Ao recordar a evolução da sociedade após a revolução de Abril, o criador dos Ena Pá 2000 lamentou a aposta no facilitismo e nos mexericos em direto.
O músico, artista plástico e docente universitário Manuel João Vieira foi o convidado deste sábado no programa «Alta Definição», conduzido por Daniel Oliveira na SIC. Ao longo de uma entrevista em que abordou o seu percurso pessoal, a criação de personagens icónicas e a recente corrida às eleições presidenciais, o mentor de bandas como os Ena Pá 2000 e os Irmãos Catita deixou reparos contundentes à forma como o setor audiovisual tem ‘evoluído’ em Portugal.
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Instado a analisar a realidade do país despido das suas máscaras cómicas, o convidado começou por traçar uma linha temporal que recua até ao período anterior a 1974 onde, Manuel João Vieira reconheceu transformações em várias áreas da sociedade, mas salientou que o surgimento da concorrência na década de 1990 provocou um recuo cultural notório no pequeno ecrã.
A esse respeito, lamentou que “a partir da emergência dos novos canais houve uma grande abertura, mas pouco a pouco foi havendo uma queda de nível intelectual dos mass media, que era a nossa televisão“.
Para o artista, as estações optaram por uma estratégia deliberada de nivelamento por baixo, reduzindo a complexidade dos conteúdos com o pretexto de agradar a um perfil simplista de espectador. O pintor apontou que as estações privadas inauguraram esse caminho e que a própria estação pública falhou na sua missão ao replicar a mesma receita comercial, sublinhando que “houve sempre uma grande necessidade de ir pelo lado da estupidificação das audiências. O povo é engraçadinho e pobrezinho (…) e eu acho que isso pesou muito e depois a televisão pública foi atrás das privadas“.
Manuel João Vieira estabeleceu ainda uma relação direta entre essa mudança nas grelhas e o nascimento do fenómeno da música de cariz popular e ligeiro, explicando como a instrumentação eletrónica banalizou as raízes sonoras do país.
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O entrevistado advertiu que essa lógica de espetáculo ligeiro rapidamente transbordou para o quotidiano dos programas de entretenimento, substituindo as conversas de rua pela exposição contínua da vida alheia nas emissões diárias. A propósito dessa dinâmica de conflito e coscuvilhice, rematou que “as vizinhas já não estão a intrigar à janela. Agora têm uma televisão que faz a intriga por elas e aquilo tudo é um mundo curioso“.
Nascido em outubro de 1962, com uma carreira dedicada às artes e ao ensino na ESAD das Caldas da Rainha, Manuel João Vieira justificou ainda que as suas intervenções extravagantes e candidaturas satíricas funcionam como um escape perante a decadência mediática e política, defendendo que o riso continua a ser a melhor resposta à perda de sentido crítico da sociedade.