaticamente.”
Até as crianças reagiam de forma inesperada. “Primeiro país que eu viajei, onde as crianças afastavam-se da câmara. Fugiam, corriam.” Ângelo disse que procurou explicação para isso e concluiu: “Acredito que tenha que ver com a religião. Com a religião, porque eles são a República Islâmica da Mauritânia, vivem o islamismo de uma forma muito extrema e acredito que tudo o que seja câmaras, coisas que eles não controlem, em que são pessoas brancas que as têm, podem confundir com…”
A conversa tornou-se ainda mais séria quando descreveu o controlo policial. “Muitas destas imagens são registadas clandestinamente porque de outra forma não conseguiria contar esta história.” E explicou: “Imagina, eu fiz entrevistas aos meus protagonistas, ao Abu e ao Amedu, num lugar que estava proibido de ser filmado.” A polícia acabou por intervir: “Passados 7 minutos ele já estava lá.” Depois de ver o material, exigiu: “Erase it. All.” Ângelo confessou: “Eu em pânico, no último dia que tinha feito a entrevista que daria para a espinha dorsal para contar o documentário, íamos ficar sem nada.”
A forma como a equipa resolveu a situação foi quase cinematográfica. O diretor de fotografia “apenas desligou um cabo e dizia lá No input.” E eles responderam: “já está, já está, já apagámos.” Ângelo resumiu a sensação do lugar com uma frase muito forte: “Sentimos que estávamos num país… Muito fechado. Fechado quase como se não quisessem que nós estivéssemos lá.”
Rita trouxe depois uma reflexão interessante sobre o turismo e a preservação cultural: “por um lado o mundo era bom que todos nós pudéssemos viajar para todo o lado e que pudéssemos fazer tudo e sermos só um povo, por outro lado também se calhar há sítios que querem preservar a sua cultura, a sua forma de estar.” Ângelo respondeu reconhecendo essa tensão: “Sim. Entendo, sim, que pode soar a aproveitamento ou o exotismo da coisa, não é? Mas também criar muralhas à volta do país.”
Quando Rita sugeriu que o documentário talvez atraísse mais gente para o país, ele contrapôs: “eu acredito que, por exemplo, com este documentário mais pessoas vão querer ir ao país do que não vão.” Mas depois deixou a nuance: “Para este tipo de turismo específico, não.”
A conversa avançou para outra dimensão importante da vida de Ângelo. Rita resumiu isso de forma direta: “Tu basicamente trabalhas para viajar, não é?” E ele confirmou: “Foi uma opção devida. Sim.” Acrescentou ainda: “o que inicialmente era uma tentativa de conhecer outras culturas eu comecei a profissionalizar esse desejo.”
Explicou então a lógica do voluntariado: “algumas viagens eu faço com o propósito de fazer voluntariado que também acaba por ser uma desculpa para eu me deslocar por um tempo longo para um lugar para conhecer de facto por dentro a cultura desse país.” E listou os países que marcaram esse percurso: “Nepal, Camboja, Moçambique e Brasil.”
No caso do Camboja, Ângelo falou do “Elephant Valley Project”, que integra uma ONG no norte do país. Descreveu o trabalho como uma tentativa de libertar elefantes de contextos de exploração: “esta ONG especificamente dedica-se a retirar elefantes de ambientes tóxicos.” E explicou o mecanismo: “contratamos este elefante por dois anos para ele viver em liberdade e em troca eles dão-lhe alimentos perecíveis. Ou seja, 50 quilos, 100 quilos de arroz por mês.”
Também esclareceu o papel dos cuidadores: “Eu fui ajudante de Mahout.” E detalhou a rotina: “o meu trabalho era ajudá-los com todos os supplies, portanto, todos os mantimentos que eles precisavam. Comiam cerca de 180 quilos por dia.” E mais à frente: “uma vez por semana fazia as medições, vários parâmetros que era para perceber se elas estavam a ter alguma infecção, se estavam a viver com qualidade.”
A forma como falou das elefantas mostrou grande respeito pelo projeto: “Eu queria mesmo ir para um santuário como deve ser. Não há cá tomar banho com os animais, não há cá pô-los em estresse, não é? Deixá-los viver confortavelmente no último terço da vida deles, livremente.” E resumiu o impacto com humor e admiração: “A casa do artista das elefantes do Camboja.”
O momento emocional mais forte da entrevista veio com o Nepal. Ângelo contou que foi para lá depois de o Alaska e antes do Camboja, “para começar a minha nova função como professor de inglês, que era a única forma deste mosteiro budista de aceitar voluntários.” Mas o verdadeiro objetivo era outro: “Eu tinha um grande sonho. Namorava com esta ideia há imenso tempo. Gostava de ver monjas a ter contacto com o teatro.”
Como o mosteiro não aceitaria um professor de teatro, ele entrou “camuflado como professor de inglês.” Depois de ganhar confiança, lançou a proposta: “surgiu a ideia de fazer convosco um espetáculo de teatro criado de raiz. Escrito por nós.” E foi assim que nasceu o processo que viria a dar origem ao documentário “A Heresia da Separatividade”.
Ângelo explicou que teve “três turmas. Era uma turma de miúdos de 12 aos 14 anos e duas turmas de miúdos mais velhos, dos 15 aos 18.” Com eles, trabalhou “as visões dele de amor, união, religião.” No fim, o mais marcante foi o despedimento: “tenho muitas cartas que eles no último dia me escreveram.” E confessou: “Fui ao meu quarto ler as cartas e comecei a chorar.” A imagem final ficou-lhe gravada: “estava a ir embora e ver aquelas túnicas todas cor de vinho e os meus alunos todos a dizer assim adeus ao longe.”
No fim, Rita Ferro Rodrigues deixou uma síntese que resume bem o tom da conversa: “eu acho que tu és feliz mesmo a viajar pelo mundo.” A entrevista termina com a sensação de que, no caso de Ângelo Rodrigues, viajar não é apenas deslocar-se. É viver de forma intensa, entrar em mundos fechados, correr riscos e transformar essas experiências em histórias que ficam.