Ângelo Rodrigues premiado na Índia com ‘Born Blind’: documentário de 17 minutos filmado no Saara
Em conversa no programa do V+ TVI, o artista recordou a viagem até Nouakchott e apontou Ruy de Carvalho como exemplo de longevidade.
Ângelo Rodrigues trocou o ecrã pela cadeira de realização na curta-metragem documental “Born Blind” (“Nascido Cego”), distinguida com o prémio de Melhor Filme de Consciencialização Social no Rohip International Film Festival, na Índia.
Na emissão de terça-feira, 20 de outubro, do programa V+ Fama, do V+ TVI, o ator entrou em direto a partir do Brasil para conversar com Adriano Silva Martins e com os comentadores Cláudia Jacques, Marta Aragão Pinto e António Leal e Silva sobre o filme de 17 minutos.
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O apresentador introduziu o tema destacando a mudança de rumo na vida do convidado após tempos conturbados: “O ator refugiou-se no trabalho e fugiu de polémicas do passado para se preparar para uma curta-metragem. A carreira de Ângelo como realizador renascido já está a dar os seus frutos”.
Ligado a partir de São Paulo, onde o fuso horário tem menos quatro horas, Ângelo Rodrigues explicou como nasceu o projeto gravado em 2024 e concluído este ano: “Falando do ‘Born Blind’, isto foi uma curta-metragem documental que fiz, que aconteceu em 2024, está pronta agora em 2026, finalmente. E eu fui atrás de uma história que tinha lido e sobre a qual havia poucos registos.” O artista detalhou de seguida o fenómeno que lhe despertou a curiosidade e que o levou a viajar para o continente africano: “Então esta notícia falava de uma comunidade no deserto do Saara onde se dizia que, nessa comunidade, metade das crianças que nasciam, nasciam cegas, e não há uma explicação para isso. Então eu fui atrás dessa história, viajei para a capital da Mauritânia, que é Nouakchott, e sem saber bem se ia encontrar esta comunidade”.
No terreno, o trabalho exigiu ajuda local para chegar ao destino. O intérprete relatou o auxílio recebido para localizar a aldeia isolada: “O que é certo é que falei com algumas pessoas na Mauritânia, o meu fixer, que basicamente é o meu produtor de exteriores, a pessoa responsável por me levar até à comunidade, que depois nos levou até lá e de facto confirmámos que nas profundezas do deserto mauritano existe uma comunidade de pessoas que são invisuais e que continuam à volta deste mistério que não conseguem resolver. E então eu desloquei-me até lá para tentar não resolver este mistério, mas para perceber mais sobre a sua realidade.”
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O contacto direto com a população acabou por alterar a perspetiva inicial da obra durante as filmagens, conforme confessou o realizador: “Na verdade, eu cheguei à aldeia com uma pergunta sobre a cegueira, mas depois, quando eu comecei a ouvir os intervenientes, os convidados do documentário, as crianças, quando eles me disseram que, podendo escolher, eles preferiam continuar cegos, eu percebi que o centro do filme não era mais sobre a cegueira, mas a forma como eles entendiam a sua própria condição. E no fundo eu fui explorar essa ideia, que é como é que se imagina um mundo quando nunca se viu, a partir desse princípio”.
Adriano Silva Martins partilhou os elogios feitos na véspera por uma amiga em comum e elencou o percurso internacional da obra: “Ontem falei com uma grande amiga nossa, que é a Eva Domingues, e que já viu esta tua curta-metragem documentário, que diz que é absolutamente maravilhosa. A história que nos estás a contar é absolutamente tocante e de repente os prémios começam a aparecer. Ganhaste um prémio em França, ganhaste um prémio na Índia, no Nepal, na Turquia, estás agora no Brasil, onde também acho que o ‘Born Blind’ está nomeado”.
