Nuno Nabais reflete sobre a inércia humana: “Pensar é uma violência”
Da livraria no Bairro Alto à Fábrica: Nuno Nabais e o sucesso do 'Stand-Up Philosophy'
Na sua entrevista a Joana Gama, o filósofo refletiu ainda sobre a dificuldade inerente ao ato de pensar, assumindo que sair da rotina e questionar evidências exige um esforço que não é natural no ser humano.
Levar a Filosofia ao grande público, desmistificando a sua complexidade e quebrando as barreiras académicas, tem sido a grande missão de Nuno Nabais. No podcast «Não Sei Ser», de Joana Gama, o filósofo recordou a origem dos seus debates informais, que hoje ganham vida nas noites de ‘Stand-Up Philosophy’ na Fábrica Braço de Prata, um projeto que prova que pensar também combina com descontração.
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Tudo começou numa pequena livraria no Bairro Alto, em 2001. Nabais confessou que, inicialmente, temeu o julgamento dos seus pares face ao ambiente informal. “Ao princípio eu tinha medo que as pessoas rejeitassem, escolher o cenário do debate das universidades para uma livraria-bar do Bairro Alto, como se fosse uma degradação de dignidade. Um desprestígio“, contou. A realidade, porém, foi o oposto: o formato foi um sucesso absoluto. “As universidades já estavam completamente viciadas nos convidados óbvios e dos aborrecimentos (…) e, portanto, toda a gente que eu convidava sentia que havia ali um upgrade da ideia de filosofia“, recordou.
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Mais tarde, com a mudança para o vasto espaço da Fábrica Braço de Prata, o conceito cimentou-se e, as sessões regulares de ‘Stand-Up Philosophy’ tornaram-se um porto seguro para quem procura refletir, de copo na mão e sem o peso dos traumas escolares.
Mas por que motivo é que a procura por estes espaços é necessária? Para Nuno Nabais, a justificação é simples e crua: a mente humana não procura a reflexão de forma voluntária. “Pensar não é uma coisa que nos aconteça naturalmente (…) Ninguém pensa porque quer pensar“, alertou o professor.
Recordando a sua experiência a ensinar filosofia a crianças do ensino básico, Nuno Nabais explicou que instigar o pensamento exige abalar as fundações do dia a dia. “Pensar é uma violência face à nossa vida quotidiana. É interromper certos hábitos, é sentir uma certa tontura diante de alguns objetos (…) Faz parte da condição humana estar agarrado a um conjunto de experiências básicas que nos tornam menos preparados para dar o salto para pensar. A sobrevivência, não é?“, concluiu, apoiando-se na visão do pensador francês Gilles Deleuze para justificar que o pensamento é sempre um ato de rutura.
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