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De bullying aos 6 anos ao “renascimento” no ‘Big Brother’: a árdua “Curva da Vida” de João Ventura

Aos 16 anos, o concorrente largou a escola após uma fase "muito depressiva", sendo o teatro a única razão que o fazia levantar da cama.

João Ventura abriu o coração na gala do ‘Big Brother Verão’ de domingo, 19 de julho de 2026, com uma ‘Curva da Vida’ marcada por perdas profundas e uma resiliência notável.

O concorrente partilhou um percurso de vida onde a solidão e a busca pela aceitação foram constantes desde a infância.

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Nascido a 19 de abril de 1984, João é o terceiro de cinco irmãos. A família vivia num apartamento pequeno, um T2, onde a confusão era diária, com “uns entravam a sair”. O pai trabalhava no mar, o que significava longas ausências, deixando a mãe como a figura central da casa.

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Aos seis anos, a mudança para Guimarães trouxe um novo desafio. João não se adaptou à nova escola nem aos novos amigos, sentindo-se sempre “um bocado posto de lado”. Foi nessa fase que o bullying começou a ganhar forma.

O concorrente do reality show recorda as acusações constantes de ter “gestos femininos” e de ser “maricas”. “Já estavam a dizer que eu era gay sem eu saber o que era ser gay”, desabafou. A ausência de adultos que o pudessem proteger agravou a situação.

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Um dos episódios mais chocantes que partilhou aconteceu na escola. Uma colega chamava-lhe “maricas” por “só brincar com as meninas”. Uma professora ouviu e quis levá-lo à sala da rapariga para que ele mostrasse o seu órgão sexual, numa tentativa de provar que era um rapaz. O concorrente confessou: “Nunca senti que tivesse grandes escolhas. Tive que sempre habituar-me a lidar com as coisas sozinho.”

Em casa, o silêncio era a regra. João não queria “causar problemas” aos pais, nem “ser o peso de ser diferente”. Mais tarde, percebeu que essa contenção lhe trouxe “outros pesos” na construção da sua identidade.

Apesar das dificuldades, a escola também foi palco para os seus talentos. “No momento em que era preciso apresentar uma festa da escola, os meus talentos vinham ao de cima e então era a minha maneira de dizer, eu existo e posso existir.”

Aos 15 anos, o teatro semiprofissional surgiu como um refúgio. Ali, pela primeira vez, encontrou um grupo de pessoas que “não me julgava por eu ser quem era”.

No ano seguinte, aos 16, uma nova mudança de escola. João não se adaptou e, durante uma aula de filosofia, tomou uma decisão drástica: “nunca mais ia pôr os pés naquela escola”. Viveu uma fase “muito depressiva”, sem vontade de fazer nada, nem de estar em casa ou com amigos. A única coisa que o fazia levantar da cama era a necessidade de decorar “um texto de teatro para decorar ou porque tinha um ensaio”.

Aos 18 anos, a revelação. Percebeu que “não tinha mal nenhum eu ser gay”. Confessou: “Finalmente tiveste alguma maturidade para perceber que não podia continuar a mentir-me a mim mesmo.”

A mãe, ao saber, reagiu com a ideia de que “se calhar é só uma fase”.

Os oito anos seguintes foram de grandes mudanças. João estreou-se no teatro profissional e apaixonou-se pela primeira vez por um rapaz. A família desfez-se: os pais separaram-se, e a mãe mudou-se para Lisboa.

“Foi duro porque eles chatearam-se e depois nós acabámos por ficar um bocadinho, os irmãos, um bocadinho sozinhos e com o peso dos mais velhos terem que tomar conta dos mais novos”, lembrou. Essa responsabilidade precoce condicionou a adolescência e os padrões de relacionamento dos irmãos. “Eu, com os meus irmãos mais novos, que eles são meus irmãos, mas era como se fossem meus filhos também.”

Em 2009, os pais reataram a relação, um “momento bonito de família”. João sentiu que, finalmente, podia “descansar, ir para a universidade, fazer a minha vida. Já me podia focar em mim.”

Regressou a Lisboa, cidade que considera “de liberdade”. Entrou na escola de teatro, onde “voltei-me a pôr à prova, ganhei confiança”.

Em 2012, a mãe começou a ter ataques de pânico e dificuldades em dormir. O diagnóstico foi devastador: cancro em nível 4, já “super avançado”, sem tratamento possível, apenas cuidados paliativos.

A mãe morreu em outubro de 2014. “Já devia estar à espera. Mas na verdade, no dia que soube que ela tinha morrido, era como se não houvesse preparação nenhuma. Porque ninguém te prepara para a morte da tua mãe.”

João entrou num estado “depressivo. Catatónico.” Não sabia onde estava, quem era, e a preocupação com os irmãos mais novos era constante. Decidiu “cancelar toda a [sua] vida em Lisboa” e regressou a Guimarães, num movimento que descreveu como “estratégico de sobrevivência”.

Com o apoio do pai, mudou-se para Madrid para continuar os estudos. “Tenho muito, muito carinho por aquela cidade porque me deu muita energia quando eu mais precisava. Voltei a reencontrar-me.” Começava a recuperar da perda da mãe e a ter “projetos em espanhol” na capital espanhola.

Em julho de 2016, enquanto estava em Portugal para uma audição, recebeu uma chamada de um dos irmãos: Francisco, outro dos seus irmãos, tinha morrido aos 27 anos. “Se eu, a minha mãe, consigo arranjar alguma lógica. Ter perdido o meu irmão foi quase — foi quase amputar uma parte de mim.”

Francisco, recorda, era fã de ‘reality shows’. “Por um lado fico triste ele não estar aqui, ele não poder estar a ver em casa. Por outro lado, acho que aqui há alguma justiça divina de eu agora estar aqui. E também uma parte de mim acha que também é por ele.”

João regressou a Portugal, sentindo-se “sem estrutura, sem energia e sem forças”. Admite que “estas coisas todas me destruíram um bocado a minha autoestima”. A terapia foi crucial para “reconstruir-me finalmente”.

Apesar das “muitas coisas escuras”, João Ventura acredita que “tu também tens direito a viver coisas com luz e bonitas”. Sente-se num “momento de mudança” e garante que a sua vida “mudou” desde que “entrei pela porta daquela casa”. A palavra que escolhe para resumir a experiência é “renascimento”.

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