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“Deixa-me triste”: João Catarré lamenta perda de costumes em Lisboa mas defende orgulho nacional

"A identidade do país faz-se pelas pessoas": João Catarré reflete sobre o impacto do turismo em Lisboa

O ator integra o elenco da nova comédia de Ruben Alves e partilha as memórias de infância face à descaracterização provocada pela globalização.

João Catarré regressou às salas de cinema a 10 de setembro com a estreia de «Santo António – O Casamenteiro de Lisboa», a nova longa-metragem assinada pelo realizador Ruben Alves. Ao lado de nomes como Rita Blanco e Joaquim Monchique, o ator assume um papel singular: dá corpo a António, um recluso que obtém uma autorização temporária de saída da prisão para contrair matrimónio com Fátima, personagem interpretada por Jacqueline Corado, no âmbito dos tradicionais Casamentos de Santo António.

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Em entrevista ao ‘Notícias ao Minuto’, o ator não escondeu o entusiasmo que sentiu logo nos primeiros contactos com o argumento, resumindo a mensagem central com clareza: “O amor está acima de qualquer coisa“. A premissa do enredo captou a sua atenção desde as primeiras reuniões de trabalho. “Quando o Ruben começou a descrever o que era o filme e esta abordagem da globalização, de vir comprar tradições lisboetas e portuguesas, já despertou alguma curiosidade“, explicou, destacando a construção do seu papel: “Quando ele começou a mostrar a personagem… aí foi mesmo o topo. Fiquei com muita vontade de fazer esta personagem, descobri-la, criá-la em conjunto com o Ruben, e fiquei cheio de vontade de contar esta história. Fui sempre surpreendido num crescendo de entusiasmo e de vontade em criar esta magia que este filme tem“.

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Para além dos episódios caricatos vividos pelo protagonista, a obra coloca em perspetiva a massificação turística e a alteração da dinâmica urbana na capital. Recordando as suas próprias vivências, o artista traçou um paralelismo com o presente: “Cresci na linha de Sintra e quando vinha a Lisboa era de comboio, e eram poucas vezes – quando era muito novo. Tenho uma memória da Baixa, da Avenida da Liberdade, Chiado, toda a Lisboa muito diferente da realidade que existe hoje. E sim, isto é tudo fruto da vinda do turismo, da globalização“.

A transformação dos hábitos locais mereceu uma reflexão lúcida sobre os custos do progresso contemporâneo. “Como cidadão, tenho pena que muitas das tradições que existiam em Lisboa se tenham perdido, algumas, mas faz tudo parte do avanço da vida, dos países, da globalização. É claro que muitas coisas ficam na memória – muitas delas porque já não existem hoje em dia. Por exemplo, a própria Ginjinha já é uma coisa muito rara aqui. Mesmo assim, continuamos a ter todos os anos as Marchas de Lisboa e os próprios casamentos de Santo António – continuamos a preservar isso“, sublinhou.

A mercantilização da cultura popular é outro ponto sensível destacado pelo ator, embora compreenda o fenómeno à escala internacional: “Este entrosamento de turistas com lisboetas e esta desconstrução em que tudo o que era típico agora tem outro tipo de embalagem para vender para o turista, de certa forma deixa-me triste. Mas como cidadão há alguma compreensão, porque quando vamos a outras cidades no estrangeiro percebemos que não é só em Lisboa que isso está a acontecer“.

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Apesar das mudanças visíveis nas artérias da cidade, João Catarré acredita na resiliência das gentes locais para manter viva a essência cultural. “A identidade do país faz-se pelas pessoas“, garantiu, reforçando a importância do sentimento de pertença: “E enquanto formos portugueses orgulhosos do nosso país e da nossa cidade, os lisboetas orgulhosos de serem lisboetas, por mais que existam transformações nos produtos, nas campanhas e nos eventos, não vai conseguir quebrar ou descaracterizar o português em si e Portugal como país – e Lisboa como cidade“.

A viver uma fase produtiva na carreira, que inclui a recente passagem pela película «Projeto Global» e participações nas novelas «A Promessa» e «Terra Forte», o ator reconheceu as exigências de equilibrar diferentes ritmos de trabalho. “É um desafio fazer a gestão entre personagens e histórias diferentes”, admitiu, detalhando o processo criativo: “Claro que é muito melhor quando estamos só dedicados a um projeto, há outro tipo de introspeção, de dedicação à personagem e à história. Mas uma coisa não invalida a outra. E às vezes até é desafiante porque estar a fazer televisão e um filme ao mesmo tempo não nos deixa estar descansados nem relaxar. Portanto, o sistema nervoso está sempre a atuar e a mente sempre a querer criar de formas diferentes, consequentemente o contexto e o projeto onde se está inserido“.

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