“Compreender não é desculpar”: Pedro Chagas Freitas aborda caso de Lindsay Clancy
O escritor Pedro Chagas Freitas reflete sobre tragédia de Lindsay Clancy
O escritor analisou a morte de três crianças nos Estados Unidos e a saúde mental materna.
O escritor Pedro Chagas Freitas partilhou uma extensa reflexão nas suas plataformas digitais a propósito do caso de Lindsay Clancy, a mulher norte-americana que tirou a vida aos três filhos pequenos durante um quadro grave de transtorno mental.
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O autor começou por reconhecer a dimensão dolorosa da tragédia: “Há 3 crianças mortas. Chamavam-se Cora, Dawson e Callan. Tinham 5 anos, 3 anos e 8 meses. Não quero diminuir nada: 3 crianças morreram, foram mortas pela mãe, Lindsay Clancy. É horrível, continuará a ser horrível no fim deste texto“.
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Pedro Chagas Freitas destacou os sinais de alerta prévios emitidos pela mulher antes do desfecho fatal, lembrando que o sofrimento psicológico foi reiteradamente sinalizado aos serviços médicos: “Lindsay pediu ajuda. Nos meses anteriores, procurou profissionais de saúde mental, foi medicada, foi internada, escreveu sobre o que estava a sentir, pesquisou sobre depressão pós-parto, psicose, alucinações, insónia, falou de pensamentos intrusivos. Queria ficar bem“.
Ao analisar a cobrança desmedida que a sociedade continua a impor sobre as mulheres após o parto, Pedro Chagas Freitas sublinhou que a procura por compreender os contornos da patologia não significa validar o ato: “Não temos de ser binários. Compreender não é desculpar. Somos tantas vezes cruéis com as mães“.
O escritor apontou a sobrecarga diária que recai sobre o papel materno e a facilidade com que o julgamento social se instala perante qualquer momento de pausa pessoal: “Uma mulher produz seres humanos, dá-os à luz, passa meses ou anos a acordar durante a noite, alimenta-os, limpa-lhes vómito, mede-lhes febres às 4 da manhã (…) Mas se for uma hora ao Pilates é uma má mãe“.
O autor advertiu que a ideia de que a maternidade exige a anulação total da identidade feminina é uma armadilha perigosa para o equilíbrio mental: “A maternidade ainda traz uma fantasia de anulação. É perigoso. A mãe precisa de dormir, de ficar sozinha, de comer, de trabalhar ou de não trabalhar, de amigos. Precisa de dizer ‘não estou bem’ sem ter de ouvir ‘mas tens uns filhos tão lindos’“.
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Ao clarificar a gravidade clínica do problema, Pedro Chagas Freitas alertou para os sintomas severos que podem surgir no pós-parto e que não devem ser confundidos com falhas de caráter: “A psicose pós-parto é uma emergência psiquiátrica. Pode trazer delírios, alucinações, paranoia, perda de contacto com a realidade. Algumas doenças mentais são vistas como defeitos morais. Não são“.
A rematar a sua mensagem, o escritor dirigiu palavras de conforto a todas as mulheres que enfrentam batalhas silenciosas e exaustão extrema na criação dos filhos: “Ter pensamentos intrusivos não faz de alguém uma má mãe, estar exausta não faz de alguém uma má mãe, precisar de ajuda não faz de alguém uma má mãe, querer uma tarde sem os filhos não é abandono. Pode ser o contrário disso: pode ser cuidado“.
O autor concluiu o texto com um apelo à escuta ativa e à atenção da sociedade perante os pedidos de socorro que muitas vezes passam despercebidos: “Não sei qual será a decisão no caso de Lindsay Clancy. Sei que temos de pensar nas tantas, tantas, mulheres que estão a dizer baixinho que não estão bem. Estamos a ouvir alguma delas?“.