Os famosos ‘apanhados’ na lista do “Uber da Droga”
Nuno Ricardo apanhado pela PSP após um ano de investigação, com a mãe e sócio também no banco dos réus.
Foi preciso um ano de investigação minuciosa para a PSP desvendar a teia de tráfico que operava na Grande Lisboa, batizada pelos próprios agentes de “Uber da Droga”.
No centro desta operação estava Nuno Ricardo Nogueira dos Santos, um nome que se tornou sinónimo de uma rede de distribuição de estupefacientes que servia uma clientela variada, incluindo figuras conhecidas do público português. A condenação chegou a 28 de maio, no Campus de Justiça, em Lisboa, revelando não só a dimensão do negócio como a complexa história por detrás do seu líder.
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A investigação da Divisão de Investigação Criminal da PSP foi implacável, com escutas telefónicas a desempenharem um papel crucial. Um dos momentos que ilustra a familiaridade de Nuno Ricardo com os seus clientes ocorreu a 16 de setembro de 2024. Pouco antes das dez da manhã, o ator José Carlos Pereira ligava para Nuno Ricardo, que os clientes conheciam simplesmente por “Ricardo“. O ator, a caminho de Lisboa pela A5, queria marcar um encontro com o “Uber da Droga”.
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Uma conversa breve, de menos de um minuto, repetida pouco depois para confirmar a localização. O que nenhum dos dois sabia era que cada palavra era escutada pelos investigadores, que já seguiam Nuno Ricardo há doze meses, atentos à sua carteira de clientes VIP: profissionais da representação, do desporto e até ex-concorrentes de reality shows como o Big Brother ou Casados à Primeira Vista. José Carlos Pereira, contactado pelo Observador, não respondeu aos pedidos de esclarecimento e foi dispensado de depor em tribunal.
A detenção de Nuno Ricardo aconteceu à porta de casa, quando se preparava para um momento de lazer com a família. No interior da sua residência, a PSP descobriu um verdadeiro arsenal de substâncias ilícitas, que ocupam duas páginas inteiras da sentença.
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No escritório, em gavetas de uma cómoda, estavam 334 comprimidos de MDMA de diversas cores, mais de 79 gramas de MDMA em embalagens, comprimidos de 2C-B, cocaína, cetamina e quase 60 selos de LSD. Uma balança de precisão, com vestígios de cocaína e cetamina, frascos e sacos herméticos para acondicionar a droga, e até sacos com imagens de notas de euro, onde o produto era guardado, completavam o cenário. Na sala, dentro de um móvel, mais de 250 gramas de cocaína, em embalagens “em tudo semelhantes às entregues pelo arguido aos seus clientes”. E no roupeiro do quarto, numa bolsa preta, mais de 247 gramas de MDMA e cetamina.
Mas Nuno Ricardo não era um lobo solitário. Na mesma noite, duas horas depois, Leonel Nhaga, o seu sócio, foi detido em plena Praça Marquês de Pombal, em Lisboa. A sua entrada na operação deu-se no verão anterior, quando Nuno Ricardo já não conseguia dar resposta a todos os pedidos. Com ele, a PSP encontrou 13 embalagens de cocaína, cinco saquetas de cetamina e MDMA, mais três embalagens de MDMA, 38 comprimidos de ecstasy e mais de cinco gramas de cetamina. No seu quarto alugado, os agentes descobriram 30 embalagens com cocaína, 320 pastilhas de 2C-B, 45 pastilhas de MDMA e 4.550 euros em notas, guardados numa pequena bolsa da TAP e Benamôr.
A família de Nuno Ricardo também se viu envolvida no processo. Embora a sua companheira, assistente de bordo na TAP, tenha sido ilibada por falta de provas de gestão financeira ou preparação de doses, o mesmo não se passou com a mãe, Lucinda Santos. O tribunal deu como provado que Lucinda “era responsável por uma das ‘casas de recuo’, procedendo à guarda das embalagens para acondicionar cocaína, 2C-B, LSD, MDMA e cetamina”. Nas buscas à sua casa, a PSP encontrou, de facto, frascos, sacos herméticos e tubos para o efeito. Mas a sua função não era apenas passiva. Entre as 43 conversas telefónicas intercetadas pela PSP, 12 eram entre mãe e filho, com os mesmos códigos usados com os clientes, como “ténis prontos” ou “caixas“.
Uma dessas chamadas, a 24 de outubro de 2024, revelou Lucinda a cobrir a ausência do filho, que estava no Algarve, encontrando-se com “pessoas” no Largo do Rato e depois à porta do Liceu Francês, em Lisboa, para recolher e entregar “produto“, confirmando a transação com um emoji.
