As memórias de Herman José nos anos noventa: “Um artista é tanto mais livre quanto menos comprável for”
Como será que o Herman responderia a todas as questões da altura... agora?
Foi no ano de 1993 que a televisão portuguesa assistiu a uma das fases de transição mais marcantes na carreira de Herman José.
A preparar-se para encerrar um ciclo de três anos à frente do concurso A Roda da Sorte, cujo último episódio foi para o ar a 31 de dezembro desse ano, o humorista e apresentador concedeu [na altura] uma entrevista reveladora à revista TV Guia que o DIOGUINHO recupera agora. Uma verdadeira cápsula do tempo.
Numa perspetiva histórica, recorda-se como o comunicador, embora odiasse a rotina, confessou ter conseguido combatê-la através da constante improvisação e de uma postura irreverente durante as gravações daquela época.
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Logo no início do ano seguinte, a 3 de janeiro de 1994, Herman assumiria um novo desafio diário na grelha da RTP: “Com a Verdade me Enganas”. Esse novo programa, desenhado com autoria própria, prometia uma dinâmica muito diferente para a televisão da altura, permitindo a interação direta dos concorrentes, além de incluir momentos musicais e vários convidados.
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Naquele contexto, o apresentador destacava que o concurso teria uma forte componente didática e cultural, auxiliando o público daquele tempo, especialmente os mais jovens, na atualização da sua cultura geral.
Naquela entrevista que hoje serve de arquivo, Herman avaliou a sua evolução no ecrã e admitiu que o programa Parabéns estava a ser uma excelente escola. Prestes a celebrar os seus quarenta anos, sentia que tinha atingido a maturidade mínima para sustentar boas conversas, embora reconhecesse que ainda estava a aprender a gerir o tempo e o ritmo das entrevistas. O apresentador confessou-se um verdadeiro viciado no meio televisivo, revelando que mantinha aparelhos ligados em todos os compartimentos da casa, incluindo no seu escritório. Definiu o seu consumo mediático como um zapping constante, tratando a televisão da mesma forma de quem acende a lareira para fazer companhia.
Após duas décadas de trabalho que descreveu como intensas, o humorista afirmou ter conquistado a sua independência e vincou a sua visão intemporal sobre a liberdade no meio artístico: “Um artista é tanto mais livre quanto menos comprável for”. Apesar de possuir uma memória de elefante para o que de mal lhe fizeram no passado, garantiu na altura não ser vingativo, encarando o regresso das suas entrevistas antigas como um sintoma de grande saúde e de liberdade editorial dentro da televisão pública dos anos noventa.
No que tocava à criação humorística, o comunicador partilhou um esgotamento marcante. Herman revelou que se tinha gasto como autor, especialmente após três anos intensos a escrever crónicas diárias para a rádio TSF, admitindo estar na época incapaz de produzir uma única linha, embora ainda apreciasse discutir e melhorar os textos de outros autores.
O profissional reconhecia também que os concursos eram autênticos filões de audiências para os canais, por serem produtos leves que não exigiam grande concentração de um público cansado, funcionando como um complemento descontraído.
Ao perspetivar o seu futuro institucional, Herman José não descartava eventuais mudanças para a SIC ou para a TVI, canais privados que davam os seus primeiros passos com forte impacto, mas sublinhou o seu profundo bem-estar na estação pública. Nesse ambiente, priorizava a alegria no trabalho em detrimento da guerra dos números e das audiências. A despedida daquele ano de 1993 seria coroada com uma emissão especial do Parabéns, projetando receber a icónica atriz Beatriz Costa.

