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Xana Carvalho em ‘Alta Definição’: “O João levou um tiro na cara, mas ele está bem…” Toda a história!

A cantora revelou o choque ao receber a notícia do acidente de João, quando Leonor tinha apenas 26 dias

O nascimento da filha Leonor não foi como Xana Carvalho sonhara. “Foi complicado o nascimento da Leonor. Muita confusão”, recordou a convidada de Daniel Oliveira no ‘Alta Definição’, da SIC.

Contou que a epidural não fez efeito e que as dores a deixaram confusa. “Depois deixaram-me sozinha e eu queria estar com o João, queria que o João estivesse ao pé de mim. Foi assim um bocado atribulado.”

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Naquele momento de aflição, chegou a desabafar que não queria ter mais filhos. “Eu não quero mais, não quero mais, isto é uma grande confusão, isto dói, eu não quero”, confessou. Mas tudo mudou quando a filha lhe foi colocada na barriga. “Foi uma coisa maravilhosa. E o João assistiu ao parto depois. E ajudou também no parto, ajudou-me a fazer força. Foi uma coisa incrível.”

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Daniel Oliveira descreveu o momento como “poderoso”, e Xana Carvalho concordou. “É isso mesmo, a palavra é essa. Momento poderoso. A natureza fala por si, o nosso corpo transforma-se. O nosso corpo reage a uma transformação violenta. É violento, o parto é um momento violento, mas que depois vem com uma mensagem de amor enorme.” Frisou que é a mulher que “está a dar vida”, que permite que “aquele ser que está dentro de ti, que foi alimentado por ti, dentro de ti, nos conheça, que tenha a vida que hoje tem”. Para Xana, é “poderoso, mágico, é tudo”, e o corpo da mulher “é maravilhoso, mesmo”.

Xana Carvalho em 'Alta Definição': "O João levou um tiro na cara, mas ele está bem..." Toda a história!
Xana Carvalho em ‘Alta Definição’: “O João levou um tiro na cara, mas ele está bem…” Toda a história!

A conversa levou Daniel Oliveira a questionar a distância temporal do dia 16 de janeiro de 2006. “Já começa a ser a semana passada”, adiantou Xana Carvalho, referindo-se à capacidade que ela e o marido, João, têm hoje de manter alguma distância emocional. Aquele dia, porém, provocou-lhes “uma dor enorme”, mudou-lhes a vida e a “essência quase”. “Moldou-nos muito a personalidade. Porque existe uma Xana antes e depois, existe um João antes e depois.”

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A notícia do acidente do marido chegou quando Leonor tinha apenas 26 dias. Xana Carvalho estava em casa quando João, militar da GNR, saiu cedo para uma busca domiciliária. “Eu ainda lhe digo: ‘Por favor, tenha cuidado.’ Algo me disse, senti mesmo essa necessidade: ‘Por favor, tem cuidado.'” Ele tentou tranquilizá-la: “Não, amor, está tudo bem, vai correr tudo bem, é uma coisa normalíssima.”

Perto do meio-dia, enquanto Xana estava deitada com a bebé, a campainha tocou. À porta, encontrou o padrinho de Leonor, também colega do João, acompanhado por mais duas pessoas. “Nós temos de falar porque aconteceu uma situação com o João”, disseram-lhe. Xana Carvalho começou a sentir-se aflita, mas nunca pensou na gravidade. “O João levou um tiro na cara, mas ele está bem”, foi a forma como a informaram.

“Comecei logo a ficar muito aflita. Sei que comecei a ficar gelada e a sentir o chão a fugir-me dos pés”, confessou. As pessoas que a acompanhavam eram psicólogos da GNR, preparados para a situação. A estratégia foi não dar a notícia completa de imediato, devido ao facto de Leonor ter acabado de nascer e ao impacto que a verdade poderia ter. “Aí agradeço muito, não sei se também foi por conselho dos psicólogos, o facto de me terem dito: ‘O tiro na cara não pareceu tão grave.’ Pensei: ‘Ok, foi de raspão.’ Porque se me tivessem dito que o tiro foi na cabeça, pensei: ‘É porque está morto.’ Mas não, houve esse cuidado, essa forma de dizer.” A partir daquele momento, a vida de Xana “virou completamente ao avesso”.

“Com uma filha com 26 dias, como é que se segura o mundo?”, perguntou Daniel Oliveira. “Não sei, Daniel”, admitiu Xana, que tinha apenas 24 anos. “Eu sei que entrei muito em piloto automático. A minha vida resumia-se a estar com a Leonor, alimentar a Leonor, ir a correr para o hospital para estar com o João. Nos primeiros tempos, sem saber como é que ele ia ficar.”

Xana Carvalho em 'Alta Definição': "O João levou um tiro na cara, mas ele está bem..." Toda a história!
Xana Carvalho em ‘Alta Definição’: “O João levou um tiro na cara, mas ele está bem…” Toda a história!

