Morreu Joaquim Letria aos 82 anos: o jornalista pioneiro que criou ‘Directíssimo’ e fundou O Jornal
Com passagens pela BBC e pela Associated Press durante a Guerra do Vietname, dirigiu a RTP2 e lançou a revista Sábado em 1988.
Joaquim Letria morreu esta sexta-feira, 16 de outubro, aos 82 anos. A notícia do desaparecimento de uma das figuras mais marcantes da comunicação social portuguesa foi confirmada ao jornal Observador por fonte próxima da família.
O percurso de Joaquim José da Conceição Letria começou a desenhar-se cedo, moldado por uma contrariedade na infância. Nascido em Lisboa a 8 de novembro de 1943, contraiu poliomielite quando tinha apenas dez anos.
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A doença obrigou-o a encontrar uma forma diferente de segurar na caneta para não abdicar da escrita. Inspirado pela banda desenhada, pela vontade de contar episódios do quotidiano e pelos livros de Ernest Hemingway, estreou-se na imprensa com um conto sobre o circo publicado no Diário de Lisboa. Aos 18 anos, em 1961, conseguiu um trabalho de verão no apoio à direção desse diário. Bastaram três meses para ser enviado a cobrir um incêndio, fixando-se na redação até 1963.
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A militância política também surgiu cedo. Em 1960, com 16 anos, filiou-se no Partido Comunista Português, de onde saiu em outubro de 1968 na sequência da invasão soviética de Praga. Pelo meio, passou pelas páginas da revista Flama e pelos microfones do Rádio Clube Português, iniciando pouco depois um longo trajeto internacional. Esteve sete anos na agência Associated Press durante a Guerra do Vietname e colaborou como correspondente da alemã DPA até 1970. Rumou em seguida a Londres, onde integrou a secção portuguesa da BBC ao longo de cerca de cinco anos.
O regresso a Portugal deu-se logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, assumindo as funções de diretor-adjunto de Informação para Programas não-Diários na RTP e a condução de ‘Teledomingo‘. A postura frontal causou logo atritos com o novo poder. Ao fim de duas semanas no canal público, António de Spínola exigiu o seu afastamento por ter entrevistado Pedro Pires, dirigente do PAIGC. O então Presidente da República comunicou aos responsáveis televisivos: “aquele tipo da barba nunca mais aparece na televisão”. A ordem acabou por cair por terra.
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Com o país a reinventar-se, Letria colaborou no lançamento do semanário Expresso, fundou O Jornal na primavera de 1975 e trabalhou na agência noticiosa ANOP.
Em 1978 voltou aos ecrãs para liderar ‘Informação 2’. Criou formatos marcantes como ‘Directíssimo‘ e ‘Tal & Qual’, onde juntou atualidade e entretenimento com um à-vontade inédito na época, tendo estreado em 1979 a rubrica com câmaras ocultas ‘Apanhados‘. A vitória eleitoral da Aliança Democrática, em 1980, ditou a saída da direção da RTP2 e o fim do programa. A resposta não tardou: a 28 de junho de 1980, ao lado de Rocha Vieira, Ernâni Santos e Ramon Font, transformou o formato televisivo no semanário Tal & Qual, publicação popular que chegou a atingir tiragens de 200 mil exemplares. Mais tarde, em 1988, concebeu e dirigiu a revista de informação Sábado.
O jornalista manteve uma cumplicidade de longa data com António Ramalho Eanes, iniciada em 1974 nos estúdios da RTP, quando o militar era diretor de programas. Letria viria a desempenhar as funções de porta-voz e assessor de comunicação de Belém durante o segundo mandato do chefe de Estado. No mesmo período, liderou o Sindicato dos Jornalistas e recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, em 1986. Antes disso, o Prémio da Imprensa referente a 1974 distinguiu o tom vivo com que conduzia as transmissões.
Numa carreira repleta de presenças mediáticas, assinou formatos na rádio e na televisão como ‘O Dito e o Feito’ (RDP), ‘Já Está’, ‘Rosa dos Ventos’, ‘Conversa Afiada’ e ‘Café Lisboa’. Passou pela Antena 1, Rádio Comercial, Rádio Geste, pelo jornal 24 Horas e por órgãos internacionais como o The European, a Antena 3 espanhola e a australiana ABC. Em anos mais recentes, manteve rubricas nos programas ‘A Tarde é Sua’, na TVI, e ‘Roda Livre’, na TVI24.
Em agosto de 1998, um comentário em antena levou à abertura de um inquérito judicial por difamação e discriminação racial. O DIAP e o tribunal de instrução apontaram o mau gosto das declarações, mas arquivaram o caso por não ter havido intenção de incitamento à discriminação.
O episódio originou o livro ‘A Verdade Confiscada. Escândalo – A Armadilha da Nova Censura’ e afastou o comunicador da televisão regular durante 17 anos. Publicou ainda títulos como ‘Histórias para Ler e Deitar Fora’ (1987), ‘Pequeno Breviário Jornalístico’ (1999), ‘Livro de Assentos’ (2000), ‘A Foto’ e ‘A Arte da Crónica – Um Pontapé nos Textículos’.
Sempre reservado quanto à família e aos filhos, dedicou mais de duas décadas ao ensino, lecionando na Escola Superior de Jornalismo do Porto, na Universidade Independente, na Universidade Autónoma de Lisboa, na Universidade Lusíada, no ISCIA e na Universidade Sénior do Seixal.
Em 2018 comissariou a mostra ‘Cheias de 67’ no Museu Municipal de Vila Franca de Xira, dedicando o final da vida a ações cívicas e à doação de centenas de volumes da sua biblioteca pessoal.