Evocando as memórias do avô e da mãe nascidos em Valpaços, Tânia Laranjo confessou que é impossível “escolher lados” perante a tragédia.
Tânia Laranjo recorreu às redes sociais para partilhar um desabafo emotivo a propósito da vaga de incêndios que atinge o país. A jornalista da CMTV deteve-se sobre a realidade vivida no norte de Portugal e a relação entre as populações locais e a Guarda Nacional Republicana em momentos de evacuação.
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Na sua publicação, a profissional descreveu a dinâmica que testemunha no terreno. “Há uma espécie de dança, nestes dias de fogo, entre a GNR e os homens e mulheres das aldeias transmontanas. Uma dança antiga, feita de ordens e de respostas, de preocupação e de raízes. A GNR bate à porta: ‘É preciso sair.’ A pessoa acena que sim, prepara-se, entra no carro. Chega ao largo da aldeia, olha para trás, vê a casa lá longe e pensa que talvez ainda falte só ‘um bocadinho’. Quando se dá conta, já voltou. Outros nem chegam a partir: fecham a porta, ficam em silêncio e espreitam pela janela como quem espera que o fogo perceba que aquela casa não é uma casa qualquer“, relatou.
Tânia Laranjo sublinhou a dualidade de perspetivas envolvidas no resgate e na defesa dos bens. “E talvez seja aí que está a verdade desta história. Não é uma luta entre quem tem razão e quem não tem. A GNR olha para aquelas pessoas e vê vidas que é preciso proteger. Vê o perigo, o vento, as chamas a aproximarem-se. Quem vive naquela aldeia olha para a mesma paisagem e vê outra coisa: vê o pai, o avô, os anos de trabalho, as memórias guardadas em cada canto. Vê uma vida inteira que não cabe numa mala“, observou.
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A ligação pessoal à região de Trás-os-Montes acabou por fundamentar a sensibilidade da repórter perante a aflição dos habitantes. “É difícil explicar a alguém que nunca sentiu a força daquela terra que, para um transmontano, sair de casa não é apenas fechar uma porta. É, por momentos, deixar para trás uma parte de si. Talvez esta história me toque tanto porque também é a minha história. É a história do meu avô Luís, nascido em Valpaços. É a história da minha mãe e do meu tio, nascidos em Trás-os-Montes. É a história de uma terra que me ensinou que as raízes não se veem, mas seguram-nos de pé“, confidenciou.
A jornalista concluiu a mensagem frisando a complexidade humana que envolve os cenários de catástrofe. “Por isso, quando estou ali no meio, não consigo escolher lados. Não vejo teimosos nem heróis. Vejo pessoas a lutar pela mesma coisa: uns a tentar salvar uma vida que está em perigo; outros a tentar proteger a vida que construíram. E talvez seja essa a parte mais dura dos incêndios: às vezes, não há um lado certo. Há apenas diferentes formas de amar“, rematou.
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