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João Cancelo recorda o acidente que vitimou a mãe: “Tentei levantar o carro e não consegui”

João Cancelo abre o coração a Daniel Oliveira: "Tive de me tornar o líder da minha família"

Em entrevista ao programa «Alta Definição», o internacional português lembrou a infância humilde e o trágico episódio que mudou a sua vida aos 18 anos.

O internacional português João Cancelo foi o grande convidado de Daniel Oliveira na mais recente emissão do programa «Alta Definição», na SIC e, numa partilha marcada pela crueza das memórias e pela ausência de filtros, o futebolista, de 32 anos, recordou as suas origens humildes no Barreiro, o percurso até ao Benfica e, de forma avassaladora, o trágico acidente de viação que, em 2013, lhe roubou a mãe e transformou a sua vida para sempre.

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Antes de o drama se abater sobre a família, a infância de João Cancelo foi pautada pelo trabalho árduo dos pais para garantir o sustento da casa. Com o pai emigrado na Suíça, a figura materna multiplicava-se para criar os filhos. “Sempre vivi com a minha mãe, que era empregada doméstica e tinha três trabalhos por dia. Começava a limpar um café das seis às oito, depois já às oito e meia entrava numa escola primária como auxiliar de cozinha e depois limpava um hotel quando saía da escola“, relatou o atleta.

Apesar das ausências forçadas pela necessidade, o jogador guarda esses anos com carinho: “A minha mãe e o meu pai não tinham grandes possibilidades, mas nunca me faltou comida na mesa, nunca me faltou roupa para vestir. Talvez faltasse um bocado do afeto da minha mãe, não é? Que muitas vezes era ausente. Não porque ela queria, mas por necessidade“.

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A entrada na formação do Benfica, por volta dos 12 anos, trouxe novos desafios logísticos. Sem transportes diretos para o Seixal, era a mãe quem assegurava as viagens, gerindo os custos com grande esforço financeiro. “A minha mãe tinha que conciliar os trabalhos para me levar ao Seixal. (…) E a minha mãe foi quem a maior parte das vezes me trazia, me levava, ficava à minha espera. Porque para voltar a gasolina não… E na altura eu recebia 100 euros do Benfica para a gasolina mensal“, recordou. Mais tarde, aos 16 anos, o primeiro contrato profissional permitiu-lhe aliviar a carga materna: “Já ganhava na altura 2500 euros limpos, ou seja, dava perfeitamente para nos sustentar. (…) Consegui tirar a minha mãe de um dos trabalhos. Infelizmente não quis sair de todos porque a minha mãe sempre foi uma pessoa independente“.

O momento de viragem absoluta aconteceu dois anos depois. No regresso de uma viagem ao aeroporto de Lisboa, onde a família se tinha despedido do pai, a tragédia bateu à porta. João Cancelo e o irmão, na altura com oito anos, vinham a dormir no veículo. “Eu só desperto quando o carro já está na vala. E a partir daí (…) só ouvi a minha mãe a gritar e não me lembro de mais nada. Lembro-me só depois do carro, quando o carro parou, lembro-me de estar acordado e o acidente todo acontecer. Lembro-me da minha mãe a gritar e depois houve um momento que quando o carro caiu, já não a ouvi mais“, recordou, visivelmente comovido.

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Preso no local do acidente com uma clavícula partida, o jovem tentou o impossível para salvar a progenitora. “A minha mãe ficou toda debaixo do carro. (…) Tentei levantar com a minha força máxima, mas levantar um carro completamente… Impossível. (…) Lembro-me de algumas coisas, lembro-me do último grito da minha mãe. Lembro do meu irmão a chorar, não é? Ainda uma criança, oito anos. Eu tentei levantar o carro para tirar a minha mãe debaixo do carro e não consegui. Não consegui“, desabafou.

A dor física foi rapidamente suplantada pela devastação psicológica de receber o diagnóstico de óbito no hospital e pela responsabilidade de transmitir a notícia ao irmão mais novo, Pedro. “Foi uma tia minha que me disse: ‘Olha, João, a tua mãe foi para o céu, já não a vamos ter mais connosco’. E aí eu voltei-me, porque dei um soco no vidro que tinha na sala onde eu estava e fiquei com a mão toda em carne viva. (…) Mas o mais difícil ainda foi dizer ao meu irmão, oito anos, que a minha mãe já não ia estar entre nós. (…) Eu disse-lhe: ‘Pedro, a mãe já não está entre nós, ela vai estar sempre connosco, mas fisicamente já não a vamos conseguir ver’“, confessou.

O luto mergulhou o pai do futebolista numa depressão severa, obrigando o jovem atleta a assumir a liderança do clã numa idade precoce. “O meu pai queria bater com a cabeça no chão, queria-se matar porque disse que a vida dele sem a minha mãe não fazia sentido. (…) Tive de crescer muito rápido. (…) Depois da minha mãe falecer, eu tive que me tornar o líder da minha família. Tive que ser o sustento da minha família“, explicou a Daniel Oliveira, sublinhando que contou com o apoio crucial da sua atual mulher e da mãe do jogador Fábio Cardoso nessa fase limite. “Não gosto de me fazer de coitadinho porque não é isso que eu quero transparecer, mas foi difícil, foi de facto muito difícil porque a minha mãe era o pilar da nossa família“, concluiu.

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