Miguel Vieira: “Três não era necessário”, mas o designer fez de Milão um escape vital contra o cancro
Aos 60 anos, o criador português, diagnosticado no verão, revelou a 'A REVISTA CARAs' que a paixão pela moda o ajuda a afastar pensamentos negativos.
Miguel Vieira voltou a Milão para apresentar a sua coleção de primavera/verão 2027, um palco onde o criador, de 60 anos, se sente em casa.
Mas, por trás do brilho das passerelles, o último ano trouxe-lhe um desafio de vida particularmente exigente. No verão, recebeu o diagnóstico de um cancro do pulmão, a terceira vez que a doença o atinge, depois de já a ter enfrentado na adolescência e novamente em 2001. Desde então, tem estado sob tratamento, com a última sessão de quimioterapia agendada para o dia de Natal.
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Aproveitando a sua passagem pela capital italiana, Miguel Vieira conversou com a Revista Caras sobre os meses que o antecederam e como o trabalho tem sido um motor para seguir em frente.
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Apresentar uma coleção em Milão é sempre um ponto alto, mas desta vez, com a doença, o significado foi outro. “Significou muito, sobretudo porque eu tinha um objetivo”, contou o designer. “Apresentar uma coleção em Milão, onde estão os grandes nomes internacionais, é sempre uma responsabilidade enorme. A pessoa fica preocupada, porque tem de fazer uma boa figura, muitas vezes sem os meios financeiros que essas grandes marcas têm. Por isso, para mim foi muito importante ter conseguido, sobretudo nesta fase, manter a cabeça mais liberta, mais focada naquilo que estava a fazer.”
Apesar do otimismo que o caracteriza, houve momentos de questionamento. “Pensava nisso todos os dias”, admitiu. “Sou uma pessoa muito otimista. Mas por vezes pergunto-me: ‘Porquê eu? O que é que eu fiz assim tão mal ao mundo para isto me acontecer pela terceira vez?’ Já me disseram muitas vezes que Deus dá este tipo de coisas a quem é forte e consegue resistir…”
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Sobre a ideia de que “Deus dá as batalhas mais difíceis aos seus melhores soldados”, Miguel Vieira atirou com um sorriso: “Eu sou cético em relação a isso. Acho que duas vezes já é suficiente, três não era necessário. Mas sim, vale a pena continuar. Sou muito otimista e, tendo um objetivo que quero cumprir, faz todo o sentido seguir em frente.”
O trabalho e a moda revelaram-se um refúgio e uma forma de manter a mente ocupada. “Eu sou uma pessoa que precisa de trabalhar. Quando não tenho trabalho, invento, porque sou um bocado workaholic por natureza”, explicou. Para ele, não é uma questão de profissionalismo, mas de paixão. “É uma coisa de que gosto. Por isso, para mim, é sempre uma alegria poder trabalhar e fazer coisas.”
Nesta fase tão exigente, o tempo de inatividade é inevitável, mas Miguel Vieira procura transformá-lo em algo produtivo. “Tenho muitos momentos em que estou parado, isolado, sozinho e com tempo para pensar. E pensar ajuda, no fundo, a criar mais”, disse. O foco está em afastar os pensamentos negativos. “Tento não levar os pensamentos para coisas negativas, mas para coisas positivas. Muitas vezes tenho de me agarrar ao trabalho nesse sentido. São momentos de reflexão, que ajudam a passar o tempo, muitas vezes sozinho. E daí vem a criatividade: inventar coisas novas. No dia seguinte há sempre mais coisas para acrescentar à coleção.”
Milão, tal como o Portugal Fashion antes, funcionou como um escape vital. “Milão foi, pura e simplesmente, o escape”, garantiu. Lembrou que no Portugal Fashion, no Porto, tinha acabado de receber o diagnóstico e apenas um círculo restrito de amigos sabia da sua condição. “Quando entrei naquela passerelle senti uma energia brutal.”
Depois do evento no Porto, surgiu a oportunidade de Milão. Inicialmente, a ideia era participar na Fashion Week masculina, mas a ‘Câmara Nacional da Moda Italiana’ concedeu-lhe autorização para integrar a Semana da Moda feminina. “Isso teve muito impacto na minha carreira porque tem uma dimensão internacional ainda maior”, frisou.
Apesar dos contratempos, conseguiu focar-se na tarefa. “Consegui desligar, consegui montar tudo e consegui apresentar toda a linha que pretendia”, afirmou sobre a sua estadia em Milão. Revelou que deixou tudo pronto à última hora, pois deveria ter sido submetido a uma cirurgia na véspera. “Acho que correu muito bem.”
A possibilidade de não conseguir cumprir o calendário pairou até ao último momento. “Houve todos os momentos, até quase à ida para Milão”, confessou. Os médicos queriam fazer uma intervenção no dia 26 de setembro de 2026, um dia antes da sua viagem, a 27 de setembro de 2026. Embora lhe tivessem dito que os riscos seriam poucos, devido à sua boa recuperação anterior, Miguel Vieira insistiu em adiar. “Não queria correr o risco de ter complicações estando fora do país. Apesar de estar a poucas horas de Lisboa, era outro país e, se acontecesse alguma coisa, não teria os meus médicos ao meu lado.” Felizmente, os médicos concordaram. “Ainda bem que eles pensaram da mesma forma e não fizeram a cirurgia. Por isso, até ao último momento, estive sempre com a hipótese de não ir. E teria ficado muito mal. Era uma coisa de que gosto muito, que consegui atingir, que foi muito importante para mim e que queria muito cumprir para fechar este ano.”
A relação com o tempo e as prioridades muda sempre, mas para Miguel Vieira, o passado com a doença já lhe ensinou lições. “Muda sempre. Mas eu já venho com um passado. Tive dois cancros”, lembrou. Admite que, após um período de reflexão e promessas de mudança de hábitos, rapidamente se esquece das suas limitações. “Tenho de ter sempre uma rédea muito curta, porque rapidamente me esqueço de que não estou a cem por cento. Se passados uns dias começo a sentir-me muito bem, já me sinto um super-homem e acho que já posso caminhar, correr, fazer tudo. Basta um ou dois dias sem dores e esqueço-me dos quatro meses que passei com dores. Por isso, preciso que as pessoas me chamem à atenção e não me deixem brincar com a situação toda.”
Esta terceira batalha, no entanto, teve um impacto mais profundo. “Infelizmente, já passei por isto outras vezes. Mas, desta vez, bateu-me muito forte”, revelou. Ao longo das suas experiências, foi aprendendo a valorizar mais as relações humanas. “Desde o momento em que tive o primeiro problema, fui aprendendo a ser mais carinhoso, a dar mais valor aos amigos, a estar mais próximo, a tentar ser uma pessoa melhor, a criar menos problemas e menos conflitos e a tentar ajudar o próximo. Ao longo da minha vida, fui tentando melhorar com estas coisas péssimas que me foram acontecendo e acho que me tornei uma pessoa melhor.”
Questionado sobre o que significa a palavra “futuro” para si, Miguel Vieira respondeu sem hesitação: “Saúde! Basicamente, ultrapassar tudo isto. Acredito que vou conseguir passar por isto. Acredito mesmo.” O designer expressou a sua confiança na equipa médica e no Instituto Português de Oncologia (IPO). “Estou nas mãos de muito bons médicos e num hospital que, para mim, é um verdadeiro milagre: o IPO. É um hospital inacreditável, com seres humanos inacreditáveis. Desde a senhora da limpeza até ao cirurgião. Acredito que vou ter muitos anos de vida, com muita alegria pela frente e muita coisa boa. Ainda me vou divertir muito.”