João esteve nove dias em coma no Hospital de São José. No dia seguinte ao acidente, Xana Carvalho foi vê-lo pela primeira vez, após a cirurgia. “Eu não sabia o que é que ia ver. Quando entro dentro dos cuidados intensivos, o vejo em coma, todo entubado, ele enorme, muito inchado, não tinha penso nenhum na cara, tanto é que ele perdeu o olho esquerdo.” Xana não conseguia perceber a extensão dos ferimentos, apenas perguntava aos médicos o que achavam. “Nós não sabemos, temos que esperar. Isto agora, os primeiros dias são cruciais. Não sabemos se ele vai sobreviver. Se sobreviver, como é que vai ficar? Quais são as sequelas?” João tinha sofrido uma hemorragia cerebral.

Xana sentia-se “anestesiada” perante o “choque de realidade muito forte”. Mais tarde, um médico informou-a da “enucleação do olho esquerdo”. “Eu não sabia o que isso era. ‘Explica lá, porque eu não sei.’ ‘Não, ele não tem olho, nós tirámos-lhe o olho.’ Foi assim uma forma muito fria de dizer.” Os nove dias de coma foram “horríveis”, com os médicos a tentar “reduzir o coma para ver como é que ele reage”.

Daniel Oliveira quis saber o que lhe passava pela cabeça com uma filha a ser amamentada e um marido naquelas circunstâncias. “Não existia futuro”, respondeu Xana Carvalho. “Muitas vezes eu dizia: ‘Então e agora, como é que vai ser a minha vida?’ Não conseguia fazer planos. Era: ‘Tenho que viver o presente.'”

Além do peso emocional, surgiram as preocupações financeiras. Xana continuava a trabalhar num escritório de contabilidade, mas o subsídio de maternidade ainda não tinha sido recebido. “Comecei a ver a minha vida andar para trás porque era a parte emocional de ver o meu marido na cama do hospital, ter uma filha bebé, mas depois a vida real a acontecer. As contas para pagar, ter que comer para poder alimentar a minha filha, comprar fraldas.” Xana temeu a falta de dinheiro, apesar de a GNR ter garantido o pagamento do ordenado do João.

Recebeu apoio dos colegas do marido e da família. A mãe mudou-se para a sua casa durante um ou dois meses, e as tias faziam-lhe companhia à noite. Mas a rotina era extenuante: verificar mensagens do hospital, cuidar da Leonor, amamentar, tirar leite para a mãe dar à bebé, e depois ir para o hospital passar a tarde com João. “Era sempre a chorar”, confessou. A pediatra chegou a proibi-la de chorar enquanto amamentava. “Ela foi muito desejada por nós, muito desejada. E aquilo ter acontecido foi uma traição do destino ou dos nossos sonhos. Roubaram ao João a oportunidade de viver aqueles momentos com a filha. Viver aqueles momentos comigo, roubaram à Leonor a oportunidade de ter o pai ali perto dela. E isso começava a entrar dentro da minha cabeça e era impossível de controlar as lágrimas.”

Xana Carvalho admitiu ter “muito medo do pior”. Temia que João não sobrevivesse ou que ficasse uma pessoa “completamente diferente”, violento ou revoltado, o que considerava “válido”. A pergunta “porquê” era constante. “Porquê é que isto tinha que acontecer ao João? E porquê é que isto tinha que nos acontecer a nós? Nunca fizemos mal a ninguém.” João era “um profissional incrível”, apaixonado pela GNR e pelo trabalho de investigação. “Mas é uma pergunta que eu tive-me a obrigar a deixar de fazer, porque não há explicação. Aquilo aconteceu, temos que viver agora esta etapa. E a ultrapassá-la.”

Quando João acordou do coma, não se lembrava de ter uma filha. “A memória recente dele desaparece, ele não se lembra que tinha uma filha, o que foi muito complicado, Daniel, muito complicado.” Durante os três ou quatro meses seguintes, João sofreu uma regressão cognitiva. “Ele parecia um miúdo de 15, 16 anos. Não era o homem que eu conhecia. Ele vivia muito o prazer momentâneo. Ele não sabia falar, ele trocava as palavras, ele não se conseguia expressar.”

Xana Carvalho amava-o, mas “não o reconhecia”. “Eu olhava para ele e pensei: ‘Ok, tu és o João, casei contigo, és o meu amor desde sempre, mas neste momento eu não te estou a reconhecer.’ A pouco e pouco eu tive que ir conhecendo aquela nova pessoa que ali estava.” Um dos aspetos mais difíceis foi o facto de João não querer a Leonor, algo “impensável” para quem antes “cheirava” a filha e dizia: “Não aguento este cheiro, eu adoro este cheiro.” Agora, com a bebé a chorar, João apenas dizia: “Xana, a bebé está a chorar.”

