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Pedro Chagas Freitas recorda superação do filho Benjamim: “O meu sonho agora é o tédio”

Pedro Chagas Freitas esteve no Dois às 10 e falou sobre a angústia da doença do filho Benjamim, as lições que aprendeu e o desejo de uma vida focada na normalidade e no tédio.

Pedro Chagas Freitas esteve no programa Dois às 10 para apresentar o seu mais recente romance, mas a conversa com Cláudio Ramos depressa recaiu sobre a fase dramática que viveu com o filho Benjamim.

O autor abriu o coração para falar sobre o período de angústia e incerteza no hospital, que culminou com o transplante da criança, e detalhou o impacto profundo que essa experiência teve na sua forma de olhar para o mundo e de valorizar as pequenas coisas.

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O apresentador começou por questionar se o título de uma das suas obras recentes, relacionada com a ideia de que somos felizes e não sabemos, refletia a falta de valorização do presente. “Sim, é. E quando estamos em momentos mais profundos, digamos, acabamos por sentir isto de uma maneira diferente e acaba por ser uma viagem a isso, não é?”, concordou o autor. Sobre a mudança radical na sua vida após o problema de saúde do filho, Pedro Chagas Freitas foi contundente: “Mudei tudo praticamente. Acaba por ser um antes e um depois, por isso é que é quase um renascimento dele, sobretudo, e nosso. Eu já nem sei quem era antes, na verdade.

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Assumindo o peso dessa transformação, não hesitou em ser crítico com o seu passado. “Neste momento eu já nem sei quem era, portanto, eu acho que era um idiota. É o que eu acho que era. E tenho perfeita consciência disso e agora sou menos idiota, um bocadinho pelo menos”, confessou.

A experiência no hospital alterou totalmente as prioridades da família, que percebeu que andava a “desperdiçar-se”. Benjamim tornou-se, assim, a grande referência de Pedro Chagas Freitas. “Ele é de facto o meu mestre. Eu digo isto, as pessoas pensam: ‘É uma maneira de falar’, mas não é. Ele todos os dias me ensina coisas e naquele período, sobretudo, ensinou-nos muito”, partilhou. O autor defendeu que o mundo, frequentemente construído de forma “adultocêntrica“, deveria adaptar-se mais à visão profunda e essencialmente humana das crianças, afastando-se da robotização imposta pelas regras e contas para pagar. “O meu propósito é de facto esse, é ser a pessoa que ele me mostrou que eu sou”, assegurou.

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O impacto desta mudança de perspetiva ficou evidente quando Benjamim descreveu um dia feliz como “um dia cheio de nada”. A frase levou Pedro Chagas Freitas a repensar a cultura do preenchimento e da produtividade constante. “Normalmente nós aqui fora dizemos (…) ‘foi um dia em cheio’. Portanto, ele está cheio de tudo. De repente ele diz-me que o grande dia é o dia cheio de nada, é o dia em que não acontece nada”, explicou. Para evitar recaídas nas queixas mundanas, o autor criou uma estratégia visual: “Sempre que eu me estou a levar a sério (…) pego no telemóvel um segundo, uma fotografia nossa no hospital, olho para o que está aqui e: ah, maravilhoso, tenho um privilégio tremendo.”

A atualização sobre o estado de saúde do filho trouxe tranquilidade, com a garantia de que Benjamim está “ótimo” e tem uma vida tranquila, apesar dos cuidados regulares de um doente transplantado. Esta estabilidade é encarada agora como a maior bênção da família. “Nós estamos sempre a queixar-nos da rotina (…). De repente, quando nós estávamos lá fechados, isto era o maior privilégio do mundo. Era o que eu pedia todos os dias, tragam-me a normalidade, tragam-me a rotina, tragam-me o ram-ram, tragam-me tudo exatamente igual”, desabafou. Com um sorriso, Pedro Chagas Freitas sublinhou a sua nova filosofia: “O meu sonho agora é o tédio. Sou fascinado pelo tédio agora.”

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