Questionado sobre o arranque fulgurante na realização, Ângelo Rodrigues mostrou-se satisfeito com as distinções alcançadas nos festivais de cinema: “Sinto-me bem. Obviamente todos nós gostamos que reconheçam o nosso trabalho, e quando ele é reconhecido é muito gratificante, e é como se fosse um combustível que temos para continuar a fazer.” Ainda assim, lembrou que este caminho já tem uma década de existência longe dos holofotes: “Isto é um trabalho que eu venho a fazer nos últimos dez anos, ou seja, isto é apenas a ponta do icebergue, porque, no fundo é o sexto documentário que eu gravei em seis países. Portanto, até agora são seis documentários em seis países diferentes, e é isso que eu quero continuar a fazer no futuro. É gratificante e quero continuar a fazer isto para o resto da vida e contar outras histórias que estejam aí escondidas pelo mundo”.
Quanto ao futuro e à possibilidade de deixar a representação para trás, o ator apontou o exemplo de longevidade de um colega da produtora Yellow Star Company: “Como ator nós dependemos exclusivamente de uma coisa que é a memória. Portanto, enquanto a memória não me faltar, nós temos o exemplo maior que até trabalha perto de mim na Yellow Star Company, que é o Ruy de Carvalho. O Ruy de Carvalho tem 99 anos. E se tudo correr bem, no próximo domingo vou ver o espetáculo dele.”
O intérprete garantiu por isso que as duas profissões vão coexistir sem que uma anule a outra: “Portanto, o trabalho dá-lhe força, e ele depende da memória ainda. Portanto, enquanto ele tiver memória, ele continua a trabalhar, e assim eu também. E como realizador, é um caminho paralelo, não é uma coisa que substitui outra, são paralelos”.
Desfeita a ligação com o Brasil, o painel em estúdio analisou esta nova etapa do convidado. Cláudia Jacques sublinhou o contraste com as notícias anteriores sobre o ator e recordou o seu gosto por explorar o mundo: “Que bom que é vermos o Ângelo agora nesta fase tão positiva, porque nós aqui já falámos do Ângelo num registo muito diferente, nas polémicas da vida do Ângelo que aconteceram, mas se calhar são processos e às vezes estas pessoas depois, à conta disso, têm uma visão sobre eles próprios e sobre o mundo diferente depois de passarem por essas situações. E o Ângelo mostra aqui uma das suas paixões, que é viajar. Isso já sabemos desde sempre, que o Ângelo adora viajar, conhecer outros povos, outras realidades, ter outras experiências. E como ele diz, já não é o primeiro documentário que faz, já é o sexto noutros países.”
A comentadora confessou ainda a sua surpresa perante a realidade retratada no deserto africano: “Eu acho maravilhoso. Olha, eu nunca tinha ouvido falar desta comunidade que vive no deserto do Saara, em que metade da população nasce cega e vivem sendo invisuais, mas com esta força de viver e trabalham, cuidam dos animais e fazem a sua vida e não gostariam de trocar. Ele acabou de dizer isso e por isso é isso que está muito patente nesta curta-metragem, é ver que, afinal de contas, estas pessoas preferem continuar na sua condição de vida e não teriam o desejo, se fosse possível, de mudar a sua condição.”
Por fim, Cláudia Jacques destacou a mensagem de fé transmitida pelos habitantes do Saara e felicitou o artista pelo reconhecimento obtido: “O que é que as leva a aceitarem? Pelos vistos, um dos aspetos é a fé que têm e aceitar que Deus, se decidiu que eles iriam nascer com esta condição, é para aceitar e para agradecer estarem vivos e saberem aproveitar a vida assim e aprenderem a viver desta maneira. De facto, só com esta fé e esta forma elevada de espírito é que se consegue. É uma lição de vida, é verdade. E acho muito interessante. Os meus parabéns ao Ângelo por estar a mostrar estes documentários e sobretudo também agora a ganhar os prémios, que é o que ele diz, que é para ele continuar a fazer mais e mais”.
A fechar o tema, Adriano Silva Martins recordou os problemas de saúde que puseram a vida do intérprete em perigo no passado para deixar um elogio ao seu trabalho: “O que é uma realidade também é que as últimas vezes que falámos aqui do Ângelo Rodrigues no nosso programa foi pelo escândalo que teve, que foi outra vez parar ao hospital em coma e que a sua vida correu um risco. Mas o que é uma realidade também é que o talento se sobrepõe aos escândalos. Às vezes parece que o lamaçal nos arrasta, mas aqui quando há talento de verdade, ele sobrepõe-se”.