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Catarina Furtado reage à polémica de Cristina Ferreira e avisa: “O crime não deve ser normalizado através de uma retórica descuidada”

Vários dias depois do polémico debate matinal na TVI, a fundadora da Corações Com Coroa decidiu pronunciar-se.

O debate em torno do consentimento e das recentes declarações proferidas por Cristina Ferreira na televisão continua a gerar ondas de choque mediáticas.

Depois de uma semana marcada por intensas discussões na esfera pública, foi a vez de Catarina Furtado assumir uma posição firme e contundente sobre o assunto. Através das suas redes sociais, este domingo, dia 19 de abril, a apresentadora da RTP partilhou um longo texto onde não poupou críticas à forma irresponsável como alguns temas são tratados nos ecrãs portugueses.

Numa reflexão que demorou alguns dias a amadurecer, a comunicadora justificou o seu compasso de espera: “Partilho hoje a minha opinião, dias depois da polémica, por sentir que não devia reagir a quente a algo que me provoca reações muito [fortes]. Faço-o, criticando fortemente todo o tipo de insultos gratuitos que se soltam em momentos destes, possibilitados pelo alcance das redes sociais e por uma necessidade estranha e cobarde de quem se quer vingar do mundo”.

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A embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População e fundadora da associação Corações Com Coroa sublinhou a exigência inerente ao seu trabalho na televisão, deixando uma “farpa” implícita à falta de embasamento de Cristina Ferreira no debate sobre abuso sexual. “Comentar assuntos seríssimos de cidadania e direitos humanos exige preparação, leitura de informação fidedigna e verificação de estudos. Há mais de 25 anos que me debruço sobre estas matérias”, recordou, lembrando que o papel de um comunicador acarreta uma enorme responsabilidade que vai muito além da simples apresentação de conteúdos.

Catarina Furtado apontou diretamente o dedo à banalização destes episódios, avisando que “é por isso ainda mais perigoso que, quando se assiste a um episódio desta natureza, grave, ainda exista quem discuta a forma, o contexto, a interpretação, em vez de se defender com clareza que toda uma sociedade está a sair prejudicada”. Para a estrela da RTP, “defender a vítima significa garantir que o crime não deve ser nunca normalizado através de uma retórica descuidada ou de falsas [equivalências]”.

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No mesmo texto, a apresentadora estendeu as críticas à cultura promovida por determinados formatos de entretenimento e à ascensão de movimentos conservadores nas redes sociais. “É preciso ter consciência, empatia e curiosidade, quando se fala sobre a vida dos outros, não deixar que o discurso dos reality shows (que já contribuem também e tanto, infelizmente, para a normalização de comportamentos tóxicos e de manipulação) contamine tudo”, alertou, vincando que a cultura patriarcal digital está a criar novas gerações com “ideias distorcidas sobre intimidade, consentimento, prazer mútuo e igualdade”.

Mãe de João Maria e de Maria Beatriz (ambos já maiores de idade e fruto do seu extinto casamento com João Reis), a estrela da estação pública não escondeu o terror que sente em relação ao futuro da jovem num mundo onde a cultura de abuso ainda encontra defensores. “Ponho as minhas mãos no fogo de como o meu filho nunca será um agressor porque eu, o pai e o resto da família sempre o educámos como feminista (…). Mas em relação à minha filha, tenho muito medo de que alguma vez, e não por ‘descuido’ dela, possa vir a ser uma vítima. Tremo só de pensar nisso e também por ela decidi escrever este longo texto”, assumiu, aproveitando para lembrar que a violação é, desde o início do ano passado, um crime público em Portugal, embora as penas continuem a ser brandas.

A fechar a sua declaração, Catarina Furtado fez questão de adicionar um pós-escrito para tentar travar a guerra mediática que se avizinha. “Gostava muito que esta minha reflexão, que vem de um sentido de coerência também em relação à minha missão de vida, não fosse erradamente, de forma simplista, irresponsável e inconsequente, interpretada como um ataque pessoal a uma colega de profissão porque, honestamente, não é mesmo. Quero apenas contribuir construtivamente para uma mudança de mentalidades, também no meu meio profissional”, rematou a comunicadora.

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