Entre os clientes intercetados, Marta Gil, atriz e comentadora de reality shows, foi um nome sonante. Contactada pelo Observador, não respondeu. Em tribunal, negou ter comprado droga a Nuno Ricardo, garantindo que nem sequer sabia que o “amigo” traficava.
A PSP, contudo, intercetou onze chamadas entre os dois, ao longo de três meses. Numa delas, a 12 de julho, Marta ligava a Nuno, que estava a “cozinhar”, antes de ir para o festival Alive. O namorado da atriz foi fotografado pela PSP a entrar e sair da casa do “Uber da Droga” em menos de dois minutos, mas disse não ter memória do que lá foi fazer. A 4 de agosto, dia do seu aniversário, Marta, num bar de praia, tentava que Nuno lhe enviasse alguém com “aquilo”, ponderando Uber, Glovo ou comboio. A 1 de setembro, pediu a Nuno que passasse na sua casa, e quando este disse que teria de ir antes à casa dele, a atriz respondeu: tinha percebido a mensagem. Em fevereiro do ano passado, na Divisão de Investigação Criminal, Marta admitiu ter consumido haxixe pontualmente no passado e que “aquele clássico”, numa conversa a 16 de outubro, era a expressão que utilizava “quando precisava de desabafar”.
O judoca olímpico Jorge Fonseca, medalha de bronze em Tóquio 2020, também foi apanhado nas escutas. A 4 de outubro, de madrugada, Jorge ligou a Leonel Nhaga, a quem conhecera no ginásio. Queria “pastilhas“, o que levou Leonel a repreendê-lo por falar abertamente ao telefone. Em tribunal, o atleta admitiu que Leonel lhe tinha cedido pastilhas e que sabia que ele vendia droga. O advogado de Jorge Fonseca, João Ferreira, explicou ao Observador que: “Uma noite, alcoolizado, juntamente com uns amigos, ligaram ao Leonel para ele lhe dispensar quatro pastilhas de ecstasy. E é verdade que se deslocaram junto do Leonel, mas o Jorge nunca chegou a tomar qualquer substância psicotrópica, mesmo estando de férias dos campeonatos. Nem naquele momento nem noutro, ou qualquer outro tipo de substância, como é fácil de provar pela quantidade de vezes que é controlado ao longo do ano em períodos de treinos e competições pelas entidades nacionais e internacionais responsáveis por esses controlos”, acrescentando ainda que: “Naquele momento, ponderou bem o que iria fazer, e decidiu não o fazer.”
A história de Nuno Ricardo, contada na sentença, é marcada por um passado trágico. Filho de um toxicodependente, assistiu a anos de violência doméstica até que, aos 17 anos, matou o pai durante um episódio de agressões, cumprindo um ano de prisão efetiva por homicídio.
Tentou reorientar a vida, dedicando-se ao desporto e a vários negócios, mas a pandemia interrompeu a sua atividade laboral. Em 2022, regressou ao consumo de drogas psicadélicas e, daí, à venda. Os juízes descrevem esta transição: “passou a adquirir estupefacientes inicialmente para consumo próprio e, mais tarde, para ceder e depois para vender a terceiros, processo gradual descrito como motivado não propriamente por necessidades financeiras, mas pelo sentimento de pertença e reconhecimento obtido, passando a beneficiar de um estatuto privilegiado junto de pares e amigos, algumas figuras mediáticas, vivência referida como socialmente gratificante passando a aceder a contextos de convívio e lazer de forma diferenciada e exclusiva, sentindo-se conhecido e respeitado”.
Apesar da tentativa de Nuno Ricardo de “desresponsabilizar as co-arguidas, a mãe e a mulher”, como sublinhou a procuradora do Ministério Público, o tribunal validou parcialmente essa tese, ilibando a companheira por falta de provas. Contudo, a “prova segura, coerente e convergente” recolhida durante a investigação, “demonstra a existência de uma atividade de venda de estupefacientes, reiterada no tempo, a utilização de meios organizados e divisão funcional de tarefas, a posse de quantidades e instrumentos incompatíveis com consumo próprio e a intenção lucrativa subjacente”. Nuno Ricardo foi condenado a cinco anos e meio de prisão efetiva. Leonel Nhaga recebeu quatro anos e meio de prisão, e Lucinda Santos, a mãe, quatro anos e três meses, sendo que as penas destes dois últimos foram suspensas por cinco anos.