“O que é isto? Que vida é esta?”, perguntou-se Xana. Sentiu que era seu dever como mãe e mulher “devolvê-los um ao outro”. Com o estômago “completamente revoltado” e um nó na garganta, começou a agir. Perguntou à pediatra se podia mudar a rotina da Leonor para aproximar o pai e a filha. “Tudo é válido quando o amor de um pai e de uma filha está em jogo”, respondeu a médica.

Xana mudou horários dos banhos e “obrigava-o quase”: “Agora vais ter que segurar na bebé porque eu vou ter que sair. Segura nela, tens que assegurar.” João não tinha o instinto de pai, mas Xana sabia que “ele tinha aquilo dentro dele”. Lentamente, as coisas foram mudando. “Eu comecei a perceber que ele ouvia a chucha cair, ele já tinha o instinto de ir. Eu pensei: ‘Ok, o amor que os une está a acordar.'”

Durante todo este processo, Xana Carvalho nunca contou a ninguém sobre as dificuldades que enfrentava com o marido. “Tinha muito medo de não conseguir. Havia momentos em que eu olhava e pensava que não sei se o meu amor pelo João iria resistir a olhar para ele naquela altura, completamente diferente do que era.” Desde sempre, João tinha sido a sua proteção masculina, mas após o acidente, os papéis inverteram-se. “Era eu que tinha que o proteger, porque eu sentia-me como se fosse a mãe dele.”

Xana sentia-se a “chamar a atenção” ao marido, como se estivesse casada com um adolescente. “Não, vais ter que comer agora, tens de tomar a medicação.’ ‘Mas não me apetece!’ Imagina, estás casada com um adolescente. Não dá, eu queria o meu marido de volta, eu queria o pai da minha filha de volta.” Recordou um episódio à mesa em que João queria mais sopa, mas não conseguia dizer a palavra. “Ele não conseguia dizer sopa, porque ele queria mais sopa, mas andava ali a tentar ver se encontrava a palavra certa.” Até que, num momento, ele lhe disse: “Não, Xana, eu quero S-O-P-A.” Xana notou que, apesar do cérebro afetado, ele arranjava “forma de se comunicar”. “É como se nós, imagina, temos um caminho para fazer todos os dias para ir para o trabalho. Nós vamos sempre por ali, mas há um dia em que aquele caminho está com obras e nós temos que encontrar um outro caminho, que se calhar é um pouco mais longo, mas chegamos lá. E foi exatamente isso que aconteceu com o João.” Este exercício diário de comunicação era preocupante, pois Xana temia que “isto vai se calhar ser sempre assim”.

Daniel Oliveira questionou se era apenas o amor que justificava a sobrevivência a tudo isto. “Eu acho que é o amor, Daniel, porque eu acho que o amor é a base de tudo. Se houver amor verdadeiro, há o respeito pela história que nós vivemos, há empatia. É o amor na verdadeira essência da palavra. Existe um amor muito forte que nos une, mas mesmo muito forte. Nós não desistimos um do outro. Mesmo, mesmo.”

João descobriu que tinha perdido o olho esquerdo ao ver-se ao espelho. “Eu tentei evitar, eu queria que ele fosse informado por um médico.” Mas, ao ir à casa de banho, João viu o seu reflexo. “Eu tento pôr-me à frente do espelho e ele está a lavar as mãos, mas só me diz assim: ‘Xana, desvia-te.’ E eu: ‘Porquê?’ […] Ele só me afasta a cara e faz isto, assim, e não vê a mão.” Na altura, tinha uma prótese castanha, de cor diferente do seu olho. “O que é isto? Estou um monstro”, disse João ao ver-se. “Aquilo foi muito difícil, porque ele sempre foi um homem bonito e para mim continua a ser lindíssimo, mas ele era uma pessoa que gostava de cuidar, olhava-se ao espelho e era vaidoso.” Xana notou que, a partir daí, as coisas “começaram a descambar um bocadinho”.

A verdadeira viragem na recuperação de João aconteceu quando teve de fazer a reconstituição do que tinha acontecido com a Polícia Judiciária e com o próprio indivíduo que o baleou. “Foi a partir exatamente desse momento que o foco da vida do João mudou. Comecei a vê-lo motivado, mais interessado pela Leonor, mais focado na recuperação dele e a querer regressar novamente ao trabalho dele.” Xana perguntou-lhe o motivo da mudança. “Ele dizia-me: ‘Eu não fiz mal a ninguém, não fui eu quem errei. Aquele homem roubou-me dias de vida da minha filha, dias de vida ao teu lado, mas não me vai roubar a vida. Ele tentou, mas não vai conseguir.'” Xana frisa que, a partir desse dia, João revelou uma força inabalável. “Posso dizer que ele é a pessoa mais forte que eu conheço. Uma força interior, aguenta tudo, mesmo com medo ele vai, tem uma coragem incrível e inspira-me. Lá está, é um homem maravilhoso.”

Quando tudo acalmou, Xana Carvalho desabou. “Sim, quando tudo acalma. Foi quando tive a minha primeira depressão. É um cansaço extremo.”

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