A psicóloga não poupou nas palavras e associou este tipo de pensamento conservador ao aumento alarmante da assimetria de poder e da violência de género em Portugal.
A polémica declaração do influenciador digital Numeiro sobre a divisão de contas nos casais e o surpreendente apoio prestado por Liliana Aguiar ao criador de conteúdos acenderam os ânimos no «Passadeira Vermelha» (SIC Caras).
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Na emissão desta quarta-feira, conduzida por Liliana Campos, Filipa Torrinha Nunes liderou o painel, que contava também com Zulmira Garrido e Sofia Jardim, e protagonizou uma dura análise aos discursos machistas que continuam a ecoar na sociedade portuguesa.
Tudo começou com as afirmações de Numeiro no Fly Podcast. Gravado no Dubai, o momento depressa se tornou viral, com o jovem a mostrar-se absolutamente chocado com a divisão equitativa de despesas entre casais, justificando o seu espanto com o investimento monetário e temporal da mulher.
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“Eu acho que isso é completamente ridículo, né? Então uma mulher é capaz de passar 8 horas a decidir o que é que vai vestir e comprar se calhar um vestido novo, a maquilhar-se, a pensar como é que vai ter a melhor postura (…) e tu chegas a seguir e pedes-lhe 22,50 € pelo jantar? Se for preciso gastou 80 € em maquilhagem, no vestido e nos saltos e tudo, e tu agora pedes-lhe 22,50 € pelo jantar, meu? Isso é um paneleiro, não é um homem!“, disparou Numeiro.
O discurso controverso encontrou eco positivo em Liliana Aguiar pois, a antiga modelo recorreu às redes sociais para elogiar publicamente as palavras de Numeiro, apelidando a entrevista de “super interessante” e “educativa para alguns supostos homens”, a quem classificou de “princesos”.
“Se houvesse mais homens como o Numeiro, mais educações como provavelmente os pais lhe deram, havia menos princesos e mais homens felizes, porque a verdade é que não é tudo sobre dinheiro, é sobre posicionamento, é sobre cavalheirismo. Não quer dizer que a mulher não possa trabalhar. A mulher não tem é que ter o peso de pagar as contas“, defendeu.
As posições adotadas por ambos caíram como uma bomba no estúdio da SIC Caras. Filipa Torrinha começou por desconstruir o raciocínio da antiga modelo com recurso à ironia e ao choque: “Eu achei piada, só para preâmbulo, dizer que o Numeiro teve uma intervenção educativa e interessante, é tipo a piada do ano. Eu acho que isto fascina-me, é um nível que eu não estava à espera. Eu às vezes, juro-vos, isto não é por mal, mas às vezes eu fico cansada de ocupar o mesmo espaço físico que alguns pensamentos. Eu partilho o mesmo oxigénio que este tipo de ideologias e de pensamentos. Isto é tão simplesmente ignorante“.
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A psicóloga aprofundou a gravidade destas dinâmicas, sublinhando que as decisões de um casal devem partir da vontade de ambos e não de papéis sociais impostos, alertando para o retrocesso dos tempos modernos e para a perigosa “caminha bem fértil” que este tipo de crenças ajuda a construir.
“A violência doméstica não começa com a violência doméstica, começa muito antes com aquilo que é a cultura da violência doméstica. E como é que esta caminha é criada? Porque há este tipo de pensamentos [que] começam a ser normalizados, porque isto é uma assimetria de género que, quando é normalizada, faz parte de uma cultura onde temos números elevadíssimos de violência doméstica“, sustentou.
Filipa Torrinha terminou a sua intervenção vincando a necessidade de travar a validação de pensamentos misóginos e opressivos disfarçados de humor ou conselhos nas plataformas digitais, acusando-os de sustentarem tragédias muito reais na vida das mulheres portuguesas. “Os pensamentos deste género, de que o homem tem o dever de X e a mulher tem o dever de Y, não existem no vácuo, não existem sozinhos e não são inócuos e não são inofensivos. Eles são muito graves (…). Esta é que é a gravidade, é que estas coisinhas giras das redes sociais fazem parte de um conjunto de outros pensamentos e crenças que estão na base da violência doméstica“, rematou a comentadora.